Hoje o despertador tocou antes que o sol tivesse coragem de aparecer. Ainda estava escuro quando coloquei os pés no chão. Há dias em que o corpo pede mais alguns minutos, mas a profissão não conhece o idioma da preguiça. Alguém sempre acorda precisando de um médico.
Enquanto esperava André passar o café, fiquei olhando pela janela. O céu ainda era um rascunho da manhã. Gosto desse instante em que o mundo parece respirar devagar, antes da pressa tomar conta das ruas. É o único momento do dia em que consigo ouvir os meus próprios pensamentos.
Deixei as crianças na escola, segui para o trabalho. Olhei meu jaleco e pensei: nunca consegui enxergá-lo apenas como uma roupa de trabalho. Para mim, ele sempre foi um compromisso. Cada vez que o visto, lembro-me da menina que um dia sonhou em cuidar de pessoas sem imaginar o tamanho da responsabilidade que esse sonho carregava.
No caminho para a clínica, vi gente caminhando para o trabalho, crianças de uniforme, vendedores abrindo suas portas. Cada pessoa seguia a sua rotina. A minha, porém, nunca é igual à de ontem. A medicina não permite repetição. Os sintomas podem parecer os mesmos, mas as dores nunca são.
A primeira paciente entrou sorrindo. Disse que estava tudo bem. Bastaram poucos minutos para que seus olhos desmentissem a própria boca. Há lágrimas que chegam antes das palavras. Há doenças que não aparecem nos exames. Aprendi que escutar continua sendo um dos remédios mais difíceis de prescrever e um dos mais eficazes que existem.
Depois veio uma criança. Chorava de medo da consulta. Sentei-me ao lado dela antes mesmo de examiná-la. Conversamos sobre desenhos, sobre cachorro, sobre sorvete. Quando percebi, ela já estava rindo. Às vezes a confiança precisa nascer antes do tratamento.
O telefone tocava. A recepção chamava. Exames para analisar. Receitas para renovar. Famílias aflitas querendo uma resposta imediata. A medicina exige conhecimento, mas também exige serenidade. Nem sempre podemos oferecer a cura. Sempre podemos oferecer respeito.
No intervalo, que deveria ser do almoço, tomei um café já frio. Nem me lembro mais de quantas vezes isso aconteceu ao longo da minha vida. Sorri sozinha. Há muito tempo deixei de reclamar do café frio. Descobri que ele apenas confirma que havia alguém precisando mais de mim naquele instante.
À tarde, um senhor segurou minhas mãos depois da consulta. Não disse quase nada. Apenas agradeceu por eu ter escutado sua história inteira. Fiquei pensando nisso durante horas. Talvez ele nem precisasse tanto da médica. Talvez precisasse apenas de alguém disposto a enxergá-lo como pessoa.
É curioso como cada paciente deixa um pouco de si comigo. Há aqueles que levo para casa em pensamento. Pergunto-me se tomaram o remédio, se conseguiram dormir, se a febre passou, se encontraram coragem para continuar. O consultório fecha, mas a mente da médica continua aberta.
Também existem dias difíceis. Dias em que preciso comunicar um diagnóstico que ninguém gostaria de ouvir. Dias em que volto ao banheiro apenas para respirar fundo antes de chamar o próximo paciente. Ninguém ensina isso na faculdade. Aprendemos anatomia, fisiologia, farmacologia… mas ninguém nos ensina como continuar sorrindo quando o coração pesa.
Às vezes as pessoas imaginam que médicos se acostumam com a dor. Não é verdade. Apenas aprendemos a caminhar ao lado dela sem deixar que nos paralise. Se um dia eu deixar de me emocionar diante do sofrimento humano, talvez seja o momento de pendurar o jaleco.
No fim da tarde, quando a última consulta terminou, fiquei alguns minutos sozinha no consultório. O silêncio também faz parte da medicina. Ele ajuda a organizar aquilo que o coração recolheu durante o dia.
Voltei para casa cansada. Um cansaço que não mora apenas nas pernas, mas também na alma. Ainda assim, era um cansaço bonito. Daqueles que nascem quando sabemos que fizemos tudo o que estava ao nosso alcance.
