Hoje meus filhos voltaram às aulas. Mochilas, cadernos novos, lápis apontados, olhos brilhando de expectativa. A casa acordou diferente, com cheiro de recomeço. E enquanto eu os observava saindo, algo em mim voltou no tempo. Lembrei de quando eu era pequena e sonhava com essas mesmas coisas simples: uma mochila, um caderno só meu, um lugar para aprender.
Creio que já trazemos nossa paixão desde o berço… ops 😬 eu não tive berço. Recém-nascida, fui abrigada num orfanato. De lá, fugi tão pequenina, carregando mais medo que brinquedos, mais silêncio que colo. Mas mesmo assim, o desejo de aprender já morava em mim.
Lembro que na lixeira encontrei minhas primeiras folhas de caderno. Um lápis ganhei de um senhor da banca de revista, desses anjos anônimos que Deus espalha pela vida da gente. Fui montando meu “kit escola” assim, aos pedaços, como quem constrói um sonho com restos que o mundo descarta. Andava pelas lixeiras procurando folhas ainda “novas”, limpas de um lado, suficientes para escrever esperança.
E fiz muito esforço até conseguir sentar numa sala de aula, meu Deus… Quando finalmente consegui, não foi fácil. Sofria bullying das outras crianças porque eu não tinha sandálias. Os sapatos que a escola doava quase sempre acabavam antes de chegar em mim. Meus pés eram maiores que os calçados disponíveis. E até chegarem novos, eu ia com o que tinha. Ia descalça por dentro, mas seguia andando por fora.
Hoje, vendo meus filhos com tudo aquilo que um dia me faltou, meu coração não sente inveja do passado sente gratidão 🙏🏻 pelo presente. Agradeço tanto por eles terem o que eu não tive. Mas agradeço ainda mais por eu poder ser para eles aquilo que eu não tive: mãe. Colo. Presença. Amor que não acaba.
Desejei a eles um dia cheio de alegrias, mas, no fundo, fiz uma oração silenciosa: que nunca lhes falte dignidade, coragem e gratidão. Que saibam valorizar cada lápis, cada caderno, cada oportunidade. Porque por trás dessas mochilas cheias, existe uma mãe que um dia carregou sonhos vazios nas mãos e mesmo assim nunca deixou de acreditar.
E hoje, ao fechar a porta depois que eles saíram, eu sorri. Não por esquecer o passado. Mas por ter transformado dor em raiz, e raiz em fruto.
E enquanto a casa ficava em silêncio, sentei-me por um instante no sofá e deixei o coração falar. Olhei para as mochilas que ficaram, para os cadernos extras, para os tênis novos perto da porta… e senti que cada objeto carregava mais do que material escolar. Carregava reparação da vida.
Porque a vida, às vezes, não devolve o que tirou. Mas quando devolve, devolve através dos filhos. É neles que a história se reorganiza. É neles que a ferida aprende a virar cicatriz bonita.
Eu não tive berço, mas construí colo.
Não tive caderno novo, mas hoje compro sonhos encapados para eles.
Não tive sapatos certos, mas hoje amarro cadarços com amor e paciência.
E entendi algo precioso: eu não sobrevivi àquela infância para ser vítima do passado, mas para ser construção para o futuro. Cada manhã em que preparo o lanche, ajeito uniforme, dou beijo na testa, é como se eu dissesse para a menina que fui: “nós conseguimos”.
Talvez meus filhos nunca saibam todos os detalhes da minha história. Mas eles sentirão nos gestos, no cuidado exagerado às vezes, no abraço que demora, no “Deus os acompanhem” dito da porta da escola.Porque quem um dia andou sozinha aprende a caminhar junto.
E assim sigo: agradecendo. Não pelo que doeu, mas pelo que floresceu. Não pelo que faltou, mas pelo que hoje transborda.
Porque hoje, quando meus filhos entram na escola, não são só eles que entram.
Entra comigo aquela menina que catava folhas na lixeira.
E ela entra de cabeça erguida. Com mochila cheia de amor. E o coração, finalmente, em casa.
Fernanda