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Eu amo escrever. Escrevo porque às vezes não cabe tudo aqui dentro. Porque há sentimentos que só se organizam quando viram palavras, e pensamentos que só fazem sentido quando dançam na página. Amo também olhar o céu e talvez isso diga tudo. Há quem olhe o céu para prever o tempo, eu olho para prever a mim mesma. Há algo em observar as nuvens, as estrelas ou o silêncio azul que me faz lembrar que existe poesia mesmo nos dias comuns. Este blog nasce desse encontro: entre a escrita e o céu. Vai ser um espaço para dividir pensamentos, contar histórias, guardar pedaços de mim e talvez, de você também, que me lê agora. Obrigada por estar aqui. Que você se sinta à vontade. Que cada texto seja como uma janela aberta, onde o vento entra leve e, quem sabe, traz um pouco de luz também

✿Amor sempre....

✿Amor sempre....
Caminho entre flores. O chão continuará pra nós com outras paisagens. Sou o que sou, porque é tudo que sei ser. E todo meu olhar escrito que você nunca aprendeu a ler, permanecerá no descaso para quem não compreende.

02 fevereiro, 2026

Mochilas cheias, coração transbordando

Aleatoriamente um toque de poesia


Hoje meus filhos voltaram às aulas. Mochilas, cadernos novos, lápis apontados, olhos brilhando de expectativa. A casa acordou diferente, com cheiro de recomeço. E enquanto eu os observava saindo, algo em mim voltou no tempo. Lembrei de quando eu era pequena e sonhava com essas mesmas coisas simples: uma mochila, um caderno só meu, um lugar para aprender.

Creio que já trazemos nossa paixão desde o berço… ops 😬 eu não tive berço. Recém-nascida, fui abrigada num orfanato. De lá, fugi tão pequenina, carregando mais medo que brinquedos, mais silêncio que colo. Mas mesmo assim, o desejo de aprender já morava em mim.

Lembro que na lixeira encontrei minhas primeiras folhas de caderno. Um lápis ganhei de um senhor da banca de revista, desses anjos anônimos que Deus espalha pela vida da gente. Fui montando meu “kit escola” assim, aos pedaços, como quem constrói um sonho com restos que o mundo descarta. Andava pelas lixeiras procurando folhas ainda “novas”, limpas de um lado, suficientes para escrever esperança.

E fiz muito esforço até conseguir sentar numa sala de aula, meu Deus… Quando finalmente consegui, não foi fácil. Sofria bullying das outras crianças porque eu não tinha sandálias. Os sapatos que a escola doava quase sempre acabavam antes de chegar em mim. Meus pés eram maiores que os calçados disponíveis. E até chegarem novos, eu ia com o que tinha. Ia descalça por dentro, mas seguia andando por fora.

Hoje, vendo meus filhos com tudo aquilo que um dia me faltou, meu coração não sente inveja do passado sente gratidão 🙏🏻 pelo presente. Agradeço tanto por eles terem o que eu não tive. Mas agradeço ainda mais por eu poder ser para eles aquilo que eu não tive: mãe. Colo. Presença. Amor que não acaba.

Desejei a eles um dia cheio de alegrias, mas, no fundo, fiz uma oração silenciosa: que nunca lhes falte dignidade, coragem e gratidão. Que saibam valorizar cada lápis, cada caderno, cada oportunidade. Porque por trás dessas mochilas cheias, existe uma mãe que um dia carregou sonhos vazios nas mãos e mesmo assim nunca deixou de acreditar.

E hoje, ao fechar a porta depois que eles saíram, eu sorri. Não por esquecer o passado. Mas por ter transformado dor em raiz, e raiz em fruto. 

E enquanto a casa ficava em silêncio, sentei-me por um instante no sofá e deixei o coração falar. Olhei para as mochilas que ficaram, para os cadernos extras, para os tênis novos perto da porta… e senti que cada objeto carregava mais do que material escolar. Carregava reparação da vida.

Porque a vida, às vezes, não devolve o que tirou. Mas quando devolve, devolve através dos filhos. É neles que a história se reorganiza. É neles que a ferida aprende a virar cicatriz bonita.

Eu não tive berço, mas construí colo.
Não tive caderno novo, mas hoje compro sonhos encapados para eles.
Não tive sapatos certos, mas hoje amarro cadarços com amor e paciência.

E entendi algo precioso: eu não sobrevivi àquela infância para ser vítima do passado, mas para ser construção para o futuro. Cada manhã em que preparo o lanche, ajeito uniforme, dou beijo na testa, é como se eu dissesse para a menina que fui: “nós conseguimos”.

Talvez meus filhos nunca saibam todos os detalhes da minha história. Mas eles sentirão nos gestos, no cuidado exagerado às vezes, no abraço que demora, no “Deus os acompanhem” dito da porta da escola.Porque quem um dia andou sozinha aprende a caminhar junto.

E assim sigo: agradecendo. Não pelo que doeu, mas pelo que floresceu. Não pelo que faltou, mas pelo que hoje transborda.

Porque hoje, quando meus filhos entram na escola, não são só eles que entram.
Entra comigo aquela menina que catava folhas na lixeira.
E ela entra de cabeça erguida. Com mochila cheia de amor. E o coração, finalmente, em casa. 



Fernanda

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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)

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