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Eu amo escrever. Escrevo porque às vezes não cabe tudo aqui dentro. Porque há sentimentos que só se organizam quando viram palavras, e pensamentos que só fazem sentido quando dançam na página. Amo também olhar o céu e talvez isso diga tudo. Há quem olhe o céu para prever o tempo, eu olho para prever a mim mesma. Há algo em observar as nuvens, as estrelas ou o silêncio azul que me faz lembrar que existe poesia mesmo nos dias comuns. Este blog nasce desse encontro: entre a escrita e o céu. Vai ser um espaço para dividir pensamentos, contar histórias, guardar pedaços de mim e talvez, de você também, que me lê agora. Obrigada por estar aqui. Que você se sinta à vontade. Que cada texto seja como uma janela aberta, onde o vento entra leve e, quem sabe, traz um pouco de luz também

✿Amor sempre....

✿Amor sempre....
Caminho entre flores. O chão continuará pra nós com outras paisagens. Sou o que sou, porque é tudo que sei ser. E todo meu olhar escrito que você nunca aprendeu a ler, permanecerá no descaso para quem não compreende.

25 julho, 2026

Diário de uma médica

Aleatoriamente um toque de poesia


Hoje o despertador tocou antes que o sol tivesse coragem de aparecer. Ainda estava escuro quando coloquei os pés no chão. Há  dias em que o corpo pede mais alguns minutos, mas a profissão não conhece o idioma da preguiça. Alguém sempre acorda precisando de um médico.

Enquanto  esperava André passar o café, fiquei olhando pela janela. O céu ainda era um rascunho da manhã. Gosto desse instante em que o mundo parece respirar devagar, antes da pressa tomar conta das ruas. É o único momento do dia em que consigo ouvir os meus próprios pensamentos.

Deixei as crianças na escola, segui para o trabalho. Olhei meu jaleco e pensei: nunca consegui enxergá-lo apenas como uma roupa de trabalho. Para mim, ele sempre foi um compromisso. Cada vez que o visto, lembro-me da menina que um dia sonhou em cuidar de pessoas sem imaginar o tamanho da responsabilidade que esse sonho carregava.

No caminho para a clínica, vi gente caminhando para o trabalho, crianças de uniforme, vendedores abrindo suas portas. Cada pessoa seguia a sua rotina. A minha, porém, nunca é igual à de ontem. A medicina não permite repetição. Os sintomas podem parecer os mesmos, mas as dores nunca são.

A primeira paciente entrou sorrindo. Disse que estava tudo bem. Bastaram poucos minutos para que seus olhos desmentissem a própria boca. Há lágrimas que chegam antes das palavras. Há doenças que não aparecem nos exames. Aprendi que escutar continua sendo um dos remédios mais difíceis de prescrever e um dos mais eficazes que existem.

Depois veio uma criança. Chorava de medo da consulta. Sentei-me ao lado dela antes mesmo de examiná-la. Conversamos sobre desenhos, sobre cachorro, sobre sorvete. Quando percebi, ela já estava rindo. Às vezes a confiança precisa nascer antes do tratamento.

O telefone tocava. A recepção chamava. Exames para analisar. Receitas para renovar. Famílias aflitas querendo uma resposta imediata. A medicina exige conhecimento, mas também exige serenidade. Nem sempre podemos oferecer a cura. Sempre podemos oferecer respeito.

No intervalo, que deveria ser do almoço, tomei um café já frio. Nem me lembro mais de quantas vezes isso aconteceu ao longo da minha vida. Sorri sozinha. Há muito tempo deixei de reclamar do café frio. Descobri que ele apenas confirma que havia alguém precisando mais de mim naquele instante.

À tarde, um senhor segurou minhas mãos depois da consulta. Não disse quase nada. Apenas agradeceu por eu ter escutado sua história inteira. Fiquei pensando nisso durante horas. Talvez ele nem precisasse tanto da médica. Talvez precisasse apenas de alguém disposto a enxergá-lo como pessoa.

É curioso como cada paciente deixa um pouco de si comigo. Há aqueles que levo para casa em pensamento. Pergunto-me se tomaram o remédio, se conseguiram dormir, se a febre passou, se encontraram coragem para continuar. O consultório fecha, mas a mente da médica continua aberta.

