Há um instante da manhã em que o pássaro canta antes de qualquer motivo.
Não porque o dia já prometeu bondade, porque o sol garantiu alvoradas sem nuvens, porque o mundo esteja pronto para ouvi-lo.
Ele canta porque existe.
E então penso na vida.
Em como, tantas vezes, esperamos condições perfeitas para sermos.
Para nos levantar, para sorrir, para sentir alegria,
para acreditar.
Como se a vida tivesse que arrumar a casa antes de nos convidar a entrar.
Mas o pássaro não negocia com o vento.
Não exige garantias do galho. Não pede ao céu que seja sempre azul.
Ele canta e confia.
O canto do pássaro me ensina sobre fé sem testemunha,
sobre beleza que não precisa olhares,
sobre coragem que não veste armadura.
É uma aula silenciosa de existir sem explicação,
sem performance,
sem medo de desafinar.
E talvez viver seja isso:
cantar mesmo quando o peito ainda é noite.
Fazer da voz um fio de luz que tenta atravessar as sombras. Cantar baixinho, se for o caso,
mas cantar.
Porque a vida é esse voo que ninguém ensina completamente.
Cada um aprende o vento à sua maneira.
Cada um entende o céu com as próprias asas.
O canto do pássaro me lembra que alegria não é ausência de dor é presença de horizonte. É saber que a manhã chega,
mesmo quando não sei se estou pronta.
E assim, entre o pássaro e a vida, planto um acordo:
eu prometo tentar,
e a vida promete continuar.
No fundo, é tudo o que precisamos
para começar a cantar também.
Fernanda
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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)