Há dias em que a gente acorda aparentemente inteiro.
Cumpre tarefas, responde mensagens, organiza o mundo ao redor como quem tenta provar talvez para si mesmo que está tudo no lugar.
E, no entanto, não está.
Existe sempre algo que escapa. Um mistério que demora mais do que deveria.
Um cansaço que não é do corpo. Uma inquietação que não encontra nome.
Se Sigmund Freud estivesse sentado conosco em um desses dias comuns, talvez não perguntasse sobre o que fizemos, mas sobre aquilo que evitamos sentir. Porque, no fundo, não é o que vivemos que mais nos afeta é o que não conseguimos elaborar. Aprendemos a seguir. Mas nem sempre aprendemos a nos escutar.
E é curioso como nos tornamos especialistas em disfarçar o que sentimos.
Sorrimos quando dói menos explicar. Silenciamos quando falar parece arriscado.
Mudamos de assunto quando algo dentro de nós começa a pedir atenção.
Talvez Anna Freud chamasse isso de defesa. E não deixa de ser um gesto de cuidado ainda que imperfeito. A mente protege aquilo que ainda não conseguimos suportar. E há certa delicadeza nisso, mesmo quando parece confusão.
Mas proteger não é o mesmo que curar. Há partes de nós que continuam esperando.
Esperando o momento em que serão finalmente reconhecidas, não como erro, mas como história.
E se escutarmos com mais calma com aquela paciência que a vida raramente nos ensina talvez descubramos que muito do que sentimos hoje não começou hoje.
Melanie Klein talvez diria que carregamos desde cedo formas de amar, de temer, de nos defender do mundo. E isso explica por que, às vezes, reagimos de maneira tão intensa a coisas que parecem pequenas: não é sobre o agora. Nunca é só sobre o agora.
Somos feitos de camadas.
De lembranças que ficaram.
De afetos que não soubemos nomear. De versões nossas que ainda pedem acolhimento.
E talvez o mais difícil não seja entender tudo isso.
Mas permitir que exista.
Porque há uma coragem em parar de fugir de si mesmo.
Em olhar para dentro sem pressa de consertar. Em aceitar que nem tudo precisa estar resolvido para ser legítimo.
No fim, a psicanálise essa escuta paciente do interior não nos ensina apenas sobre teorias. Ela nos convida a algo mais íntimo: a reconhecer que, dentro de cada um de nós, há uma história em andamento… e que, às vezes, tudo o que ela precisa é de alguém disposto a escutar. Mesmo que esse alguém sejamos nós. Por isso, meu conselho: escreva!
Fernanda