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Eu amo escrever. Escrevo porque às vezes não cabe tudo aqui dentro. Porque há sentimentos que só se organizam quando viram palavras, e pensamentos que só fazem sentido quando dançam na página. Amo também olhar o céu e talvez isso diga tudo. Há quem olhe o céu para prever o tempo, eu olho para prever a mim mesma. Há algo em observar as nuvens, as estrelas ou o silêncio azul que me faz lembrar que existe poesia mesmo nos dias comuns. Este blog nasce desse encontro: entre a escrita e o céu. Vai ser um espaço para dividir pensamentos, contar histórias, guardar pedaços de mim e talvez, de você também, que me lê agora. Obrigada por estar aqui. Que você se sinta à vontade. Que cada texto seja como uma janela aberta, onde o vento entra leve e, quem sabe, traz um pouco de luz também

✿Amor sempre....

✿Amor sempre....
Caminho entre flores. O chão continuará pra nós com outras paisagens. Sou o que sou, porque é tudo que sei ser. E todo meu olhar escrito que você nunca aprendeu a ler, permanecerá no descaso para quem não compreende.

01 janeiro, 2026

Plantão do dia 31

Aleatoriamente um toque de poesia



Foi assim que o ano terminou para mim: de jaleco, tênis gastos e o coração tentando caber inteiro dentro do peito. O relógio marcou 23h58 e eu estava no corredor, ajeitando prontuários, quando alguém disse: “Vamos?” E fomos. No meio do hospital aquele mundo onde o tempo não obedece calendário, fizemos uma roda pequena. Éramos poucos, cada um saído de um canto: UTI, pronto-socorro, maternidade. Juntamos as mãos como quem sabe que a vida pede companhia.

A prece começou tímida, com a voz embargada da técnica de enfermagem que carregava cansaço na pronúncia. Pediu luz para os que estavam chegando, abrigo para os que estavam indo, serenidade para nós, que ficamos no meio. Depois eu falei. Falei de esperança como quem tateia escuro procurando o interruptor. Pedi doçura para os dias, lucidez para as escolhas, força para quando o amor não bastar e a gente tiver que vestir coragem. E, na virada do ano, o hospital respirou mais leve. Os alarmes continuaram, os soro pingaram, as dores persistiram, mas havia uma trégua abstrata  ali, como um cobertor espiritual cobrindo tudo.

Meia-noite: abraços rápidos, porque o trabalho não espera. E eu, cansada  olha eu dizendo isso como se ainda me surpreendesse pensei na vida que me espera do lado de fora. 

Nesse laço novo que me habita, feito de cotidiano e futuro. Às 7 da manhã entreguei o plantão com o corpo pedindo pausa e a alma agradecida.

Saí e fui ser mãe.
Saí e fui ser esposa.
Saí e fui ser filha.
E nessa dança de papéis, vou entendendo que nada disso me divide, me multiplica.

Agora, enfim, vou dormir um pouco. O cansaço é grande, mas a gratidão é maior.
O ano começou às pressas, mas, dentro de mim, começou em prece.
E isso já é um bom sinal.
Obrigada Pai!🙏🏻

Bom 2026 a todo nós 😉🙏🏻


Fernanda

11 comentários:

  1. Oi, Fernanda! Boa tarde! A rotina de quem trabalha na área da saúde é um soco diário na cara, sem feriado, sem aplauso que dure até o plantão seguinte. Vocês seguram o sangue, o choro, a família desesperada e ainda têm que sorrir como se o mundo não estivesse caindo. Essencial não é nem a palavra certa; é mais como um pacto silencioso: vocês se ferram para que o resto do mundo continue fingindo que está tudo bem. Anjos da guarda nada; são gente cansada, com olheira funda, coluna arrebentada e o coração insistindo em acreditar que vale a pena, e vale quando se tem o amor no coração. Então fica esse comentário modesto de minha parte: obrigado por continuarem indo, mesmo quando ninguém vê, mesmo quando ninguém entende, mesmo quando parece que não vai mudar. Que 2026 traga pelo menos um pouco de luz, um amor possível, e algumas noites de sono sem sirene na cabeça desses heróis da saúde brasileira. Abraço amiga.

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    1. Querido Luciano,

      Li teu comentário como quem encontra um banco vazio depois de horas em pé sentei nele por dentro.

      Não sei se mereço tanto, não sei se cabe essa imagem de heroísmo em quem volta pra casa com cheiro de álcool na pele e um resto de lágrima presa no canto do olho. A gente tenta, sabe? Não por grandeza, por amor mesmo. Por esse amor que às vezes é pequeno, mas insiste. Que às vezes falha, mas volta.

      Tem dias em que o hospital parece um mundo inteiro, com suas guerras, suas reconciliações e suas despedidas. Tem outros em que é só um corredor comprido demais, e eu atravessando, torcendo para chegar do outro lado ainda sendo eu.

      Obrigada por não poetizar nossa dor como quem usa purpurina. Obrigada por enxergar um ser humano onde tantos só enxergam função. Se 2026 quiser ser gentil, que seja com todos nós: os que cuidam, os que esperam, os que sobrevivem.

      Recebo teu abraço como quem recebe um cobertor depois da febre.
      E te devolvo outro, com cuidado, para não derramar minha exaustão em você.

