Tenho pensado muito sobre uma coisa que, para mim, precisa ser dita com carinho, mas também com sinceridade: amar não pode ser apenas uma declaração. Amor precisa aparecer nas atitudes, na presença, no cuidado e, principalmente, no tempo que dedicamos uns aos outros.
Digo isso pensando como
Médica, filha, mãe e especialmente nas famílias e nos nossos idosos.
Vivemos uma época em que muitas pessoas estão cercadas de gente e, ainda assim, profundamente sozinhas. Há idosos que têm filhos, netos, irmãos e familiares por perto, mas passam dias esperando uma visita, uma conversa, uma refeição compartilhada ou simplesmente alguém que se sente ao lado deles.
Talvez, essa seja uma das solidões mais dolorosas: ter família e sentir-se esquecido por ela. Não acredito que ser filho, neto, pai, mãe, tio ou avó seja apenas uma condição determinada pelo sangue. São também lugares afetivos que precisam ser ocupados.
Ser neto é aprender a visitar, ouvir histórias, perguntar como está. Ser filho é compreender que os pais envelhecem e que um dia precisarão de nós de uma maneira diferente. Ser pai ou mãe também é ensinar aos filhos, pelo exemplo, que pessoas não são descartáveis quando deixam de ser produtivas.
Como profissional que observa as relações humanas, eu diria às famílias: não esperem a velhice chegar para descobrir que presença também é uma forma de cuidado.
Nossos idosos não precisam apenas de remédios, consultas e uma casa organizada. Precisam de rotina afetiva. Precisam sentir que continuam pertencendo à família.
Precisam, quando possível, de refeições à mesa não simplesmente de um prato deixado diante da televisão. Precisam de conversa, de participação, de pequenas responsabilidades, de encontros. Precisam saber que ainda são importantes.
E isso vale também para as crianças.
Uma criança que cresce vendo os adultos ignorarem os próprios pais pode aprender, a observar como exemplo, que os vínculos familiares são descartáveis. Depois, talvez repita o comportamento. Gentileza também se ensina pelo exemplo.
Não estou dizendo que toda família precisa estar junta o tempo inteiro. Cada pessoa tem suas responsabilidades, seu trabalho, seus problemas e sua própria vida. O que defendo é que não confundamos falta de tempo com falta de prioridade. Às vezes, dez minutos de presença verdadeira valem mais do que horas de convivência distraída.
O celular não deveria ocupar o lugar da conversa. A televisão não deveria substituir a mesa. E as mensagens virtuais não deveriam ser a única forma de demonstrar afeto a quem está envelhecendo ao nosso lado.
Há uma diferença enorme entre estar perto e estar presente.
Talvez nossos amigos dos blogs compreendam essa reflexão porque muitos de nós já percebemos que o tempo passa depressa. Aqueles que hoje são nossos pais, avós e tios um dia foram jovens, trabalharam, cuidaram de nós, fizeram planos e também tiveram seus próprios sonhos.
Agora talvez seja a nossa vez de cuidar.
Amor não é somente dizer “eu te amo”. É perguntar se comeu. É telefonar. É visitar. É sentar-se à mesa. É ouvir a mesma história pela terceira vez sem demonstrar impaciência. É levar o neto para conhecer o avô. É ensinar uma criança a abraçar quem envelheceu. É criar dentro da família uma cultura de cuidado.
Porque, perceba antes de ser tarde , o ser humano precisa do outro ser humano.
E talvez uma das maiores lições que podemos deixar para as próximas gerações seja esta: ninguém deveria envelhecer sentindo que se tornou invisível dentro da própria família.
Amar, quando é verdadeiro, não fica apenas na boca.
Amor cria presença. Amor cria rotina. Amor cria pertencimento. E, sobretudo, amor cuida.
Pense nisso!😉
Fernanda
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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)