Também existem dias difíceis. Dias em que preciso comunicar um diagnóstico que ninguém gostaria de ouvir. Dias em que volto ao banheiro apenas para respirar fundo antes de chamar o próximo paciente. Ninguém ensina isso na faculdade. Aprendemos anatomia, fisiologia, farmacologia… mas ninguém nos ensina como continuar sorrindo quando o coração pesa.

Às vezes as pessoas imaginam que médicos se acostumam com a dor. Não é verdade. Apenas aprendemos a caminhar ao lado dela sem deixar que nos paralise. Se um dia eu deixar de me emocionar diante do sofrimento humano, talvez seja o momento de pendurar o jaleco.

No fim da tarde, quando a última consulta terminou, fiquei alguns minutos sozinha no consultório. O silêncio também faz parte da medicina. Ele ajuda a organizar aquilo que o coração recolheu durante o dia.

Voltei para casa cansada. Um cansaço que não mora apenas nas pernas, mas também na alma. Ainda assim, era um cansaço bonito. Daqueles que nascem quando sabemos que fizemos tudo o que estava ao nosso alcance.

Escrevendo estas linhas, percebo que continuo acreditando na mesma razão que me trouxe até aqui: cuidar é uma das formas mais profundas de amar. Nem sempre conseguimos vencer a doença. Nem sempre podemos mudar o destino. Mas sempre podemos impedir que alguém atravesse a dor sentindo-se sozinho.

Talvez seja isso que eu faça todos os dias. Não apenas exerço a medicina.
Eu coleciono histórias. E, sem perceber, cada uma delas também vai cuidando de mim.
Quando a porta de casa se fecha atrás de mim, deixo do lado de fora o barulho da cidade, mas não consigo deixar todas as histórias. Algumas entram comigo sem pedir licença.

O cheiro do jantar espalhado pela casa tem um poder curioso. É como se dissesse: “Agora você pode descansar.  ” Sabe?  Nem sempre consigo. 
Sentamo-nos à mesa. Gosto desse ritual simples. O pão repartido, a conversa sobre o dia, as risadas das crianças que ainda conseguem transformar qualquer assunto em brincadeira. Elas não imaginam que, muitas vezes, são elas que me devolvem a leveza que ficou pelo consultório.

Depois do jantar, chega a minha parte preferida do dia.
Uma a uma, as crianças vão escovando os dentes, escolhendo o pijama e carregando seus bichinhos de pelúcia. Há sempre quem peça um copo d’água, quem diga que ainda não está com sono e quem invente mais uma pergunta apenas para adiar alguns minutos o momento de dormir.

Então nos reunimos.

Apago a luz mais forte e deixo apenas o abajur aceso. A claridade amarela desenha sombras delicadas nas paredes, e a casa inteira parece falar mais baixo.
Abro um livro… ou, muitas vezes, crio uma história.

Conto sobre um passarinho que tinha medo de voar e descobriu que o céu também acolhe quem treme. Falo de uma árvore que permaneceu de pé durante a tempestade porque suas raízes conheciam a profundidade da terra. As crianças escutam com olhos enormes, como se cada palavra fosse uma janela para outro mundo.

No fundo, sei que não conto histórias apenas para elas.
Também conto para mim.

Cada personagem acaba me lembrando um paciente, um amigo, alguém que conheci ao longo da vida. Talvez seja por isso que nunca me faltem histórias. Todos os dias o mundo escreve algumas páginas diante dos meus olhos.

Quando termino, faço um carinho em cada testa, ajeito a coberta, dou um beijo demorado e escuto, quase sempre em coro:

Boa noite mamãe.
E respondo baixinho:
Que Deus cuide dos sonhos de vocês meus amores.

Fecho a porta do quarto devagar, como quem protege um pequeno universo.
A casa finalmente silencia.

É nesse instante que volto para o meu quarto. Tiro o relógio, guardo o estetoscópio, dobro o jaleco  que deixei na cadeira com cuidado. Faço questão de tratá-lo com respeito. Ele foi testemunha de mais um dia em que tentei aliviar dores que nem sempre podiam ser curadas.

