Acho interessante como, às vezes, alguém se apaixona pela escrita de uma pessoa e, sem perceber, começa a se apaixonar também pela pessoa que imagina existir por trás daquelas palavras.
Acontece!
A pessoa lê o texto, encontra uma frase que parece ter sido escrita para ela, sente uma intimidade que nem sequer foi construída e, pouco a pouco, começa a criar uma personagem dentro da própria cabeça. Às vezes vem até a mágoa.
Mas espera
um pouco…
Eu escrevo porque gosto de escrever. Gosto desde menina. Escrever sempre foi uma maneira de colocar para fora aquilo que passa por dentro de mim. Uma alegria, uma inquietação, uma lembrança, uma pergunta, uma bobagem qualquer que me fez sorrir durante o dia.
A palavra é meu jeito de conversar com o mundo. Mas ela não é um contrato. Quando escrevo sobre amor, não estou necessariamente apaixonada. Quando escrevo sobre saudade, não significa que estou esperando alguém. Quando escrevo sobre abandono, não estou pedindo para ser encontrada. Às vezes, estou apenas escrevendo.
E sabe? Essa é uma das belezas da literatura: uma mesma palavra pode morar de maneira completamente diferente em cada pessoa. Você lê e encontra você. Eu escrevo e encontro a mim. O problema começa quando alguém se apaixona por aquilo que leu e passa a cobrar da pessoa aquilo que encontrou no texto.
É como olhar uma janela iluminada e imaginar toda a casa. Só que ninguém conhece uma pessoa inteira por aquilo que ela publica. Eu mesma sou muito mais do que aquilo que escrevo. Tenho dias bonitos e dias atravessados por pensamentos que não cabem em nenhuma poesia. Tenho contradições, risadas, impaciências, silêncios, vontades e defeitos. Sou uma mulher, não uma personagem construída para corresponder ao imaginário de quem me lê,com olhos diferenciados. Sou uma pessoa comum.
Por isso, gosto quando alguém diz que se encontrou em uma frase minha. Mas não quero que se perca de si para me encontrar. Leia minhas palavras, fique com aquilo que lhe fizer bem, discorde do que não combinar com você, leve uma frase para dentro do seu dia. Mas deixe que eu continue sendo apenas quem sou. Uma mulher que escreve porque ama escrever.
E que, de vez em quando, coloca uma parte de si no papel sem imaginar que alguém vai transformar aquela parte em uma pessoa inteira. Talvez seja essa a diferença entre admirar uma escrita e inventar alguém a partir dela. E existe outra coisa que considero importante: comentário também é palavra. Você pode não gostar do que escrevi. Pode discordar de mim. Pode enxergar a vida por outro ângulo. Pode até achar meu texto completamente equivocado.
Tudo bem!
A conversa pode ser justamente aí. O que não consigo compreender é quando a discordância vira ofensa, quando alguém sente necessidade de usar palavras de baixo calão para atingir quem está do outro lado da tela. Para quê? O que isso constrói? Nada.
É tão fácil discordar com educação. É tão mais bonito dizer: “Não penso assim”, “Vejo de outra maneira”, “Não concordo com você”. Não é preciso ferir para ter opinião. Não é preciso humilhar para demonstrar inteligência. E não é preciso transformar um espaço de escrita em campo de batalha só porque alguém não correspondeu àquilo que você imaginou.
Eu prefiro os comentários que acrescentam. Até os que discordam. Porque uma boa conversa não precisa ser feita apenas de concordâncias. Ela pode nascer justamente da diferença, desde que exista respeito. E se não houver nada de bom para dizer, existe uma alternativa muito simples e elegante: não dizer nada. Nem todo texto precisa de um comentário. Nem toda pessoa precisa corresponder às nossas expectativas. Nem toda palavra precisa ser devolvida.
Às vezes,
basta seguir adiante. Eu continuarei escrevendo. Não para ser aquilo que alguém
imaginou. Não para alimentar expectativas. Não para receber aprovação.
Escrevo porque amo escrever. Porque a escrita me acompanha.
Porque algumas coisas que sinto encontram nas palavras uma casa. E quem chegar aqui será sempre bem-vindo para ler, pensar, concordar, discordar e até ir embora.
Só peço uma
coisa Pessoa: não confunda liberdade de expressão com licença para ser cruel. A
palavra pode revelar o que há de mais bonito em nós. E também pode mostrar
exatamente aquilo que ainda precisamos aprender a reformar.
Fernanda