25 março, 2026

Resiliência

Aleatoriamente um toque de poesia



Há dias em que a vida nos dobra. Não quebra, não parte, só dobra  feito galho molhado depois da chuva. A gente sente o peso, o frio, o vento contrário. E pensa: “acho que dessa vez não volto ao lugar de antes”. Mas volta. De outro jeito, talvez mais torto, mais sábio, mais terno ainda mas,  volta.

Resiliência não é resistência. Resistir é ficar imóvel, peito travado, sem deixar o mundo entrar. Ser resiliente é o contrário: é permitir-se atravessar. É aceitar o susto, a dor, o medo, e ainda assim continuar se abrindo para o dia seguinte.

Eu já fui aquela que tentava controlar o destino com as duas mãos, como quem segura uma corda curta demais. Hoje, aprendo que o segredo está em soltar um pouco. Deixar o tempo ensinar o que o orgulho não deixa ouvir. Há quem pense que resiliência é força. Talvez seja, mas uma força mansa. Daquelas que não gritam, só persistem. A força das mães que reconstroem os dias, dos que perdoam mesmo sem desculpa, dos que seguem mesmo cansados.

O mundo anda apressado demais pra notar a beleza dos recomeços silenciosos. Mas há uma graça enorme em quem, depois de cair, limpa o rosto e diz: “vamos de novo”.
Resiliência é fé em movimento. É o verbo esperançar em sua forma mais íntima.
E quando o vento dobrar outra vez, como sempre faz, que a gente se lembre: não é o fim, é apenas o tempo ensinando a curvar sem perder a essência.


Fernanda

7 comentários:

  1. Amiga Fernanda, boa noite de paz!
    "Resiliência não é resistência."

    Per-fei-to!

    Um texto reflexivo onde pondera, discerne a vida e pontua o melhor.
    Nas dobraduras do viver, saímos inteiras pela Graça Divina.
    Tenha dias abençoados!
    Beijinhos fraternos


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  2. Lindas tuas reflexões,Nanda e sempre conseguimos voltar...Por mais que o galho quebre, recomeçamos...beijos, tudo de bom,chica

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  3. Nossa, Nanda, que texto bem urdido sobre a resiliência. Uma aventura linguística ou poética?
    É importante distinguir resiliência de resistência e saber que não há casamento entre uma e outra.
    Gosto da deglutição das duas palavras no seu poema. Elas se somam ao primeiro olhar. E precisamos aprender a nos conectar com a resiliência que habita em nós, nos indivíduos. E que saibamos acordá-la para que vivamos melhor quando ela se tornar indispensável em nossa vida.
    Abraços, minha querida amiga,
    José Carlos

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  4. Olá Fernanda, querida amiga!
    Como vai a tua recuperação? Espero que tudo esteja a correr bem.
    Os teus textos é que são cada vez mais fascinantes. Levam sempre a refletir sobre eles, dar uma olhada dentro de nós e quiçã, mudar auguns comportamentos.
    Hoje falas de resiliência. E eu extraio do teu belissimo texto uma conclusão:
    A força excessiva, nunca resolve o problema, antes o torna ainda mais complicado. A força deve ser gradual, aplicada com conta, peso e medida, com a sensibilidade de quem sabe que não se pode colher uma flor com um martelo.

    Deixo-te desejos de rápido restabelecimento. Cuida-te bem!
    Um carinhoso abraço para ti... e saudades!...

    albino

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  5. Olá Fernanda!
    Tem razão!
    Tentar de novo, de novo e de novo é para aqueles que encontraram a razão para viver.

    Um abração!!!!

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  6. Oi, Fernanda! Como você tem passado? Que tenhamos resiliência nas dificuldades das tormentas da vida e não tenhamos resistência de constatar nossa fragilidade e pequenez diante de Deus e o Cosmos. Se cuida, viu. Um fraterno abraço!

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  7. Saber recomeçar e, principalmente o tempo certo e a conveniência em fazê-lo é uma sabedoria que conduz nossas vidas às maiores vitórias.
    Te desejo boa semana.

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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)