Ser poeta é uma coisa curiosa. Afinal, o que é a poesia?
Talvez seja aquilo que sobra quando a palavra já não consegue explicar o sentimento. É o silêncio que aprende a se vestir de frase, a lágrima que se transforma em metáfora, o cotidiano que, de repente, ganha uma janela para o infinito.
E o que precisa o poeta dizer através dela?
Tudo e nada.
Pode homenagear, pode revelar, pode até desvalorizar porque poeta também engloba essências, e nem sempre a beleza mora no que se escreve. Mas existe uma suavidade que não deveria ser esquecida: quando olhamos profundamente para alguém, quase sempre estamos diante de um espelho lembre-se.
O outro está ali, sendo ele.
O reflexo, porém, é nosso.
Há poeta que, sem perceber, escreve tanto sobre o outro que acaba tentando colocar dentro dele a própria personalidade, os próprios medos, suas certezas, suas feridas e até aquilo que gostaria que o outro fosse. E então confunde poesia com julgamento. Mas a poesia verdadeira não precisa diminuir ninguém para fazer alguém crescer.
Ela não precisa transformar o outro em personagem de suas próprias sombras.
Ser poeta é saber que cada pessoa carrega um universo que não nos pertence.
É olhar sem possuir.
É sentir sem invadir.
É escrever sem condenar.
Porque talvez a maior beleza da poesia esteja nisso: ela não diz ao outro quem ele é; ela revela ao poeta quem ele se tornou diante dele.
E assim, quando escrevo sobre você, talvez eu esteja falando muito mais de mim do que imagino.
O poeta deveria saber disso.
Cada palavra que escolhe é uma pequena janela.
E, vez ou outra, quando termina o poema, descobre que estava olhando para fora apenas para enxergar melhor o que havia dentro.
Ser poeta é isso: é fazer da palavra uma casa, mas ter humildade para lembrar que nem todo mundo que entra nela veio morar.
Alguns apenas passam.
Outros deixam flores.
E há aqueles que nos deixam um refletir apontando o seu interior.
E saiba: Não, Sou sua musa.
E talvez você tenha se enganado ao pensar que ser musa é pertencer ao poeta.
Não pertenço.
A musa não é propriedade da poesia, nem personagem moldada pela vontade de quem escreve. Ela existe antes do poema inteira, imperfeita, dona de seus silêncios e de suas próprias palavras.
Você pode me transformar em verso, pode me vestir de metáforas, pode me colocar entre flores ou tempestades.
Mas não pode me transformar em você.
Se me homenageia, que seja porque encontrou beleza em mim. Se me desvaloriza, talvez esteja apenas conversando com o seu próprio espelho.
Eu sou a musa.
Mas o poema é seu.
E talvez essa seja a parte mais bonita e mais perigosa de ser poeta: descobrir que, enquanto escreve sobre alguém, está inevitavelmente escrevendo um pouco sobre si.
Por isso, não me confunda com suas palavras.
Eu sou muito maior que o personagem que você inventou.
Sou mulher antes de ser musa. Sou história antes de ser metáfora. Sou silêncio antes de ser verso.
E se algum dia eu lhe inspirar um poema, escreva.
Mas não tente me aprisionar nele. Porque musa não é aquela que pertence ao poeta. É aquela que, mesmo depois que o poema termina, continua sendo livre.
Porque aquilo que você enxerga em mim também fala de você.
Fernanda
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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)