Hoje, André olhou para mim com aquele sorriso de quem está prestes a aprontar uma reflexão e, do nada, soltou:
Amor, você deveria fazer Psicologia também.
Eu o olhei com espanto.
Por que diz isso, amor?
Ele se encostou na cadeira, cruzou os braços e respondeu com a segurança de quem tem provas, testemunhas e até vídeos guardados:
Porque não dá nem pra contar as pessoas que sentam perto de você e contam toda a vida num piscar de olhos. Se estão tristes, você alegra. Se estão passando por problemas, você faz ver tudo por uma perspectiva positiva. Se a pessoa é ateu… volta a acreditar em Deus! Hahaha!
Fingi que não era comigo, mas a verdade é que isso acontece mesmo.
No café, na fila do mercado, na recepção da clínica.
Basta eu respirar num raio de dois metros de alguém e pronto: a pessoa sente um impulso misterioso de abrir o coração como quem abre uma janela num dia abafado.
E eu escuto.
Sempre escuto.
Porque aprendi desde cedo que cada desabafo é um convite não para resolver a vida do outro, mas para aquietar a dor que transborda.
Enquanto André ria, continuou:
Agora… que você faz o povo se encantar fácil, faz. Só comigo que foi difícil, né? Nossa, como você foi difícil, hein! Deu trabalho pra eu me aproximar!
E aí fui eu quem riu.
Claro que fui difícil.
Não porque eu quisesse manter distância, mas porque o coração da gente, depois de ser tão feliz e logo e em seguida algumas tempestades, fica feito casa antiga: abre a porta, sim, mas demora uns minutos para destravar o trinco.
André não desistiu.
Sentou-se muitas vezes perto de mim não para contar a vida dele inteira de uma vez (embora quase tenha feito isso), mas para me observar como quem tenta decifrar um idioma novo.
E quando eu finalmente deixei que ele entrasse, descobri que às vezes o coração não quer rapidez; quer segurança. Quer ternura. Quer alguém que fique.
Talvez por isso tanta gente sente vontade de conversar comigo: não é que eu diga muito, é que eu escuto com presença. Escutar virou minha maneira de amar o mundo e o mundo percebe.
Mas André… André é diferente. Ele não precisou sentar ao meu lado para desabafar. Ele sentou para ficar.
E ficou.
Hoje, quando ele diz que eu deveria fazer Psicologia, eu sorrio. Talvez eu não tenha diploma da área ainda, mas tenho algo que nenhum curso ensina: a fé de que todo mundo carrega dentro de si um lugar que só precisa ser ouvido para florescer de novo.
E quem sabe seja por isso que até ateu, como André disse brincando, volta a acreditar em Deus perto de mim.
No fundo, é Deus acreditando na gente primeiro.
Fernanda
Que lindo e divertido texto,Nanda,! Essas coisas são estranhas. Parece que as pessoas sabem quem as sabe ouvir ! E comigo sempre chego em algum lugar que tem alguém precisando de algo. E que bom que o André valoriza a demora para entrar na tua vida. Assim chegou, compreendeu tua fase na época e tambpem ele como um bom psicólogo, sentou, te deixou falar e FICOU! Cois boa, né? beijos, chica, ótimo fds!
ResponderExcluirChica querida,
Excluirtuas palavras abraçam, sempre. É verdade: tem gente que parece adivinhar onde pode ser útil, onde pode oferecer ombro, escuta, aconchego e você é exatamente esse tipo de presença boa que chega e abriga. E sim, o André valorizou cada minutinho do meu tempo. Entendeu o meu silêncio, ouviu minhas confusões, esperou o que precisava ser esperado… e ficou. Ficou do jeito bonito: respeitando, acolhendo, somando. Coisa rara, coisa boa demais.
Beijos, Chica!
Que teu fim de semana seja de luz e calma.😘🙏🏻
Bom dia que ainda está amanhecendo, querida amiga Fernanda!
ResponderExcluirVamos comecar pelo começo, rs...
"Depois de ser tão feliz e logo e em seguida algumas tempestades, fica feito casa antiga: abre a porta, sim, mas demora uns minutos para destravar o trinco."
Às vezes, demora décadas, quando se é infeliz... eu digo.
Leva-se anos para se confiar em alguém, para trocar amizade, e, no entanto, a felicidade tem fim abruptamente.
"Às vezes o coração não quer rapidez; quer segurança. Quer ternura. Quer alguém que fique."
E não fica... se vai. É a vida.
Näo há psicologia que dê jeito.
Só Deus para nos fazer abrir o coração de novo.
É quase impossivel aos olhos humanos quando já se experimentou os dois lados da moeda. Mesmo sendo nós saudáveis.
Agora, quanto ao seu lado Psicóloga, André, seu amado, tem razão. Iria confortar muitos corações. Até porque psicólogos que conheço são "secos", dá até pena do modo de ser deles. De uma frieza horrorosa, com a tal desculpa de se manter "equilibrados".
Você iria ser diferente, como deveriam ser os tais profissionals.
Quando saí da minha área para fazer especialiação emTerapia Comunitária, foi o melhor que fiz para me dar colo antes de dar aos demais.
Tornamo-nos mais independentes e sofremos menos as rejeições que a vida nos dá de graça pelos insensíveis, insistentemente.
