Falar sobre o ego que carregamos
Se Sigmund Freud pudesse caminhar hoje pelas ruas, talvez não se surpreendesse tanto. Mudaram as roupas, as telas ficaram mais brilhantes, mas o ego… o ego continua o mesmo só aprendeu a se vestir melhor. As pessoas andam por aí com seus egos bem alinhados, como quem ajeita a gola antes de sair. Não por vaidade pura, mas por necessidade. Há um certo acordo no ar: sentir demais em público ainda constrange.
O ego, esse mediador discreto entre o que se deseja e o que é permitido, tornou-se quase um porta-voz social. Ele traduz impulsos em comportamentos aceitáveis, disfarça inseguranças com firmeza e transforma dúvidas em opiniões. Não porque seja falso mas porque tenta proteger. Se alguém perguntasse a Freud o que mais mudou, talvez ele dissesse: a velocidade. Hoje, o ego precisa trabalhar mais rápido. Não há muito tempo para elaborar. É preciso reagir, responder, parecer seguro tudo quase ao mesmo tempo.
E assim, as pessoas vão aprendendo a sustentar versões de si mesmas.
Versões que funcionam.
Versões que cabem.
Versões que não incomodam tanto.
Mas há um detalhe que escapa. O ego protege, mas também limita. Ele organiza, mas também filtra. E, nesse processo, muitas vezes afasta o indivíduo de algo mais profundo aquilo que não cabe em explicações rápidas, nem em aparências bem resolvidas. Freud talvez observasse isso com atenção: não se trata de excesso de ego, mas de cansaço dele. Um ego sobrecarregado de sustentar coerência onde há conflito, equilíbrio onde há excesso, calma onde há tempestade.
No fundo, o que se vê são pessoas tentando dar conta de si mesmas com as ferramentas que têm.
E talvez, se ainda estivesse por aqui, Freud não sugerisse eliminar o ego mas escutá-lo melhor. Entender que, por trás de cada postura firme, pode haver uma tentativa de não se desorganizar por dentro. Porque o ego que carregamos, no fim das contas, não é apenas imagem. É esforço. Ás vezes, um pedido discreto de descanso.
Fernanda.