Escrevendo estas linhas, percebo que continuo acreditando na mesma razão que me trouxe até aqui: cuidar é uma das formas mais profundas de amar. Nem sempre conseguimos vencer a doença. Nem sempre podemos mudar o destino. Mas sempre podemos impedir que alguém atravesse a dor sentindo-se sozinho.
Talvez seja isso que eu faça todos os dias. Não apenas exerço a medicina.
Eu coleciono histórias. E, sem perceber, cada uma delas também vai cuidando de mim.
Quando a porta de casa se fecha atrás de mim, deixo do lado de fora o barulho da cidade, mas não consigo deixar todas as histórias. Algumas entram comigo sem pedir licença.
O cheiro do jantar espalhado pela casa tem um poder curioso. É como se dissesse: “Agora você pode descansar. ” Sabe? Nem sempre consigo.
Sentamo-nos à mesa. Gosto desse ritual simples. O pão repartido, a conversa sobre o dia, as risadas das crianças que ainda conseguem transformar qualquer assunto em brincadeira. Elas não imaginam que, muitas vezes, são elas que me devolvem a leveza que ficou pelo consultório.
Depois do jantar, chega a minha parte preferida do dia.
Uma a uma, as crianças vão escovando os dentes, escolhendo o pijama e carregando seus bichinhos de pelúcia. Há sempre quem peça um copo d’água, quem diga que ainda não está com sono e quem invente mais uma pergunta apenas para adiar alguns minutos o momento de dormir.
Então nos reunimos.
Apago a luz mais forte e deixo apenas o abajur aceso. A claridade amarela desenha sombras delicadas nas paredes, e a casa inteira parece falar mais baixo.
Abro um livro… ou, muitas vezes, crio uma história.
Conto sobre um passarinho que tinha medo de voar e descobriu que o céu também acolhe quem treme. Falo de uma árvore que permaneceu de pé durante a tempestade porque suas raízes conheciam a profundidade da terra. As crianças escutam com olhos enormes, como se cada palavra fosse uma janela para outro mundo.
No fundo, sei que não conto histórias apenas para elas.
Também conto para mim.
Cada personagem acaba me lembrando um paciente, um amigo, alguém que conheci ao longo da vida. Talvez seja por isso que nunca me faltem histórias. Todos os dias o mundo escreve algumas páginas diante dos meus olhos.
Quando termino, faço um carinho em cada testa, ajeito a coberta, dou um beijo demorado e escuto, quase sempre em coro:
Boa noite mamãe.
E respondo baixinho:
Que Deus cuide dos sonhos de vocês meus amores.
Fecho a porta do quarto devagar, como quem protege um pequeno universo.
A casa finalmente silencia.
É nesse instante que volto para o meu quarto. Tiro o relógio, guardo o estetoscópio, dobro o jaleco que deixei na cadeira com cuidado. Faço questão de tratá-lo com respeito. Ele foi testemunha de mais um dia em que tentei aliviar dores que nem sempre podiam ser curadas.
Sento-me por alguns minutos antes de dormir.
Não peço riquezas. Não peço facilidades.
Apenas agradeço.
Agradeço pelas mãos que ainda conseguem cuidar. Pelos ouvidos que ainda sabem escutar. Pelos olhos que ainda enxergam o sofrimento do outro sem se tornarem indiferentes.
Agradeço pelos pacientes que confiaram em mim, pelos colegas que caminharam ao meu lado, pela família que me espera todas as noites e transforma uma casa em abrigo.
Também agradeço pelas dificuldades.
Foram elas que me ensinaram que a medicina não mora apenas nos livros. Ela mora na compaixão. Mora na paciência. Mora no olhar que não tem pressa.
Antes de apagar a luz, olho mais uma vez pela janela.
O mesmo céu que testemunhou minha saída antes do amanhecer agora está coberto de estrelas.
Sorrio.
Penso que amanhã tudo começará outra vez se Deus quiser, Haverá novas consultas, novas preocupações, novos abraços e, certamente, novas histórias.
E, enquanto Deus me conceder mais um amanhecer, continuarei fazendo aquilo que escolhi para a minha vida: cuidar das pessoas durante o dia e, à noite, agradecer silenciosamente pelo privilégio de ter servido.
A vocês amigos do ALEATORIAMENTE, obrigada pela paciência.
Fernanda