Às vezes eu penso que toda grande descoberta começa de um jeito muito simples: alguém olhando para alguma coisa e se perguntando por quê? É uma pergunta pequena, mas foi ela que nos trouxe até aqui. Foi por causa dela que aprendemos a observar o céu, entender o corpo, descobrir os remédios, criar máquinas, atravessar distâncias e transformar aquilo que parecia impossível em parte da nossa rotina.
E eu acho bonito pensar nisso. Mas, ao mesmo tempo, existe uma coisa que me incomoda. Quanto mais a humanidade descobre, mais poder ela também acumula. E poder nunca fica simplesmente parado.
A ciência pode criar uma vacina e salvar milhares de pessoas. Pode criar uma tecnologia que aproxima quem está longe. Pode melhorar a vida de alguém que talvez nem tivesse esperança. Mas também pode criar armas, sistemas de vigilância, formas de controle e tecnologias que concentram ainda mais poder nas mãos de poucos.
Então comecei a pensar que talvez o problema não esteja na descoberta. Está em quem decide o que fazer com ela. É por isso que a frase
“A ciência se torna uma ferramenta neutra a serviço de quem está no comando” me provoca tanto.
Porque a ciência pode até ser neutra enquanto conhecimento. Mas, quando sai dos livros e dos laboratórios e entra no mundo, ela encontra interesses, dinheiro, governos, empresas, disputas e pessoas.
E aí já não existe tanta neutralidade assim.
Eu me pergunto: quem escolhe quais pesquisas serão financiadas? Quem decide quais tecnologias chegam até nós? Quem ganha quando uma nova descoberta aparece? E quem fica de fora? Talvez a gente tenha se acostumado demais a comemorar o progresso sem perguntar para onde ele está nos levando. Nós ficamos encantados com máquinas que fazem coisas incríveis, com descobertas que parecem pertencer ao futuro, com a velocidade com que tudo muda. Mas quase nunca paramos para perguntar: isso está tornando a vida de quem melhor? Essa pergunta, para mim, é mais importante do que simplesmente saber até onde a ciência consegue chegar. Porque chegar mais longe não significa, necessariamente, chegar a um lugar melhor.
A humanidade descobriu o fogo e aprendeu a cozinhar, se aquecer e sobreviver. Mas também descobriu que o fogo podia destruir. Descobriu a energia, mas também aprendeu a transformá-la em instrumento de guerra. Descobriu maneiras de conhecer o corpo e prolongar a vida, mas também descobriu maneiras cada vez mais sofisticadas de controlar pessoas.
Talvez esse seja o nosso maior paradoxo: somos capazes de criar coisas extraordinárias sem necessariamente sermos extraordinários nas escolhas que fazemos com elas.
E isso me faz pensar que talvez a ciência precise caminhar acompanhada de alguma coisa que não encontramos em um laboratório: consciência.
Porque descobrir é uma capacidade. Mas escolher é uma responsabilidade.
No fundo, penso eu não tenho medo da ciência.
Tenho medo de uma ciência sem perguntas.
De uma ciência que só pergunte “podemos fazer?” e nunca pergunte “devemos fazer?” Porque, quando o conhecimento se transforma em poder, alguém sempre estará segurando esse poder.
E é aí que tudo muda. Penso que a verdadeira questão não seja o quanto a humanidade ainda pode descobrir.
Talvez seja o que ela fará quando descobrir.
E, pensando nisso, eu chego a uma conclusão um pouco incômoda: a ciência pode nos dar ferramentas para transformar o mundo, mas são as nossas escolhas que revelam que tipo de mundo queremos construir.
Fernanda