Há assuntos que chegam à mesa com a delicadeza de um chá das cinco e, antes mesmo que alguém prove o primeiro gole, já despertaram uma discussão inteira. A emigração brasileira é um deles.
E talvez eu esteja observado tudo isso com aquele olhar aparentemente sereno, mas perigosamente perspicaz, perguntando: o que exatamente faz uma pessoa acreditar que atravessar uma fronteira transforma alguém em melhor ou pior ser humano?
Eu começo por uma opinião que é somente minha e faço questão de repetir: é a minha opinião. Não acredito que as nações deveriam fazer tantas diferenças entre os povos.
Afinal, Deus não fez passaporte. Não colocou carimbo na testa de ninguém.
Não disse que um nasceu mais digno porque veio de determinado território, nem que outro deveria ser tratado como inferior porque nasceu do lado errado de uma fronteira.
E então me ocorre uma pergunta bastante simples: Se Deus decidisse amar apenas uma parte de nós e não quisesse sequer conversar com a outra, o que seria de nós? Talvez a humanidade precisasse aprender que fronteiras são necessárias para organizar países, mas não deveriam ser usadas para organizar o valor das pessoas.
O brasileiro que parte
Há quem imagine que emigrar seja uma espécie de aventura romântica: malas bonitas, aeroporto, fotografia diante de uma paisagem estrangeira e uma vida nova começando como nos romances. Mas quem parte sabe que não é tão simples.O emigrante leva documentos, roupas e sonhos. Mas leva também saudade. Leva o idioma dentro da boca, a família dentro do peito e o Brasil inteiro escondido em pequenas coisas: uma comida, uma música, uma palavra, um jeito de rir.
E talvez a pergunta mais justa seja: Quantas pessoas deixam o Brasil porque realmente desejam partir e quantas partem porque acreditam não ter alternativa? Eu, particularmente, só mudaria do meu Brasil se fosse extremamente necessário. Não porque considere o Brasil perfeito longe disso. Mas porque existe uma diferença enorme entre reconhecer os defeitos de uma casa e deixar de amá-la por causa deles.
Eu posso reclamar da minha casa e, ainda assim, continuar amando-a. Aliás, quem nunca “reclamou” da própria família que atire a primeira pedra.
O Brasil visto de fora
Há outra questão que me incomoda. O Brasil, lá fora, é muitas vezes julgado por seus próprios problemas. Corrupção, violência, desigualdade, desorganização, pobreza, escândalos… Tudo isso existe e não deve ser escondido. Mas será que um país inteiro pode ser resumido aos seus defeitos? Será que devemos apresentar um povo inteiro como se ele tivesse uma única personalidade?
O brasileiro também é aquele que acolhe.
É aquele que divide o pouco.
É aquele que abre a porta.
É aquele que transforma desconhecido em amigo com uma facilidade que talvez alguns países invejem secretamente.
Somos contraditórios, sim.
Mas qual povo não é?
E chegamos às brasileiras…
Aqui a conversa fica mais delicada. Há lugares onde se fala das brasileiras de maneira bastante depreciativa, como se toda mulher brasileira carregasse consigo um determinado estereótipo. E isso, sinceramente, me parece uma injustiça. Por que uma mulher deveria carregar a reputação de milhões de outras mulheres simplesmente porque nasceu no Brasil? Há brasileiras honestas, estudiosas, trabalhadoras, mães, cientistas, médicas, professoras, artistas, empresárias, donas de casa, estudantes, agricultoras, escritoras e tantas outras que passam a vida inteira construindo uma história digna. Então por que reduzi-las a um estereótipo? E há uma coisa que sempre me chama atenção quando esse julgamento aparece.Falam muito da brasileira, mas esquecem de olhar para dentro da própria casa.
Porque, convenhamos, a malandragem não atravessa o aeroporto apenas de avião.
Ela também pode estar em casa. Não é uma característica nacional.
É uma característica humana. Homens e mulheres de todas as nacionalidades podem ser honestos ou desonestos, respeitosos ou inconvenientes, generosos ou egoístas.
O caráter não pede visto.
Afinal, quem é estrangeiro?
Talvez essa seja a pergunta que realmente importe.
O estrangeiro é aquele que nasceu longe? Ou é aquele que ainda não tivemos tempo de conhecer? Porque, quando conhecemos a história de alguém, o rótulo começa a perder força.
Descobrimos que aquela mulher que chegou de outro país tem uma mãe esperando por ela. Que aquele homem que fala com sotaque também tem filhos.
Que aquela família estrangeira sente medo.
Que aquela jovem brasileira que desembarcou sozinha talvez esteja apenas tentando construir uma vida melhor. E então percebemos uma coisa desconfortável:
antes de sermos brasileiros, portugueses, italianos, franceses, japoneses ou qualquer outra nacionalidade, somos pessoas.
