Aleatoriamente um toque de poesia
Crônica
Drummond, com aquela sabedoria que só quem observa o mundo pelas frestas da alma possui, disse certa vez: “arrume a casa todo dia, mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo para viver nela.”
E é incrível como uma frase tão simples pode carregar tanta verdade oculta daquelas que passam por nós como brisa, mas ficam vibrando na memória como uma campainha silenciosa.
No fundo, ele não estava falando apenas de casa.
Estava falando de vida.
Porque tem gente que passa tanto tempo tentando colocar tudo em ordem, ajustar cada detalhe, aparar cada aresta, que esquece de existir dentro do próprio cotidiano. Gente que limpa, organiza, planeja, administra… mas não vive.
Drummond nos lembrava que arrumar a casa é importante claro que é.
Mas arrumar a alma, a rotina, o coração… isso também é. E se a gente passa o dia todo apenas “arrumando”, sobra o quê para sentir? Para respirar? Para ser?
Há um tipo de arrumação que aprisiona. Aquela que exige perfeição, brilho, controle. Aquela que coloca cadeiras no lugar, mas tira a gente do nosso eixo.
Aquela em que quanto mais se arruma, mais parece faltar.
E há a arrumação que liberta. Aquela que coloca cada coisa no seu canto e, ao mesmo tempo, abre espaço para a gente viver.
Tirar o peso, reduzir o excesso, silenciar a culpa.
Arrumar só o bastante para que a vida possa circular pela casa e dentro de nós.
Porque casa não foi feita para ser museu.
Foi feita para ser habitada.
Pisada, respirada, bagunçada, recuperada.
E a vida, da mesma forma, não foi feita para caber em rotina perfeita, mas em rotina possível. Um pouco de ordem, um pouco de bagunca, e um tanto de “desarrumação”
O que Drummond queria dizer é simples e profundo:
não transforme sua existência num eterno serviço doméstico de si mesmo. Não viva limpando, remendando, editando quem você é, como se fosse um objeto que precisa estar sempre impecável.
Organize o que for preciso, sim. Mas faça isso com carinho. Com leveza.
Com a sabedoria de quem sabe que tudo o que é vivo desarruma um pouco.
Deixe tempo para sentar no sofá do próprio eu.
Para ouvir sua respiração como quem ouve música.
Para olhar o teto e agradecer por ter um teto.
Porque, no fim, o mais difícil não é arrumar a casa.
É aprender a viver dentro dela.
E Drummond esperto como sempre só queria nos lembrar disso.
Fernanda
Que o domingo chegue manso,
abrindo janelas na alma.
Que a paz encontre cada um onde estiver na casa simples,
no coração cansado,
no silêncio que acalenta.
E que Deus, com Sua delicadeza infinita,
coloque mãos de cuidado sobre o nosso dia,
abençoando passos, pensamentos e afetos.
Que seja um domingo de luz, de descanso e de fé.
Um domingo de Deus dentro e ao redor de nós.🙏🏻😘
Descobri mais uma Fernanda!!!!
ResponderExcluirA Filósofa! Que texto maravilhoso, Nandinha, pura filosofia! E como isso aprisiona as pessoas, pessoas que se preocupam demais com a casa. Acho que deve ser limpinha e organizada, mas fazer disso uma obsessão já é uma neura!
Mais aplausos pra você, Nandinha, você não existe! kkk
Beijinho, um bom domingo! 🌹❤️
Tais querida,
ExcluirQue delícia ler teu carinho! Você sempre faz festa com as palavras parece que já chega iluminando a sala e acendendo um sorriso na gente.
E é verdade: quando a gente transforma a casa numa espécie de prisão brilhante, o brilho acaba ficando por fora, nunca por dentro. A organização é boa, claro, mas viver é muito mais do que manter gavetas em ordem. Filosofia mesmo é encontrar espaço para respirar, sentir e rir de nós mesmas.
Obrigada por me enxergar com esses olhos tão generosos. Você é um encanto.
Beijinho grande!❤️
Bah, Nanda! Linda reflexão sobre a nossa casa e o viver bem nela. Nas de neuras temos que ter! Não precisamos nos "matar" ,querendo tudo nos mínimos detalhes,perfeição! A minha no tempo dos filhos e netos tinha brinquedos espalhados que pra mim, até enfeitavam tudo. Importa saber que foi limpa, o resto ´resto, é detalhe. Nada de =Museu mesmo! Adorei! Lindo domingo e feliz dezembro! chica
ResponderExcluirChica querida,
ExcluirTu sempre acertas em cheio: casa é para ser vivida, não exibida. Esse negócio de “museu” só serve pra deixar a alma tensa, varrendo o riso para debaixo do tapete. Também penso assim brinquedos, conversas soltas, vida circulando… tudo isso enfeita mais do que qualquer objeto perfeito no lugar perfeito.
