Ser menina de rua era aprender a sentir fome em silêncio. Existe um tipo de fome que dói na barriga.
Mas existe outra que dói por dentro de outro jeito. Eu devia ter uns 5 anos quando descobri o horário em que a padaria jogava fora os pães dormidos do dia anterior. Não eram pães bonitos. Alguns estavam duros, outros amassados. Mas, para mim, pareciam banquetes.
Eu esperava sentada na calçada da esquina.
Aprendi a esperar sem chamar atenção. Criança de rua desenvolve uma espécie de invisibilidade triste. A gente percebe rapidamente quando incomoda os olhos das pessoas.
Naquela noite fazia muito, muito frio.
Eu abraçava os joelhos e observava pela vitrine as famílias comprando sonhos, bolos e leite quente. As crianças entravam de mãos dadas com os pais. Algumas reclamavam porque não queriam determinado sabor. E eu pensando que felicidade devia ser poder escolher.
Quando o padeiro apareceu com um saco preto, meu coração acelerou. Ele caminhou até a lixeira dos fundos e, antes de jogar tudo fora, me viu parada perto do muro.
Fiquei imóvel. Quem vive na rua aprende a ter medo até da bondade, porque nem toda aproximação vem sem crueldade escondida.
Ele me olhou por alguns segundos e perguntou:
Está com fome, menina?
Não respondi, só baixei a cabeça. A vergonha às vezes faz a fome perder a voz.
Então ele abriu o saco e colocou alguns pães nas minhas mãos. Estavam frios e um pouco duros, mas ainda tinham cheiro de padaria. E até hoje acho que nunca senti perfume melhor.
Agradeci baixinho.
E sorri timidamente.
Ele ainda entrou de novo e voltou com uma caneca de leite morno. Segurei aquilo com as duas mãos como quem segura um milagre.
Na rua, pequenos gestos crescem de tamanho.
Naquela noite, sentada na calçada, molhando o pão no leite, percebi uma coisa que nunca esqueci: o mundo tinha pessoas capazes de machucar crianças… mas também tinha gente que salvava um pedaço delas.
Talvez aquele homem nem imagine o que fez por mim.
Talvez, para ele, fossem apenas sobras, junto com sua bondade virou um banquete. Para a menina que eu era, aquele pão dormido trouxe de volta uma coisa que andava quase morrendo dentro de mim: a sensação de que eu ainda merecia cuidado.
Fernanda
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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)