Há dias em que a vida parece nos olhar torto, como se dissesse: “hoje não vai ser fácil, querida”.
E a gente até tenta negociar com ela um café mais forte, um banho demorado, um sorriso ensaiado no espelho mas ela não arredonda as arestas. Continua ríspida, dura, meio seca.
Nessas horas, percebo que viver é lidar com pequenas hostilidades disfarçadas de rotina.
Mas há também outra forma de olhar.
Quando a vida me parece hostil, tento lembrar que talvez não seja raiva talvez seja um pedido de atenção. Como uma criança que faz birra para ser notada. A vida às vezes…
Eu sempre achei que a vida era hostil comigo, até conhecer vou chamá-la Silvia, ( um nome ficticio para minha nova amiga.) Ela é daquelas pessoas que parecem estar sempre em guerra, mesmo quando o mundo está em paz. O rosto franzido, a fala apressada, o olhar que não se permite descansar. Tudo nela é tensão até o gesto de segurar a xícara de café parece um combate contra o tempo.
Nos encontramos toda segunda, na padaria da esquina. Ela chega antes, como se tivesse medo de se atrasar para a própria angústia. Fala do trabalho, do ex-marido, do filho adolescente, da conta de luz. E, entre uma reclamação e outra, há sempre um breve silêncio aquele em que o coração quase diz o que realmente dói, mas volta atrás.
Eu escuto.
E percebo que, na verdade, não é a vida que é hostil com a Sílvia.
É ela que não aprendeu a ser gentil consigo mesma.
Tem gente que confunde força com rigidez. Que acha que ser firme é nunca ceder, nunca chorar, nunca pedir ajuda. Mas viver endurecida demais também é uma forma de desistência. É como se ela carregasse uma armadura que já virou parte do corpo, sem notar que o peso vem de dentro.
Às vezes, enquanto ela fala, eu penso que a vida hostil não é feita só de tragédias ou derrotas. Às vezes, é feita de pressas. De não se permitir ser vulnerável. De não olhar o sol porque está ocupada demais com a sombra.
Nesta segunda, Sílvia chorou pela primeira vez desde que nos conhecemos.
Não disse nada. Só deixou escorrer um pouco da vida, em lágrimas curtas e contidas.
Eu, que nunca sei o que fazer diante de uma dor alheia, apenas toquei sua mão.
Foi ali que percebi: a vida começa a amolecer quando alguém nos toca sem pressa, sem conselho, sem julgamento. E talvez, no fundo, viver seja isso encontrar brechas de ternura dentro da vida hostil.
Fernanda