Sento-me por alguns minutos antes de dormir.
Não peço riquezas. Não peço facilidades.
Apenas agradeço.
Agradeço pelas mãos que ainda conseguem cuidar. Pelos ouvidos que ainda sabem escutar. Pelos olhos que ainda enxergam o sofrimento do outro sem se tornarem indiferentes.

Agradeço pelos pacientes que confiaram em mim, pelos colegas que caminharam ao meu lado, pela família que me espera todas as noites e transforma uma casa em abrigo.
Também agradeço pelas dificuldades.
Foram elas que me ensinaram que a medicina não mora apenas nos livros. Ela mora na compaixão. Mora na paciência. Mora no olhar que não tem pressa.

Antes de apagar a luz, olho mais uma vez pela janela.
O mesmo céu que testemunhou minha saída antes do amanhecer agora está coberto de estrelas.
Sorrio.

Penso que amanhã tudo começará outra vez se Deus quiser, Haverá novas consultas, novas preocupações, novos abraços e, certamente, novas histórias.
E, enquanto Deus me conceder mais um amanhecer, continuarei fazendo aquilo que escolhi para a minha vida: cuidar das pessoas durante o dia e, à noite, agradecer silenciosamente pelo privilégio de ter servido.

A vocês  amigos do ALEATORIAMENTE, obrigada pela paciência.


Fernanda

22 julho, 2026

A tela

Aleatoriamente um toque de poesia
“O que a vida quer da gente é coragem.” 
(Guimarães Rosa)

Há aqueles que passam a vida procurando uma moldura, quando o que Deus lhe entregou foi uma tela em branco. Pintar um quadro nunca foi sobre acertar as cores. É sobre ter coragem de sujar as mãos. A vida também. A gente começa escolhendo um azul para os dias de paz e, sem perceber, o destino derrama um pouco de cinza, um risco de vermelho, um tanto de preto. No começo, brigamos com as manchas. Depois entendemos que eram elas que davam profundidade à paisagem.

Aprendi que autoconhecimento é um pincel estranho. Ele não colore o mundo. Primeiro, raspa as tintas que escondiam quem somos. Arranca os disfarces, desfaz os contornos inventados, silencia as vozes que pintaram nossa história com as cores dos outros. Só então pergunta, baixinho: qual é a sua cor?

Compreendi que viver não é produzir um quadro bonito para pendurar na parede da aprovação alheia. É criar uma obra em que a alma consiga morar. Há pessoas que passam anos retocando a moldura. Envernizam a aparência, lustram aprovações, colecionam elogios. Mas nunca olham para a tela. E é nela que mora a verdade.

Hoje, quando erro um traço, já não me desespero. O pincel da existência sabe caminhos que a pressa desconhece. Às vezes, o borrão era sombra. Às vezes, a sombra era justamente o lugar onde a luz precisava nascer.

No fim, penso que Deus, seja o único Pintor que conhece a obra inteira antes mesmo da primeira pincelada. Nós apenas aprendemos, dia após dia, a misturar as tintas do medo com as da esperança, até perceber que o quadro nunca quis ser perfeito. Quis apenas ser verdadeiro.

E talvez o maior ato de coragem seja: parar de copiar a pintura dos outros e, enfim, ter a humildade de assinar a própria tela.


Fernanda

09 julho, 2026

Quando vamos voltar a Sentar à Mesa?

Aleatoriamente um toque de poesia
Crônica



Às vezes, penso que o mundo não precisa apenas de mais tecnologia. Precisa de mais humildade.
Vejo países que avançaram em tantas áreas e me pergunto se o verdadeiro progresso não começa quando uma pessoa olha para a outra com respeito. Não é apenas construir  hospitais, escolas estradas. É também construir confiança. É fazer com que um cidadão entre em um hospital e seja acolhido antes mesmo de ser medicado. É chegar a um banco, a uma repartição pública ou a qualquer lugar e encontrar um sorriso que diga: “Você é importante.”

