Naquela noite eu estava sentada na calçada olhando o céu de novo. Eu gostava de conversar com o Senhor do Alto quando tudo ficava silencioso, porque parecia que o barulho do mundo diminuía e Ele conseguia escutar melhor minhas perguntinhas.
Segurei uma tampinha de garrafa que eu fingia ser brinquedo e comecei:
Senhor do Alto… o senhor gosta de criança de rua?
Na mesma hora passou um cachorro magrinho e deitou pertinho de mim, encostando o focinho no meu pé. Eu ri baixinho.
Acho que isso foi um “sim”.
Fiz carinho nele e continuei olhando as estrelas.
O senhor fica triste quando eu choro escondido?
O vento soprou devagar no meu rosto, bem fresquinho, secando as lágrimas que eu nem tinha percebido que estavam caindo.
E eu achei que aquilo era resposta também.
Porque criança acredita nas delicadezas.
Depois perguntei:
O senhor sabe meu nome todinho?
Naquele instante, uma moça que passava carregando sacolas olhou para mim e falou: Boa noite, menina.
Menina. Talvez ela nem imagine, mas fazia tempo que ninguém falava comigo com voz mansa. Então abri um sorriso pequenininho. O senhor sabe sim… eu acho.
A lua estava enorme naquela noite. Parecia pão clarinho no céu. Fiquei olhando pra ela e contando minhas coisas: Hoje eu senti medo de novo. Mas eu fui corajosa também. Acho que coragem é um medinho que continua andando.
Uma folha seca caiu bem no meu colo. Peguei aquela folha e fiquei girando entre os dedos.
O senhor responde pelas coisinhas, né? O cachorro suspirou do meu lado. A moça da esquina começou a cantar baixinho enquanto fechava a janela. Uma estrelinha apareceu entre as nuvens. E eu senti um calorzinho bom dentro do peito.
Como se o céu estivesse conversando comigo sem palavras. Antes de dormir, deitei no papelão e falei:
Senhor do Alto… obrigada por não me deixar sozinha sozinha. O vento bateu de leve outra vez.
E eu dormi acreditando que Deus tinha jeitos muito pequenos e bonitos de abraçar uma menina perdida nas ruas.
Fernanda
