Foi assim que o ano terminou para mim: de jaleco, tênis gastos e o coração tentando caber inteiro dentro do peito. O relógio marcou 23h58 e eu estava no corredor, ajeitando prontuários, quando alguém disse: “Vamos?” E fomos. No meio do hospital aquele mundo onde o tempo não obedece calendário, fizemos uma roda pequena. Éramos poucos, cada um saído de um canto: UTI, pronto-socorro, maternidade. Juntamos as mãos como quem sabe que a vida pede companhia.
A prece começou tímida, com a voz embargada da técnica de enfermagem que carregava cansaço na pronúncia. Pediu luz para os que estavam chegando, abrigo para os que estavam indo, serenidade para nós, que ficamos no meio. Depois eu falei. Falei de esperança como quem tateia escuro procurando o interruptor. Pedi doçura para os dias, lucidez para as escolhas, força para quando o amor não bastar e a gente tiver que vestir coragem. E, na virada do ano, o hospital respirou mais leve. Os alarmes continuaram, os soro pingaram, as dores persistiram, mas havia uma trégua abstrata ali, como um cobertor espiritual cobrindo tudo.
Meia-noite: abraços rápidos, porque o trabalho não espera. E eu, cansada olha eu dizendo isso como se ainda me surpreendesse pensei na vida que me espera do lado de fora.
Nesse laço novo que me habita, feito de cotidiano e futuro. Às 7 da manhã entreguei o plantão com o corpo pedindo pausa e a alma agradecida.
Saí e fui ser mãe.
Saí e fui ser esposa.
Saí e fui ser filha.
E nessa dança de papéis, vou entendendo que nada disso me divide, me multiplica.
Agora, enfim, vou dormir um pouco. O cansaço é grande, mas a gratidão é maior.
O ano começou às pressas, mas, dentro de mim, começou em prece.
E isso já é um bom sinal.
Obrigada Pai!🙏🏻
Bom 2026 a todo nós 😉🙏🏻
Fernanda
Nenhum comentário:
Postar um comentário
depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)