Pagamos impostos, cumprimos deveres, enfrentamos filas e seguimos em frente. Mas o que, muitas vezes, falta não custa dinheiro. Chama-se gentileza. Chama-se escuta. Chama-se dignidade.
Vivemos uma epidemia de ansiedade. Não porque as pessoas tenham desaprendido a falar, mas porque quase ninguém tem tempo para ouvir. Todos têm pressa de responder, de julgar, de correr. Poucos se sentam para perguntar: “Como você realmente está?”

Talvez seja por isso que tantos corações estejam cansados. O ser humano não vive apenas de alimento ou de trabalho. Vive de pertencimento. Vive da sensação de que sua dor foi percebida, de que sua alegria foi compartilhada e de que sua existência faz diferença.

Sonho com um Brasil onde o poder seja sinônimo de serviço. Onde a humildade caminhe ao lado da responsabilidade. Onde promessas se transformem em compromisso e onde o bem comum esteja acima dos interesses individuais. Mas esse sonho não começa apenas nos gabinetes. Ele começa dentro de casa, quando desligamos o celular para conversar com quem amamos. Começa na escola, quando uma criança aprende que respeito vale mais do que qualquer troféu. Começa no trabalho, quando escolhemos tratar um colega com educação. Começa no trânsito, no mercado, na recepção de um consultório, no olhar que oferecemos a um desconhecido.

A mudança que tanto esperamos para um país também precisa nascer dentro de cada um de nós.
Porque uma nação é o reflexo das pessoas que a constroem todos os dias.
Ainda acredito que o Brasil pode ser um lugar onde a coragem caminhe ao lado da honestidade, onde a verdade não tenha medo de aparecer, onde a dedicação seja reconhecida e onde o amparo alcance quem mais precisa.

E talvez o primeiro passo seja o mais simples de todos: reaprender a enxergar o outro como um semelhante. Quem sabe, quando isso acontecer, a ansiedade encontre menos espaço, o egoísmo perca força e a esperança volte a morar entre nós. Afinal, nenhum país se torna grande apenas pelo tamanho de suas cidades ou pela força de sua economia. Um país se torna verdadeiramente grande quando o coração do seu povo nunca deixa de acreditar que a bondade ainda pode transformar o mundo.

Acredito que a bondade não pode ser uma exceção. Ela precisa voltar a ser a regra.
Não basta que meia dúzia de pessoas escolham fazer o bem. A bondade precisa frutificar. Precisa ser plantada nas famílias, regada nas escolas e cultivada todos os dias, porque é ela que sustenta uma sociedade quando tudo parece desmoronar. Os nossos filhos são o futuro deste país. E eles aprendem muito mais com aquilo que fazemos do que com aquilo que dizemos.

 Tudo começa dentro de casa.
Começa quando uma criança chega chorando porque alguém a machucou. Quantas vezes ela escuta: “Vá lá e faça o mesmo.” Mas será que é assim que construímos um mundo melhor? A violência nunca ensinou ninguém a amar. O ódio nunca foi capaz de produzir paz.

Ensinar uma criança a ser firme não é ensinar a ferir. É ensinar a defender seus valores sem perder a essência. O exemplo sempre educará mais do que qualquer discurso.
Não sonho com um mundo perfeito. Não espero um país de contos de fadas, onde não existam dificuldades. O que desejo é um Brasil que se lembre da sua própria pátria.

Este é um país rico em natureza, em cultura, em diversidade e, principalmente, em gente. Quando o brasileiro decide acolher, ele acolhe de verdade. Quando estende a mão, faz isso com o coração inteiro. Poucos povos recebem um desconhecido com tanta facilidade, sorriem com tanta espontaneidade ou transformam uma simples conversa em um gesto de amizade.

Talvez o nosso coração apenas esteja cansado. Cansado de tantas promessas não cumpridas. Cansado da desconfiança. Cansado de acreditar e depois se decepcionar. Mas um coração cansado não é um coração perdido. Ele apenas precisa voltar a encontrar motivos para acreditar. E essa mudança não nascerá apenas das grandes decisões. Ela nascerá quando cada um de nós escolher viver valores que nunca deveriam ter saído de moda: a honestidade, a verdade, o respeito, a compaixão, o perdão e o amor ao próximo.