O verdadeiro problema talvez não esteja na fronteira
A fronteira pode separar territórios. O preconceito é que separa seres humanos.
E talvez devêssemos ter mais cuidado com isso.
Porque amanhã podemos ser nós os estrangeiros.
Hoje alguém olha para nós e diz: “Eles são diferentes.”
Amanhã poderemos estar em outro país ouvindo exatamente a mesma frase.
E que ironia seria descobrir, longe de casa, que aquilo que um dia julgamos nos outros agora pesa sobre nossos próprios ombros.
Por isso continuo pensando que Deus talvez tenha sido muito, muito, mais sábio do que nós tentamos supor. Ele não distribuiu dignidade por nacionalidade.
Não fez seres humanos de primeira e de segunda categoria. Fez pessoas.
E talvez seja justamente aí que esteja nossa maior responsabilidade: aprender a enxergar a pessoa antes do passaporte. Porque, no fim das contas, a pergunta que deveria nos acompanhar quando olhamos para um emigrante não é:
“De onde você veio?”
Mas: “Que história você precisou viver para chegar até aqui?” E talvez, depois de ouvir a resposta, tivéssemos muito menos vontade de julgar. E muito mais vontade de compreender.
Pense nisto😉
Fernanda
Espero, sinceramente, que hajam muitos a ler este teu post.
ResponderExcluirConcordo em absoluto com o que escreves.
E, não sendo brasileiro mas português, acrescento :
Nasci fora de Portugal, numa das antigas colónias.
Em pequeno fui refugiado.
Em adolescente emigrante.
Em adulto, quando vim para Portugal - nem sei...talvés imigrante.
Tanto, mas tanto desparate, que tenho ouvido ao longo dos anos.
Claro que tem de haver regras e serviços competentes.
O problema, é que cada vez mais confunde-se tudo...
Cumprimentos!
Muito bonito e perfeito todas as suas reflexões e indignações Fernandinha. É preciso olhar as pessoas como pessoas, sem rótulos, mas com suas historias e aspirações seja aqui ou acolá. O que temos visto com os emigrantes chega doer, pela falta humanidade e acolhimento. Infelizmente a gente nem sonha com algo diferente, pois a bestialidade anda solta em seu cavalo alado.
ResponderExcluirGostei amiga.
Carinhoso abraço na feliz semana.
Fernanda, a imigração hoje virou um problema, principalmente para países europeus. Milhares de pessoas a cada dia chegam de forma ilegal fugindo dos seus países por vários motivos.
ResponderExcluirCada povo e nação tem sua própria cultura que foi construída ao longo dos séculos. Isso é bom, a diversidade cultural do mundo é uma riqueza humana.
Mas quando um país, mesmo sendo um país rico europeu, não está preparado para receber milhares e milhares de imigrantes ilegais, principalmente quando esses imigrantes não conseguem se aculturar e se fecham totalmente dentro das suas próprias percepções culturais, e isso não seria um problema grande se essas pessoas não estivessem atacando a cultura europeia que os abraçou.
Já vi dezenas de vídeos onde imigrantes muçulmanos atacam, por exemplo, pregadores cristãos na rua por pura intolerância. O pior é que alguns países, tentando proteger os imigrantes muçulmanos(o que à princípio seria louvável), acabam por proibir manifestações religiosas ou culturais que sempre fizeram parte do país. O choque é inevitável.
Eu gosto muito do Brasil, mas se eu pudesse, certamente imigraria (de forma legal) para algum país de Primeiro Mundo, já que não tenho mais nenhuma esperança de que isto aqui um dia, seja uma nação minimamente decente do ponto de vista econômico e ético.
Não que haja países perfeitos, todos tem seus problemas, mas quando comparamos com os nossos problemas, que nunca foram resolvidos pela nossa política e políticos podres, até parecem que não são nada.
Já disse para meu filho. Se quando ele for adulto e tiver oportunidade, saia do Brasil.
Oi, Fernanda! Acredito que a situação dos imigrantes pode se agravar com o tempo, independentemente do país. Existe a possibilidade de que, um dia, seja estabelecido um bloqueio total para a saída de pessoas de suas nações de origem, forçando-as a permanecer onde nasceram. No Brasil, talvez essa realidade nunca se concretize, ou, se acontecer, seja de forma mais flexível. No entanto, em países do chamado primeiro mundo, imagino que as restrições para imigrantes serão bastante severas, principalmente porque aa nações mais poderosas do planeta só olham pro próprio umbigo esquecendo-se das demais nações, especialmente as mais desfavorecidas. Um fraterno abraço!
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