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Eu amo escrever. Escrevo porque às vezes não cabe tudo aqui dentro. Porque há sentimentos que só se organizam quando viram palavras, e pensamentos que só fazem sentido quando dançam na página. Amo também olhar o céu e talvez isso diga tudo. Há quem olhe o céu para prever o tempo, eu olho para prever a mim mesma. Há algo em observar as nuvens, as estrelas ou o silêncio azul que me faz lembrar que existe poesia mesmo nos dias comuns. Este blog nasce desse encontro: entre a escrita e o céu. Vai ser um espaço para dividir pensamentos, contar histórias, guardar pedaços de mim e talvez, de você também, que me lê agora. Obrigada por estar aqui. Que você se sinta à vontade. Que cada texto seja como uma janela aberta, onde o vento entra leve e, quem sabe, traz um pouco de luz também

✿Amor sempre....

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Caminho entre flores. O chão continuará pra nós com outras paisagens. Sou o que sou, porque é tudo que sei ser. E todo meu olhar escrito que você nunca aprendeu a ler, permanecerá no descaso para quem não compreende.

04 janeiro, 2026

Conhecimento e sabedoria

Aleatoriamente um toque de poesia



Hoje, 

enquanto esperava o café coar lentamente, como quem deixa a vida decantar junto com a água quente no pó, me peguei pensando nessa frase que ouvi de um senhor numa palestra antiga: “Não confunda jamais conhecimento com sabedoria. Um o ajuda a ganhar a vida; o outro a construir uma vida.”

Na hora, anotei num guardanapo, como quem guarda um segredo precioso, mas só hoje me dei ao trabalho de decifrar o que aquilo realmente queria me dizer.

O conhecimento, reconheçamos, é vaidoso. Ele gosta de títulos pendurados na parede, diplomas com moldura dourada, medalhas que tilintam no peito e até frases difíceis que impressionam em reuniões. É útil, claro: abre portas, garante salários, paga contas. Conhecimento é meio de transporte rápido, certeiro, quase como um carro último modelo que nos leva de um ponto ao outro da vida.

Já a sabedoria… ah, essa não tem pressa. É aquela senhora de cabelos brancos que fala baixo e olha fundo nos olhos, que prefere um banco de praça a um púlpito. Sabedoria não se adquire em cursos; ela se acumula em silêncios, em quedas, em amores que doem e em perdas que transformam. Se o conhecimento se exibe, a sabedoria se oferece. É como uma estrada de terra: mais lenta, cheia de curvas, mas que leva a lugares onde a alma respira.

Quantas vezes confundimos um com o outro! Basta lembrar de pessoas que sabem de cor as leis da física, mas não conseguem respeitar o espaço do vizinho. Ou dos que têm doutorados em comunicação, mas não escutam nem o próprio filho. Conhecimento sem sabedoria é como ter uma casa luxuosa sem janelas: falta ar, falta horizonte.

Lembro-me de uma amiga, estudiosa incansável, que fez todas as especializações possíveis em sua área. Um dia, em meio a tanta certidão acadêmica, desabou em lágrimas: “Eu sei tudo sobre meu trabalho, mas não sei nada sobre mim.” Ali estava o retrato vivo da frase no guardanapo. O conhecimento deu a ela a profissão, mas não o rumo. A sabedoria, se cultivada, daria o norte, o sentido, a serenidade para suportar os dias.

É curioso: nas rodas de conversa, o conhecedor fala; o sábio escuta. O primeiro traz respostas prontas; o segundo devolve perguntas que nos fazem pensar. O conhecedor nos impressiona; o sábio nos transforma.

Talvez a maior tragédia do nosso tempo seja acreditar que basta acumular informações para estar preparado para a vida. Nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento a internet é uma biblioteca infinita e, paradoxalmente, nunca estivemos tão carentes de sabedoria. Porque sabedoria não se clica, não se copia e cola; ela se vive.

No fundo, penso que o conhecimento é como a semente e a sabedoria é como o fruto. De nada adianta ter o celeiro cheio de sementes se não aprendermos a plantar, regar e esperar o tempo certo da colheita.

Por isso, desconfio que a sabedoria se constrói nas pequenas coisas: no cuidado com quem amamos, na paciência com quem nos irrita, na capacidade de rir de nós mesmos e na coragem de pedir perdão. Ela não rende diploma, mas rende paz. E, convenhamos, paz é um bem que não se compra nem com o mais alto salário.

No final das contas, o café terminou de coar e ficou ali, fumaçando, como quem também queria participar da reflexão. Peguei a xícara e, antes do primeiro gole, prometi a mim mesma: que o conhecimento me ajude a ganhar a vida, sim, mas que a sabedoria essa companheira discreta seja a responsável por me ensinar a construir uma vida que valha a pena ser vivida.