      Obrigada 🙏🏻

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  2. Nanda, apesar de longe de casa do marido, dos filhos e família, foi um lindo virar de ano.
    Com prece, mãos unidas, pedidos pelos outros para que tudo certo acabe para cada um!
    E, claro, às 7 horas, hora de ser tudo o que te completa ainda mais!
    Seja tu, teus pacientes, teus filhos, família toda, muiiiiiiito felizes e sadios nesse 2026 que já começou a correr!
    beijos, tudibão, chica

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    1. Chica, querida,

      que abraço bom chegam suas palavras.
      Foi estranho e bonito ao mesmo tempo virar o ano longe, como se o coração tivesse aprendido a estar em muitos lugares de uma vez. Fiz prece, sim. Fiz silêncio também. E senti que, mesmo distante, cada afeto meu estava ali, feito vela acesa dentro de mim.

      Às 7 horas, quando tudo recomeça, eu me lembro: sou feita desse chamado. Dos pacientes, dos filhos, da família que me espera e me empurra pra frente, mesmo de longe. Ser tudo isso e ainda ser eu, acho que esse é meu exercício diário.

      Obrigada por desejar o bem sem economizar luz. Que 2026 cuide de nós com mãos mansas, que traga saúde e caminhos suaves, e que o amor saiba nos encontrar onde estivermos: plantão, casa, estrada ou pensamento.

      Beijo grande, Chica.
      “Tudibão “pra nós, de verdade.

      😘🙏🏻

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  3. Que texto maravilhoso, Nandinha!
    Acompanhei o teu ser mãe, ser esposa, ser filha...O final de ano passa um filme em nossas cabeças sobre como foi o ano e como será esse 2026! E quero que seja lindo para ti, com muito carinho e amor daqueles seus amigos que estão aqui contigo, amor de tua família linda, é isso que desejo pra ti, querida amiga. Escrevi algo para ti e não vi ainda, dá uma olhada nos anteriores, não lembro onde postei, talvez escrevi no bloco e não enviei, posso ter feito isso, tamanho o cansaço, o Natal foi aqui em casa... ótimo, mas cansa 😅🙏🙋‍♀️
    Beijinho, querida!

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    1. Tais,

      minha querida, que alegria te ler. Esse teu olhar sobre mim mãe, esposa, filha, essa mulher que tenta ser tantas e ainda se achar.
      Você me abraça de um jeito tão bonito. O fim de ano realmente faz a gente rebobinar a vida, né? Um filme inteiro passando no peito, com cenas que doem e outras que salvam.

      Eu já postei o outro comentário, viu? Já está lá, com todo o meu carinho. Às vezes a gente posta e nem vê, às vezes escreve e nem envia… faz parte desse cansaço que vem junto das das responsabilidades e do amor grande que nos atravessa. Imagino como foi o aí bom e exaustivo, como quase tudo que vale a pena.

      Que 2026 venha mansinho, com carinho suficiente pra nos desfazer das durezas. Que seja lindo, como tu desejas com amor dos nossos, com amigos presentes mesmo de longe, com família sendo porto. E que o ano seja leve com você, Tais. Você merece.

      Beijinho no coração, minha amiga linda!
      😘🙏🏻

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  4. Querida amiga Fernanda, boa noite de 2026!
    A vida pede boa companhia...
    Você foi a excelente companhia para a roda de oração. Eu fui na minha roda de 4 pessoas. Foi lindo.
    Um.amigo me disse que nao pede mada a Deus, só agradece. Muito lindo e perfeito.
    Li você e me lembrei.
    Nossa capacidade de nos multiplicar.
    Que as preces sejam o melhor no novo ano bebê!
    Tenha um 2026 muito feliz e abençoado!
    Beijinhos fraternos e festivos

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  5. Parabéns Fernanda pelo trabalho e dedicação!! Feliz Ano Novo!!

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  6. Querida Fernanda
    O texto que escreveu é cheio de humanidade e ternura. Para com aqueles que têm de passar no hospital e para aqueles que têm de dar assistência e cuidar. Fiquei emocionada pelo tom com que fala dessa trabalho, como uma graça de Deus.
    Quando acabou o plantão foi ser mãe, esposa e filha. Cada função no seu tempo mas dando sempre graças pela saúde e disponibilidade mental para cumprir tudo.
    Minha amiga, desejo que o Ano de 2026 lhe traga tudo o que deseja para si e para os seus.
    Beijinhos
    Olinda

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  7. Bom dia, Fernanda.
    No seu lindíssimo texto é tocante a percepção do tempo que, antes, era uma presença mais suave, um guia natural para os afazeres e encontros. Hoje, ele nos escapa pelos dedos, fragmentado em agendas lotadas, compromissos urgentes e uma sensação constante de que nunca há horas suficientes para gerarmos nossos dias. E no meio dessa correria moderna, ainda podemos escolher como viver o tempo e aprender com o passado sem precisar voltar a ele, podemos encontrar pausas para conversas sinceras, para gestos de carinho e solidariedade como você demonstra em constante solidariedade na sua função que é sublime.
    O seu maravilhoso blog é, sem dúvida, um refúgio para quem deseja instantes de reflexão e ternura.
    Receba meus efusivos parabéns e que 2026 seja para você abençoado e feliz em todos os ângulos de sua vida.
    Saudações poéticas e fique com meu abraço de carinho, respeito e admiração.

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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)

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