Jesus não ensinou um caminho de vingança. Ensinou um caminho de serviço, de misericórdia e de amor. Esses ensinamentos continuam atuais porque falam daquilo que nunca envelhece: a capacidade de cuidar uns dos outros.

Talvez seja esse o Brasil que ainda mora dentro de nós.
Um Brasil que não desiste das pessoas. Um Brasil que acredita que a verdadeira riqueza de uma nação não está apenas naquilo que ela produz, mas na forma como trata cada pessoa.
E tenho esperança de que esse Brasil ainda existe. Talvez esteja apenas esperando que cada um de nós faça a sua parte, para que a bondade deixe de ser uma raridade e volte a ser a linguagem mais bonita do nosso povo.


Fernanda

07 julho, 2026

É ela

Aleatoriamente um toque de poesia


A esperança é a primeira a acordar e a última a dormir. 
Ela desperta antes do sol, quando ainda há silêncio na casa e dúvidas no coração. 
Enquanto o medo boceja, a esperança já está de pé, preparando o café e abrindo as janelas para que a luz entre. É ela quem nos convence a tentar outra vez. A enviar uma nova mensagem, recomeçar um projeto, pedir perdão, plantar uma semente ou simplesmente levantar da cama em um dia difícil.

Durante o dia, a esperança anda conosco. Às vezes vai em silêncio, mas nunca nos abandona. Ela conhece os atalhos da fé e sabe que nem toda demora é um fracasso, nem todo “não” é um ponto final.

Quando a noite chega e o cansaço parece vencer, ela ainda permanece acordada. Recolhe nossos pedaços, cobre nossos medos com um cobertor de confiança e sussurra: “Amanhã é outro dia.”
Só então ela adormece. Porque a esperança é assim: a primeira a acordar e a última a dormir. É ela quem insiste em acreditar quando todos os argumentos dizem para desistir. E, muitas vezes, é justamente essa insistência que transforma o impossível em um novo começo.

Fernanda

03 julho, 2026

Como você está?

Aleatoriamente um toque de poesia



Antes de responder, vale a pena fechar os olhos por um instante e procurar enxergar a si mesmo por dentro. Não a imagem refletida quando está escovando os dentes, ou cuidando dos cabelos, nem a versão apresentada ao mundo, mas aquela que mora ai dentro da consciência.

Pode parecer uma pergunta simples né? Quase sempre a resposta é automática: “Estou bem.” Mas será que essa resposta nasce da sinceridade ou apenas do hábito? Em tempos em que todos correm, produzem, sorriem para uma fotografia perfeita e escondem as próprias tempestades. Percebo que tornou-se comum vestir uma aparente tranquilidade enquanto o coração pede socorro, a ansiedade senta ao lado, os olhos marejam por qualquer coisa.

O ser humano aprendeu muito bem  a cuidar de compromissos, de prazos e de expectativas, mas tem se esquecido de cuidar de si. Há quem conheça todos os caminhos da cidade, mas já não encontre o caminho de volta para a própria essência. Há quem converse com centenas de pessoas ao longo do dia, mas passe semanas sem ouvir a sua própria voz.

Talvez o maior desafio dos dias atuais não seja vencer o mundo, mas vencer a distância que cada um criou entre quem realmente é e quem acredita precisar parecer. E essa distância pesa. Ela rouba o entusiasmo, esvazia os afetos e transforma a vida em uma sucessão de dias cumpridos, mas não vividos.

Olhar para dentro exige coragem. É nesse encontro que aparecem as dores escondidas, os sonhos esquecidos e também a esperança que insiste em sobreviver. Só quem tem a humildade de reconhecer as próprias fragilidades descobre a força necessária para recomeçar.

Aprendi, que a vida não pede perfeição. Pede presença. Pede verdade. Pede que cada pessoa reserve alguns minutos para cuidar daquilo que ninguém vê, mas que sustenta tudo o que se vê: o coração.

Porque, no fim das contas, não é a resposta dada aos outros que transforma uma vida, mas a resposta sincera que cada um encontra quando está sozinho consigo mesmo.

E, agora, depois de ler até aqui, a pergunta continua a mesma, mas talvez tenha um significado diferente:

Como você está? Feche os olhos novamente e me responda com toda sinceridade.


Fernanda

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