Há um tipo de reação que não pensa apenas acontece.
É rápida, impulsiva, quase instintiva. Como se, por alguns segundos, deixássemos de ser quem aprendemos a ser
para voltar a ser quem um dia fomos.
O comportamento primitivo não grita avisando que chegou. Ele se disfarça de justificativa:
“Eu sou assim mesmo.”
“Falei porque precisava.”
“Reagi porque me feriram.”
Mas, no fundo, não é sobre verdade sabe? É sobre falta de pausa.
É o impulso que atropela o cuidado. É a palavra que sai antes da consciência.
É o gesto que ignora o outro
em nome de uma defesa antiga, quase automática.
Todos nós temos um pouco disso guardado.
Nas camadas mais profundas, onde ainda mora o medo de não ser aceito,
a necessidade de vencer,
ou o instinto de atacar antes de ser atingido.
O problema não é sentir.
Nunca foi. O problema é quando a emoção nos conduz sem que a gente segure o volante.
E então ferimos, afastamos, mudamos caminhos
que, em momentos mais calmos, gostaríamos tanto de passar.
Evoluir, no fim das contas, não é deixar de sentir raiva, dor ou medo. É perceber quando eles estão assumindo o controle e, mesmo tremendo por dentro, escolher outro caminho.
É difícil.
Às vezes, a gente falha.
Às vezes, volta para o velho impulso como quem retorna para casa mesmo sabendo que já não mora mais ali.
Mas, cada vez que nos damos a escolha de respirar antes de reagir, cada vez que escolhemos o silêncio em vez do ataque, ou a compreensão em vez da pressa,
algo dentro de nós cresce.
E isso, talvez, seja o oposto do primitivo: não a ausência de instinto, mas a presença da consciência.
Porque ter como desculpa que é ser humano, não explica o rústico. Ser humano de verdade, não é nunca cair é aprender a não se entregar tão facilmente ao que ainda em nós não evoluiu.