Era só mais um fim de tarde comum, desses que passam devagar, como se o tempo também quisesse descansar. Mas havia algo diferente no ar um silêncio bonito, uma presença discreta, um “nós dois” que não precisava ser explicado.
Não era um encontro marcado, tampouco uma conversa planejada. Apenas aconteceu: eu e Deus, lado a lado, dentro de mim. Ele não chegou com trovões nem promessas, apenas com aquele jeito manso de quem sempre esteve. E eu, cansada das perguntas, sentei-me para ouvir.
Falamos de tudo sem dizer nada. Eu contei sobre as saudades, os medos, as tentativas. Ele respondeu com calma, transformando cada dor em um sopro leve de entendimento. E quando o coração quis se justificar, Ele sorriu, aquele sorriso que não se vê, mas se sente e disse baixinho: “Eu sei.”
Ficamos assim: eu, pequena; Ele, imenso mas tão perto que parecia caber no meu peito. Foi ali que percebi que amor nenhum é maior do que esse, o que nos envolve sem precisar de prova.
Quando me levantei, o mundo era o mesmo, mas eu não era mais. Porque, depois de conversar com Deus, tudo o que é peso vira asas.
Fernanda
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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)