À maneira dos antigos diálogos, pergunto a mim mesma e talvez a você que me lê: o que se revela no homem quando ele se senta ao volante?
Seria o trânsito apenas um fluxo de veículos, ou um reflexo silencioso? Muitas vezes tenho me pegado reflexiva diante da imprudência que vejo nas ruas. Há aqueles que avançam como se o outro não existisse, como se a pressa justificasse o risco, como se a vida alheia fosse detalhe. Diga- me: pode alguém afirmar-se humano quando ignora a humanidade do outro?
O volante, que deveria ser instrumento de condução, transforma-se, para alguns, em pódio. E nesse pódio, disputa-se não uma corrida justa, mas uma vitória vazia chegar primeiro, ainda que à custa da paz, da prudência ou do cuidado.
E enquanto observo esse mundo apressado, me volto também para mim. Não fui acostumada à inércia; o trabalho sempre foi parte do meu movimento interior. Ainda assim, agora tento trabalhar como posso, limitada por um gesso que pede mais descanso.
E tudo certo! O gesso, que imobiliza, também ensina embora eu confesse, nem sempre com serenidade.
Há pequenas coisas que se tornam grandes: lavar os cabelos, por exemplo. Um gesto simples, outrora automático, agora exige deslocamento, dependência, adaptação. Vou ao salão mais vezes do que gostaria, apenas por necessidade, porque cuidar de mim é, de certo modo, preservar quem sou.
Você pode dizer: é apenas uma pausa. E eu concordaria pois a razão assim o afirma. Mas há em mim algo que ainda se inquieta, que estranha, que resiste. Talvez porque, como na vida e no trânsito, não seja fácil aceitar que nem sempre estamos no controle.
Assim, sigo refletindo: se a pressa revela imprudência, talvez a pausa revele consciência. E quem sabe, nesse intervalo entre o que quero e o que posso, eu esteja sendo convidada a aprender algo que, em movimento constante, jamais perceberia.
Mas que estou tentando me adaptar ah isso estou.
Fernanda