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Eu amo escrever. Escrevo porque às vezes não cabe tudo aqui dentro. Porque há sentimentos que só se organizam quando viram palavras, e pensamentos que só fazem sentido quando dançam na página. Amo também olhar o céu e talvez isso diga tudo. Há quem olhe o céu para prever o tempo, eu olho para prever a mim mesma. Há algo em observar as nuvens, as estrelas ou o silêncio azul que me faz lembrar que existe poesia mesmo nos dias comuns. Este blog nasce desse encontro: entre a escrita e o céu. Vai ser um espaço para dividir pensamentos, contar histórias, guardar pedaços de mim e talvez, de você também, que me lê agora. Obrigada por estar aqui. Que você se sinta à vontade. Que cada texto seja como uma janela aberta, onde o vento entra leve e, quem sabe, traz um pouco de luz também

✿Amor sempre....

✿Amor sempre....
Caminho entre flores. O chão continuará pra nós com outras paisagens. Sou o que sou, porque é tudo que sei ser. E todo meu olhar escrito que você nunca aprendeu a ler, permanecerá no descaso para quem não compreende.

16 novembro, 2025

Uma Delicadeza ao Entardecer

Aleatoriamente um toque de poesia


Era fim de tarde quando percebi, com certo espanto, que minha xícara de chá já se encontrava vazia. Não porque o chá estivesse particularmente irresistível, mas porque a casa, naquele instante, exigia de mim um silêncio atento, desses que fazem a gente esquecer até do próprio corpo. Havia no ar a serenidade que apenas as horas indecisas entre o dia e a noite costumam oferecer e foi nesse clima de suave contemplação que a história se desenrolou.

Digo “história” apenas por falta de palavra mais adequada, pois se tratou de um episódio tão pequeno que, aos olhos do coração menos sentimental, poderia ser ignorado. No entanto, a mim que sempre tive certa inclinação para perceber grandeza nas minúcias pareceu digno de registro.

A campainha tocou.

Imaginei tratar-se de algum engano, já que não havia prometido visita a ninguém, tampouco esperava alguma surpresa do destino. Mas, por educação e por mera curiosidade, fui atender.

À porta estava a senhora Marcondes, minha vizinha de duas casas adiante, de expressão levemente aflita, como quem carrega uma preocupação que tenta disfarçar com decoro. Trouxera nas mãos um embrulho pequeno nada mais que um pote de geleia de pêssego e um pedido maior do que admitia.

Minha querida Fernanda, disse ela, num tom que misturava urgência e delicadeza, preciso pedir-lhe um favor que, espero, não lhe causará incômodo.

Ora, se existe coisa que me enternece é quando alguém me procura com essa combinação de timidez e confiança. Respondi-lhe, portanto, com a mansidão que a situação requeria.

Pois não, minha querida senhora. Em que posso ser útil?

Ela explicou, então, que receberia visitas inesperadas naquela mesma noite e que a geladeira, traidora habitual, resolvera falhar justamente agora. Pedia-me apenas que guardasse ali o pote de geleia sua única arma culinária para impressionar as sobrinhas até que pudesse buscá-lo.

Aceitei com prazer, não por qualquer sentimento de heroísmo doméstico, mas porque acredito que a gentileza, quando oferecida a alguém sensível o bastante para reconhecê-la, torna-se um pequeno luxo.

Ao entregar-me o pote, ela soltou um suspiro tão profundo que quase me convenceu de que eu havia salvado sua reputação inteira perante as sobrinhas.

Quando ela se retirou, fechei a porta com leveza e voltei a minha cadeira próxima à janela. O entardecer prosseguia com doçura, e eu, de certo modo, senti que aquela pequena cena tinha iluminado meu espírito mais do que o sol que já se escondia.

Pensei, com um sorriso discreto, que talvez a vida fosse composta essencialmente de momentos assim: minúsculos, quase abstratos, mas que revelam o caráter das pessoas e da própria convivência humana.

