Havia em teu olhar uma educação de sentimentos,
como nas salas antigas onde o amor se sentava ereto,
com postura, mas tremendo por dentro.
Eu, feita de minúcias, percebi:
não era paixão apressada era dessas que pedem luvas, tempo e coragem.
Caminhamos lado a lado,
mantendo a distância respeitável das convenções,
mas nossos silêncios conversavam em segredo,
trocando promessas tímidas
como bilhetes dobrados no bolso do coração.
Teu gesto contido,
ao oferecer-me o braço invisível do cuidado,
valeu mais que mil declarações barulhentas.
Pois no romantismo verdadeiro
o amor não grita
ele persiste.
Observei-te em detalhes:
o modo como respiras antes de falar, como teus olhos pousam em mim
como quem pousa numa casa depois de longa viagem.
E ali entendi: há afetos que não precisam correr,
porque já chegaram.
Se um dia o mundo nos negar permissão, amarei mesmo assim, com a elegância rebelde das heroínas discretas, com a firmeza doce de quem escolhe ficar
sem perder a própria dignidade.
Pois amar-te,
meu caro,
é meu ato mais educadamente selvagem.
meu poema, meu esposo, meu amado
Fernanda
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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)