Naquele tempo eu achava que Deus morava somente no Céu bem a cima das nuvens. Eu o chamava de “Senhor do Alto”. Era noite, e eu estava deitada num pedaço de papelão atrás de uma venda fechada. O vento fazia frio nos meus pés, mas eu gostava de olhar o céu porque parecia que as estrelas piscavam para mim . Então comecei a conversar com Ele.
Senhor do Alto… o senhor tá acordado? Fiquei esperando um pouquinho, como se o céu pudesse responder. Hoje eu comi pão. O senhor gosta de pão durinho? Eu gosto quando molha no leite, sabe que gosto tem leite ? Agora eu sei.
Abracei minhas pernas e continuei falando baixinho.
O senhor fez as estrelas tudo sozinho? Porque é um monte, né? O senhor não cansou não?
Depois fiquei séria.
Senhor do Alto… por que algumas mamães deixam as filhas irem embora delas? O senhor viu quando eu fui deixada lá na dona Rosa? Eu chorei baixinho pra ninguém brigar comigo?
O vento soprou mais forte e eu olhei para cima de novo.
Às vezes eu acho que o senhor esqueceu de mim um tiquinho… mas depois eu acho que não, porque sempre aparece alguém bom. Igual o moço do pão e daí meu coração sente que o Denhor está me cuidando.
Fiquei pensando um tempão antes de perguntar outra coisa:
O senhor mora mesmo aí em cima ou mora escondidinho dentro das pessoas boas também?
Achei bonita aquela pergunta. Criança também sente quando cria pensamento bonito.
Então sorri sozinha. Morou dentro do moço do pão hein?
Quando eu crescer, eu vou ter uma casa. E nela ninguém vai ajoelhar no milho. Nem ficar sozinho no frio. Pode?
Fechei os olhos devagar.
E outra coisa… eu amo o senhor um tantão assim ó…
Abri os braços no escuro, bem grandão, mesmo sem ninguém vendo.
Tão tantão que nem cabe aqui dentro de mim.
Depois fiquei quietinha olhando a lua.
E naquela noite, pela primeira vez em muito tempo, dormi sentindo que talvez o Senhor do Alto estivesse mesmo sentado ali pertinho, ouvindo cada pergunta da menina pequena que conversava com o céu.
Fernanda!
Estou escrevendo os episódios da Fernandinha que fui.
Um pedido de André , de meus pais e das crianças.
E, pensando bem,
percebi que não são apenas as crianças que gostam de ouvir sobre a Fernandinha,
a turma toda senta juntinhos ao lado na hora da história 🫣
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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)