Se a senhora Marcondes recuperou sua geleia? Claro que sim.
Se as sobrinhas a elogiaram? Tenho certeza.
Mas o que eu guardo mais que o pote na geladeira é a certeza de que, quando alguém bate à nossa porta com esperança, a melhor resposta é sempre abrir.

E, convenhamos, poucas coisas são tão agradáveis quanto servir de pequena providência na vida alheia. Jane Austen, se pudesse, certamente concordaria comigo.😉




Fernanda

Meninos e meninas bora lá na nossa (joaninha) Chica, 😍ver o lindo gesto de carinho comigo?
Muito obrigada!

13 comentários:

  1. Um fato ao fim do dia, até curioso pois a geleia nem precisatria de geladeira, mas que serviu para que tu pudesse ser útil e deixar a vizinha tranquila e feliz. Que bom quando podemos fazer o bem pra alguem. Nada nos custa!

    Linda semana! beijos, chica

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    1. Chica, querida,

      Engraçado como esses pequenos episódios do dia uma simples geleia e uma vizinha preocupada acabam abrindo espaço para gestos tão bonitos. No fundo, não era sobre a geladeira, mas sobre presença, cuidado e essa vontade discreta de ajudar quando podemos. Tão bom quando a vida nos oferece essas chances miúdas de fazer o bem, né? Elas iluminam o dia da gente também.

      Linda semana pra ti! Beijos.😘

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  2. Magistralmente contada esta sua história que faz de algo vulgar uma delicadeza, um tudo e nada de pormenores do dia a dia que só alguém muito sensível sabe apreciar. E passa-se ao entardecer: a hora dos mágicos cansaços como escreveu Florbela Espanca. É muito bom ler o que escreve, minha Amiga Fernanda.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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    1. Graça, querida,

      Teu olhar sempre me surpreende pela generosidade com que acolhe o simples. Fico tocada por perceber que esses pequenos instantes do cotidiano quase nada encontram morada no teu sentir. E sim, há mesmo algo de Florbela nesses entardeceres que nos cansam e, ao mesmo tempo, nos revelam. Obrigada por ler-me com tanta atenção e ternura; teu comentário é, por si só, um presente.

      Uma boa semana, minha amiga.
      Um beijo.😘

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  3. Oi, Fernanda! Bom dia! Os sutis gestos, como murmúrios em meio à vastidão do cotidiano, revelam mais do que aparentam à primeira vista. Contudo, são poucos os que se detêm a observar essas nuances nas inúmeras almas que cruzam nosso caminho. A pressa e o clamor incessante do mundo moderno frequentemente nos bloqueiam essa percepção. No entanto, estender a mão a alguém, por mais simplório que seja o ato, enriquece nosso ser, independentemente das circunstâncias que o cercam. Pessoalmente, sinto-me mais completo quando posso oferecer auxílio, mesmo que essa oportunidade não se apresente com frequência. Para mim, a verdadeira alegria reside nesses instantes que, à primeira vista, podem parecer insignificantes e quase invisíveis eu diria. Sua poesia, sempre entrelaçada em suas palavras, é um dom precioso. Infelizmente, muitos não conseguem enxergar a beleza da poesia como uma força capaz de transformar ações cotidianas em momentos significativos, especialmente em uma rotina acelerada tão característica da sociedade contemporânea. Abraço!

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    1. Luciano,

      Teu olhar sempre alcança a beleza que outros deixam passar essa poesia que se esconde nos gestos mínimos, nos movimentos quase inaudíveis do cotidiano. Concordo contigo: o mundo anda tão apressado que parece não ter tempo para o que realmente importa, e ainda assim, quando conseguimos estender a mão, mesmo num gesto simples, algo dentro de nós se alinha, se ilumina.