".Ele sentou para ficar. E ficou".
Näo se dá só na vida a dois, nas amizadea também.
Tem quem chegue para corrigir, ensinar Achando que sabe tudo E quem venha para ouvir e fica na dociilidade. Assim é lindo.
Não vem para usar e, quando consegue, abandona.
Transforma a vida da outra pessoa, fazendo com que ela creia que Deus tudo pode. Até mesmo destravar um coração trancado a sete chaves de aço puro.
Acima da ciência, está nosso Bom a Amável Deus que nunca vem para se saciar e largar, Vem e fica eternamente.
Continue espalhando doçura, na vida, já tem muitos "psicólogos " espalhando amargor e secura.
Viva o coração meigo que não abandona, simplesmente fica (permanece) como ficou o seu André.
Tenha dias abençoados!
Beijinhos fraternos
Roselia querida,
Excluirque comentário mais cheio de verdade, de fé e de sensibilidade.Tu consegues pegar cada frase e aprofundar como quem mergulha com cuidado e volta trazendo luz.
É bem assim mesmo: às vezes o coração vira casa antiga, com portas emperradas por tantas tempestades. E não é questão de vontade, é questão de cicatriz.
Há dores que levam décadas para virar silêncio.
Há confianças que precisam ser reaprendidas como quem reaprende a andar.
E tu disseste algo que me toca profundamente: não fica… se vai. É a vida.
E é mesmo.
Mas é por isso que quando alguém fica de verdade, por amor, por presença, por ternura isso vira milagre cotidiano. E André ficou.
Ficou como ficam os que sabem amar no tempo certo, sem pressa, sem imposição. E isso cura mais que qualquer teoria.
Te entendo quando falas dos psicólogos secos.
Também já vi muitos.
Gente que estudou acolhimento, mas desaprendeu a sensibilidade no processo. A vida exige doçura não técnica.
E tu, com tua Terapia Comunitária, com tua entrega tão preciosa, é prova disso: só quem aprendeu a se dar colo consegue dar colo aos outros.
E tens razão: na vida, há quem chegue para corrigir e há quem chegue para ficar.
Quem fica, cura.
Quem escuta, transforma.
Quem ama, destrava aquilo que parecia para sempre trancado.
E como tu bem disse: acima de tudo, está Deus.
Esse sim sabe entrar sem invadir, sabe curar sem forçar, sabe ficar sem nunca abandonar.
Obrigada pelo teu olhar tão cheio de fé e ternura.
Tuas palavras são sempre bênção.
Beijinhos fraternos e dias iluminados pra ti, minha amiga! 😘🙏🏻
Bom dia, Fernanda.
ResponderExcluirComo não se emocionar ao ler tão linda crônica? Aqui fico maravilhado!
É notória, em seus magníficos escritos, a sua fineza de trato para com as pessoas. Com a mesma dimensão, a sua sensibilidade e compreensão cognitiva lhe permite a criação de laços mais profundos e aprimoramentos de relacionamentos interpessoais que deixam exemplos dos mais admiráveis e dignos. Mesmo sem formação didática, pode-se dizer que você é uma grande psicóloga e merece todo respeito e admiração.
Efusivos parabéns e um cordial e fraterno abraço.
Rosalino querido,
Excluirque delicadeza a sua escrever assim com essa generosidade que abraça.
Fico profundamente tocada por suas palavras. Se há algo bonito na escrita é justamente isso: quando ela cria laços sinceras entre corações que sreconhecem na sensibilidade.
O que você descreve como “fineza de trato” é, na verdade, meu esforço diário de olhar as pessoas com carinho porque todos carregamos histórias que nunca aparecem na superfície. E se meus textos conseguem tocar, é porque escrevo sempre do lugar mais honesto de mim.
Sobre ser “uma grande psicóloga”, mesmo sem diploma: confesso que sorrio ao ler isso.
Talvez porque, antes de qualquer estudo, vem o sentir e esse sim é escola que não termina nunca.
Obrigada pelo carinho, pelo respeito e por esse abraço fraterno que chega tão verdadeiro. Receba o meu também, com toda a estima.
Com gratidão,
Não, não sou assim.
ResponderExcluirNem gosto de psicologia.
Chamo de "psicólicas".
Quando atendo paciente procuro ser bem receptiva, bem atenciosa. Sei que preciso ser.
E atendo com calma.
Saber ouvir é importante.
Beijo,
Liliane querida,
Excluirtu és exatamente isso que descreve: alguém que escuta com calma, acolhe com presença e faz o outro se sentir visto mesmo sem gostar de “psicólicas”, como tu diz com essa graça tão tua.
E talvez seja justamente por não gostar da teoria que tu te destaca na prática.
Porque receptividade, atenção e escuta verdadeira não vêm de livro vêm de alma disponível.
Saber ouvir é mesmo um dom. E tu tens.
Beijo grande!
Saiba usar esse dom. Algumas pessoas aprisionam a outra assim, percebendo que ela está toda ouvinte, escutando, tem empatia, daí jogam com ela. Como eu sei disso? Experiência. Hoje eu prefiro não falar muito, para não despertar mais esse tipo de "admiração" nas pessoas. Elas querem que você esqueça sua própria vida, para ficar nutrindo a vida delas.
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