Quem foi que decidiu que o espelho deveria responder apenas sobre beleza?
Talvez essa tenha sido uma das maiores injustiças da humanidade: ensinar pessoas a procurarem no reflexo apenas aquilo que os olhos conseguem medir.
Ninguém pergunta ao espelho:
“Fui bondosa hoje?”
“Machuquei alguém sem perceber?”
“Minha presença descansou ou feriu?”
“Meu coração continua generoso?”
Não.
Perguntam sobre rugas.
E enquanto o mundo enlouquece tentando parecer bonito, a bondade vai ficando esquecida nos cantos das pessoas simples. Mas a verdade é que existe uma beleza que nenhum espelho consegue refletir.
Ela aparece naquela mulher cansada que divide o último pão sem ninguém ver.
Na pessoa que responde com delicadeza mesmo carregando dores imensas por dentro.
No homem que abaixa a voz para não humilhar alguém em público.
Naqueles raros seres humanos que ainda sabem ser abrigo num mundo especialista em tempestades.
A bondade nunca fez barulho.
Talvez por isso passe despercebida numa sociedade apaixonada por vitrines.
As pessoas fotografam o rosto, mas escondem o caráter.
Editam a pele, mas não corrigem a crueldade.
Falam sobre autoestima enquanto distribuem indiferença pelos corredores da vida.
E o espelho continua ali.
Pobre espelho.
Condenado a refletir apenas superfícies quando o que realmente importa mora muito mais fundo.
Porque a verdadeira beleza de alguém aparece no modo como trata quem não pode oferecer nada em troca.
Aparece na paciência.
Na escuta.
Na forma como segura a mão de alguém ferido sem transformar aquilo em likes para redes sociais.
Há pessoas lindas que cansam depois de cinco minutos de conversa.
E há pessoas comuns que iluminam ambientes inteiros apenas pela forma como fazem os outros se sentirem.
Talvez seja disso que os contos antigos esqueceram de falar.
A madrasta da Branca de Neve não precisava perguntar quem era a mais bela. Precisava perguntar quem ainda possuía bondade suficiente para não adoecer de vaidade.
Porque existe um momento em que o ser humano começa a admirar demais o próprio reflexo e de menos a própria alma. E então fica bonito por fora… e vazio por dentro.
No fim, o tempo resolve quase tudo sozinho.
A juventude passa.
A pele muda.
Os traços envelhecem.
Mas a bondade…
A bondade faz o contrário.
Tem gente que vai ficando mais bonita à medida que envelhece.
Porque o coração amadurece no rosto.
Os olhos aprendem ternura.
A voz ganha calma.
E a alma finalmente começa a aparecer através da pele.
Talvez um dia a humanidade amadureça o suficiente para fazer a pergunta correta diante do espelho.
Não:
“Espelho, espelho meu, existe alguém mais bonito do que eu?”
Mas sim:
“Espelho, espelho meu… minha alma ainda continua bonita?”
No fim, a beleza que realmente permanece é aquela que o espelho não consegue refletir: A BONDADE!😉
Fernanda
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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)