      Fico feliz que minhas palavras encontrem abrigo no teu sentir; tua leitura é sempre generosa e profunda, como quem sabe que a poesia não está apenas no texto, mas no modo de caminhar pela vida. Que bom te encontrar por aqui, compartilhando essa sensibilidade rara.

      Um abraço grande!🤗

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  4. Nanda, voltei pra te avisar que estás no BAU que se abriu hoje com tua poesia!
    Podes ver aqui:
    https://chicaparticipa.blogspot.com/2025/11/remexendo-o-bau.html

    beijos, chica e obrigadão!

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    1. Chica, querida,

      que alegria receber essa noticia tão alegre. Obrigada por me avisar e por esse carinho tão constante que sempre chega como um presente inesperado. Fico feliz em estar no BAÚ de hoje, ainda mais pelas tuas mãos. Fui lá conferir! Amei!🥰

      Beijos e meu agradecimento de coração!🙏🏻🙏🏻🙏🏻😘

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  5. Primeiramente, que chaleira simpática essa com esses olhinhos....rs

    Compartilhar pequenas gestos com vizinhos é sempre bom. Precisamos conservar os bons vizinhos, pois há aqueles que são insociáveis.
    Aqui eu compartilho bastante pás, enxadas, ferramentas...e do mesmo modo sou servido quando preciso de alguma coisa.

    Um gesto insignificante não digno de nota? Eu não diria isso.

    beijos.

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    1. Eduardo, querido,

      Essa chaleira de olhinhos conquista mesmone? juro que parece até conversar comigo enquanto esquenta a água… rs. E tens toda razão: vizinhos bons são tesouros que a gente precisa cuidar. Esses pequenos empréstimos e devoluções uma ferramenta, uma ajuda rápida, uma palavra amiga vão construindo uma espécie de pequena comunidade, daquelas que aquecem o dia e tornam tudo mais leve.

      Também não acho que seja gesto insignificante; às vezes, é justamente no mínimo que mora o que mais importa.

      Beijos!🙏🏻😘

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  6. Fernanda, querida amiga,
    Tens um coração imenso. Eu sabia!...
    A espontaneidade das tuas palavras, a forma como descreves esse momento, revelam a tua alma linda e grandiosa minha amiga.
    Não foi apenas amabilidade - foi um natural impulso interior tão intrinseco se ti - que revela a tua grande sensibilidade nos momentos aparentemente insignificantes!

    Perdoa a m/ ausência, mas a edição e promoção do meu novo livro, tem ocupado imenso tempo.
    Gratidão pelas maravilhosas palavras que me deixaste... adorei!

    Um carinhoso abraço Nanda.

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    1. Albino, querido amigo,

      Que alegria receber tuas palavras tão generosas, tão cheias desse afeto que sempre reconheço em ti. Fico tocada por saber que viste sensibilidade num gesto tão simples; às vezes, é no pequeno que a alma se revela inteira, não é? E tu tens um olhar que alcança esses detalhes com uma ternura rara.

      Não precisas pedir perdão pela ausência um novo livro merece tempo, entrega e silêncio fértil. Estou feliz por saber que estás nessa fase bonita de criação e partilha. E que bom que minhas palavras te encontraram no momento certo.

      Um abraço cheio de carinho, meu amigo.🤗😘🙏🏻

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  7. Boa noite de Paz, querida amiga Fernanda!
    Já estive na Chica. Mereceu estar lá.

    "Pensei, com um sorriso discreto, que talvez a vida fosse composta essencialmente de momentos assim: minúsculos, quase abstratos, mas que revelam o caráter das pessoas e da própria convivência humana."

    Que parágrafo tão cheio de vida!
    E vida plena, diga-se de passagem.

    Entendo bem o que você sentiu...
    Minha vizinha já precisou guardar coisas na minha geladeira e eu na dela.
    É muito gratificante fazer o bem.
    Sentimo-nos abastecidos na alma.
    Vou fazer meu chazinho agora.
    Tenha uma nova semana abençoada!
    Beijinhos fraternos

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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)