O importante é o cheiro de casa cuidada, não de casa vigiada. E tu, como sempre, traz essa lucidez doce que abraça.
Beijo grande, e um dezembro cheio de leveza!
😘
Bom domingo de Paz, querida amiga Fernanda!
ResponderExcluirSempre disse que minha casa näo é Museu. Tanto que, quando vem alguém, eu preciso preparar tudo para receber. Por que? Eu tenho as coisas a meu favor por aqui, para facilitar minha vida cotidiana.
Sei onde está tudo que preciso e onde está as coisas na minha "bagunca". Minha sala se trassforma no meu escritório (ler, escrever) e ateliê de artesanato. Tiro tudo ao receber alguém do meu coração. Preciso dividir 'meu espaço'...
Eu que preciso me sentir confortavelmente aqui. E me sinto.
Ontem mesmo, dei uma de Gata Borralheira, comprei o refill novo do mop e limpei as vidraças todas (janelas e porta da sala).
Ficou tudo nos conformes.
Minha casa é meu lugar preferido.
Posso percorrer o mundo, mas ficar aqui é bom demais.
Ninguém me perturba nem eu perturbo ninguém.
Visita? Só vêm os íntimos dos íntimos.
Nem mostro casa (costume antigo ultrapassado) , não é museu.
Sala espaçosa, varanda e banheiro social e ponto final. Näo é passeio publico.
O demais é intimo, só meu e dos meus.
É lugar sagrado que recolhe minhas dores, minhas necessidades e meu eu.
Drummond tinha razão. E você também...
É para ser 'usada' nossa casa, por ela, todo cuidado para nosso bem-estar, näo para mostrar posses e patrimônio a ninguém.
É presente divino para nos abrigar cá na Terra.
Honestanente, eu agradeço a Deus todo dia pelo meu Lar.
Não me gera escravidão e sim, harmonização.
Meu coração está aqui, nela habito com todo meu ser e amor.
Tenha um final de mês abençoado!
Bom domingo e final de mês, querida.
Beijinhos fraternos
P.S. Não preciso de muito para ser feliz.
Roselia querida,
ExcluirQue coisa mais bonita é ler teu amor pela tua casa e pelo teu jeito tão próprio de habitá-la. Dá para sentir, em cada linha, o aconchego desse espaço que é abrigo, templo, oficina, silêncio e fé.
E é tão sábio o que tu dizes: casa não é museu, nem vitrine, nem pista de desfile. É extensão da alma. Cada objeto no seu “lugar bagunçado”, cada canto que te serve, cada ritual pequeno até o mop novinho enfrentando vidraças tudo isso conta a história de quem vive ali, e não de quem visita.
Também acho que o lar é esse território sagrado onde a gente pode ser inteira, desalinhada, inspirada, descansada… e profundamente nossa. Caminhar o mundo é bom, mas saber voltar para um espaço que te acolhe sem te cobrar perfeição é uma dádiva.
Obrigada por esse depoimento tão cheio de verdade. Drummond sorri, e eu também.
Beijinhos fraternos,😘
Poeticamente perfeito. Deixo o meu aplauso e elogio
ResponderExcluir.
Muita Saúde, Paz e Amor.
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Poema: “ Abri e fechei a janela “ .
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Obrigada Ricardo!
ExcluirQue bom que as pessoas descobrem o real significado dessas palavras. Adorei.
ResponderExcluirFabiano querido,
ExcluirÉ tão bom quando a gente percebe que certas palavras tão simples, tão corriqueiras ganham outra luz quando realmente as vivemos. Fico feliz que o texto tenha te tocado desse jeito. Às vezes, basta uma fresta de compreensão para que tudo faça mais sentido.
Obrigada pelo carinho.
O Drummond esta certo e você desfiou bem a máxima do poeta. Tem hora que deixar a casa desarrumada é libertador.
ResponderExcluirEduardo,
ExcluirDrummond sabia das coisas e a gente, quando vive um pouco, acaba concordando com ele. Há momentos em que deixar a casa desarrumada é quase um gesto de autocuidado, uma trégua com o mundo. Libertador mesmo, como você disse.
Obrigada pela leitura generosa.🙏🏻
Oi, Fernanda! O mestre Drummond sempre esteve certo na sua visão de mundo. Abraço!
ResponderExcluirNem gosto de poesias. Mas Carlos Drummond de Andrade tem frases lindas, ou nas poesias ou nas prosas escritas. Beijo,
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