Sentei-me à mesa com Dona Matilde, e antes mesmo de o café tocar meus lábios, senti.
Como uma onda silenciosa quebrando por dentro: eu já estive aqui.
O cheiro do café, o jeito como ela mexia o açúcar,
o modo como a luz da manhã se derramava pela janela…
tudo parecia repetido de uma lembrança que eu nunca vivi.
Era como se o tempo me piscasse os olhos,
soprando segredos de um instante que já foi.
Talvez em outro tempo, outra vida,
ou talvez num sonho que insisti em esquecer.
Olhei para ela. Ela também parou.
A xícara suspensa no ar, os olhos distantes.
Você sentiu? perguntei, sem saber bem o quê.
Ela sorriu com ternura, como quem já sabe o nome dos mistérios.
Às vezes, o coração reconhece o que a mente não alcança.
E assim, seguimos: eu, ela e aquele instante eterno,
repetido como poesia no fundo da alma.
Chamam de déjà vu.
Eu chamo de reencontro.
Fernanda
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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)