Fernanda

7 comentários:



  1. Oi, Fernanda! Boa noite! Hoje em dia, todo mundo lambe as botas do conhecimento
    como se fosse algo fácil e passageiro, mas a sabedoria? Essa é a parte mais difícil de encarar e, muitas vezes, deixada de lado. Olha só pros caras no trampo: especialistas em merda técnica, mestres em apertar botões e cuspir números, mas sobre si mesmos? Nem fodendo. Não sabem nem o nome da própria sombra. Ninguém topa engolir as porradas da vida – as noites de vômito no vaso, as mulheres que vão embora, o vazio no peito que não fecha. Querem só o mel, o sol na cara, a cerveja gelada na praia num dia quente sem ressaca. Mas como você pega o doce sem morder o azedo? Impossível, não? Aí vem a internet, essa máquina infernal, e a correria dos ratos no esgoto da cidade, forçando o idiota a engolir fatos, links, tutoriais – mais conhecimento que um cachorro morto na rua tem pulgas. Sabedoria? Foda-se, isso dá trabalho. O humano é um bicho preguiçoso, arrogante pra cacete, achando que é o rei do universo só porque tem um diploma ou um feed lotado de likes. Paga caro por isso: noites em claro rolando na cama, desilusões que batem como chute no saco, infelicidade pura regadas de frustrações e mais frustrações. E os filhos da puta ainda culpam Deus. Aí é pra acabar de vez, não é verdade? Quase ninguém quer suar pra aprender de verdade. Preferem fingir, posar de sábios com a boca cheia de nada. Entre aprender e bancar o esperto, a diferença é um abismo – mas a maioria? Não tá nem aí, segue cambaleando pro próximo copo num boteco qualquer. Abraço querida.

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    1. Luciano,

      teu texto é um soco e não disfarça isso. Ele vem carregado de cansaço, lucidez e uma indignação que não é performática, é vivida. Dá pra sentir que não falas do alto de uma torre de marfim, mas do chão mesmo, onde a vida cobra caro por cada ilusão.

      Concordo contigo quando separas conhecimento de sabedoria. A técnica avança rápido, mas o autoconhecimento exige coragem, silêncio e enfrentamento coisas pouco valorizadas num mundo que premia velocidade e aparência. Olhar para si, como dizes, dói. Exige atravessar o azedo antes de merecer o doce.

      Talvez onde eu caminhe diferente de ti seja na forma: acredito que a brutalidade que denuncias acaba, às vezes, reproduzindo o mesmo ruído que criticas. Ainda assim, entendo há verdades que nascem ásperas porque foram gestadas na frustração, na perda, no vazio que ninguém quer admitir.

      Teu texto incomoda, e isso é virtude. Ele escancara a preguiça emocional, a terceirização da culpa, a fé usada como álibi. No fundo, falas de responsabilidade: por si, pela própria sombra, pelas escolhas que fazemos quando ninguém está olhando.

      Sabedoria dá trabalho, sim. E talvez por isso seja tão rara.
      Obrigada pelo texto ele não acaricia, mas acorda.

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  2. Bom.dia de Paz, querida amiga Fernanda!
    Numa madrugada insone, depois de uma noite muito feliz, ler um texto assim tão terno e cheio de sabedoria é edificante.
    "Uma estrada de terra: mais lenta, cheia de curvas, mas que leva a lugares onde a alma respira."
    Que alívio nos dá...
    O autoconhecimento é fundamental, sem ele, todo ensinamentos se torna vazio.
    Tenho experimentado a paz, Amiga.
    Compreemdo, perfeitamente, o que quis dizer.
    Näo fosse tão cedinho, iria passar uma xícara de café.
    Contemplo... como se tivesse fazendo um gole bem quentinho...
    Demorei a fazer valer a minha vida, mas cheguei lá...
    Tenha dias abençoados e felizes!
    Beijinhos fraternos e festivos

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    1. P.S. desculpe-me erros de digitação, vou ao oftalmologista amanhã.
      Bjm

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    2. Roselia,

      teu comentário é um abraço em forma de palavras.
      Ler-te nessa madrugada insone, atravessada por alegria e silêncio, dá mesmo a sensação desse café imaginado: quente, simples, necessário.

      Fico tocada quando falas da estrada de terra. Ela é isso não apressa, não promete atalhos, mas conduz a lugares onde a alma pode respirar sem medo. O autoconhecimento, como disseste tão bem, é o que dá sentido aos ensinamentos; sem ele, tudo vira ruído bonito e vazio.

      Que bonito te ler dizendo que tens experimentado a paz. Paz conquistada, dessas que não caem do céu, mas brotam depois de muita escuta interna, de demora, de coragem. Chegar lá, como disseste, é um feito imenso e só quem caminhou sabe.

      Que teus dias sigam assim: abençoados, conscientes e com esse calor de café compartilhado, mesmo à distância.
      Recebe meu carinho e gratidão por tanta delicadeza.

      Beijinhos fraternos,

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  3. Muito interessante isso,Nanda! Há quem tenha como tua amiga, todos os conhecimentos possíveis em uma área,no entanto nada possui de sabedoria de vida, pois nem tempo se permitiu "perder" com isso...
    Adorei!
    Linda semana, beijos, chica

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    1. Querida Chica,

      teu olhar é preciso e gentil, como sempre.
      Esse “tempo perdido” de que falas é, na verdade, o tempo mais bem investido aquele em que a gente se escuta, se revê, se permite errar e aprender com a própria vida.

      Conhecimento pode até encher prateleiras, mas é a sabedoria que dá chão, direção ao que sabemos. Sem essa pausa, sem essa entrega ao sentir, tudo fica eficiente demais… e vazio.

      Que tua semana também seja linda, com tempo
      suficiente para viver não só para saber.😘🙏🏻

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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)