Um dia, cansada de colecionar pequenas tristezas, ela decidiu fazer uma coisa diferente: parar de oferecer morada ao que só sabia feri-la.Não prometeu que nunca mais choraria. Prometeu apenas que não faria da própria tristeza uma casa. Se alguma coisa doesse, respiraria fundo e seguiria com a vida miúda que insiste em acontecer enquanto a gente pensa que tudo parou. Se alguém fosse embora, ela deixaria a porta aberta para o adeus, mas não ficaria sentada diante dela esperando passos que talvez nunca voltassem.
E se o amor acabasse, haveria ainda tanta coisa bonita para fazer. Molhar as margaridas, ouvir uma música antiga, conversar com quem ama, olhar o céu demoradamente e agradecer por aquilo que um dia foi bonito. Ela descobriu que a vida não precisa entregar todas as respostas de uma vez. Há coisas que só o tempo explica. Há outras que o tempo simplesmente leva. E há aquelas que permanecem dentro da gente, não como ferida, mas como aprendizado.
Então resolveu esperar. Não por finais perfeitos. Esperaria pelo próximo domingo, pelo canto dos pássaros, por uma notícia boa, por uma tarde tranquila, por uma gargalhada inesperada.
Esperaria pelo amanhã. Porque quem sabe a esperança seja precisamente isso: continuar colocando um pouco de fé na mesa, mesmo quando a vida ainda não serviu o jantar.
E, enquanto espera, viver.
Sem pressa.
Sem medo de recomeçar.
Sem permitir que aquilo que doeu ontem tenha o direito de decidir o que será bonito amanhã.
Fernanda
Talvez a gente só precise, de vez em quando, parar de procurar quem fomos e abraçar, com ternura, quem ainda estamos aprendendo a ser.😊
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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)