Nunca construí vínculos tentando impressionar.
Os encontros que ficaram esses que viraram abrigo nasceram de um gesto mais simples e mais raro: interesse real.
Interesse pelo que o outro não mostra de primeira.
Pelo riso que vem fácil, mas também pelo que vem depois dele. Pelo jeito curioso que cada um encontra de suavizar as próprias dores ou, às vezes, de transformar pequenas coisas em grandes tempestades. É nesse território, meio imperfeito e totalmente gente, que as conexões começam a ganhar forma.
Existe um instante bonito, quase imperceptível em que alguém percebe que pode ser ouvido de verdade.
E quando isso acontece, o coração se abre com uma generosidade desarmada.
Não é estratégia, não é cálculo é resposta.
E então, quase sem perceber, a gente se abre também.
Mas é depois desse momento que tudo começa de fato.
Porque não basta receber a confiança é preciso cuidar dela. Não basta escutar é preciso sustentar.
É ali, no que fazemos com aquilo que nos foi entregue, que os vínculos deixam de ser encontros e passam a ser construção. E nem sempre isso vem como talento.
Para alguns, é dom.
Para outros como eu é prática. Um exercício contínuo de presença, de escuta, de tentativa sincera de ser melhor dentro das relações.
Às vezes olho para as pessoas que caminham ao meu lado e penso: como conseguem fazer isso com tanta naturalidade?
Como transformam qualquer conversa em algo quase sagrado, como se o encontro tivesse sempre um sentido maior?
E então percebo: talvez não seja sobre facilidade.
Talvez seja sobre escolha.
Quando alguém que admiro alguém que considero inteiro, sensível, desperto decide ficar, isso diz muito mais sobre mim do que qualquer dúvida que eu tenha.
Vira um tipo de confirmação silenciosa: continue.
tem algo certo acontecendo aqui.
E isso me move.
Me faz querer crescer, ajustar, amadurecer.
Não por medo de perder, mas por respeito ao que está sendo construído.
Porque nenhuma relação se sustenta no automático.
O ser humano muda, se refaz, se descobre e as relações precisam acompanhar esse movimento.
Elas pedem renovação.
Pedem coragem.
Pedem verdade.
E, no meio disso tudo, aprendi algo que carrego como bússola: as amizades também nos ensinam a amar melhor.
Elas afinam o olhar.
Ajudam a reconhecer o que é cuidado e o que é descuido disfarçado. O que é presença e o que é ausência bem maquiada.
E, vez ou outra, me faço uma pergunta simples, mas decisiva: eu indicaria essa pessoa que hoje mexe comigo para alguém que amo profundamente?
Se a resposta vacila, algo dentro de mim também precisa parar e escutar.
Porque amar não é só sentir.
É escolher com consciência.
É não se abandonar no caminho.
No fim, entendo que tudo isso cada encontro, cada aprendizado, cada tentativa
é parte de um movimento maior.
Eu não seria quem sou hoje
se não tivesse sido tudo o que fui. E sigo.
Não perfeita, não pronta
mas disponível.
Disponível para continuar exercitando esse verbo bonito e exigente:
relacionar.
Fernanda
Oi, Fernanda! A vida nos ensina, dia após dia, a fazer escolhas melhores e a ser versões aprimoradas de nós mesmos, certo? Como sempre, seu texto é cheio de poesia, e isso transparece na sua essência. É um prazer vir aqui e ler suas palavras. Sempre saio tocado pelo que você escreve. Um fraterno abraço Fernanda
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