Meus filhos foram habituados a ouvir histórias nas noites de chuva e nas noites sem ela.
Lhes dava a opção de escolher. E eles, não queriam príncipes, nem castelos, nem finais felizes demais. Queriam histórias “de verdade”, como diziam, e talvez por isso acabassem sempre ouvindo pedaços da menina que fui sem jamais conhecerem completamente aquela criança.
Numa dessas noites, contei a eles sobre o dia em que descobri que o frio também tinha dentes.
A chuva caía fina sobre o Rio e eu me escondi debaixo da marquise de uma loja fechada na Lapa. Tinha encontrado uma caixa de papelão quase inteira e achei aquilo uma riqueza. Passei quase uma hora ajeitando o papelão no chão para não deixar a água subir pelas costas enquanto dormia.
Naquela época, eu acreditava que os postes de luz protegiam as pessoas. Não sei de onde tirei isso. Talvez porque os monstros parecessem menos corajosos perto da claridade.
Então dormi agarrada numa garrafa vazia de guaraná que encontrei na rua porque ela ainda guardava um restinho de cheiro doce.
Meus filhos riram nessa parte.
Mãe, por que nao jogou a garrafa no lixo?
Não soube responder direito.
Talvez porque crianças aprendam cedo a amar aquilo que sobra. Ou talvez porque, naquela noite, o cheiro de guaraná tenha sido a única coisa bonita que me aconteceu.
Quando terminei a história, percebi que meus filhos estavam quietos. O menor deles segurou minha mão por baixo da coberta como quem segura uma coisa que quase se perdeu no mundo.
Lá fora, a chuva continuava caindo sobre os telhados da cidade, lavando as ruas por onde uma menina ainda parecia caminhar dentro de mim.
Então chegou a hora da oração antes de dormir.
É um ritual simples da nossa casa. Nada solene demais. Cada um agradecia do seu jeito: às vezes pela escola, às vezes pelo cachorro da vizinha, às vezes até pelo macarrão do jantar.
Naquela noite, porém, houve uma delicadeza diferente no quarto.
Clarinha e José juntaram as mãos primeiro:
Obrigada, Deus, porque a menina da história não ficou sozinha para sempre.
Os menores completaram:
E porque ela cresceu.
Meus pais ficaram quietos, depois por alguns segundos. Depois, José bem pertinho do meu ouvido falou:
Obrigado Deus porque ela virou nossa mãe.
Senti os olhos encherem d’água, mas permaneci ali sorrindo na penumbra do corredor, enquanto a luz amarela do abajur deixava tudo com aparência de sonho antigo.
Antes de dormir, Aisha pergunta: Mãe… você acha que Deus cuidava daquela menina?
Olhei para ela debaixo das cobertas e respondi:
Claro que sim amor . Acho que Deus nunca saiu do lado dela… mesmo quando ela não percebia.
Aisha fechou os olhos satisfeita.
E eu fiquei olhando meus filhos adormecerem devagar, protegidos, aquecidos, amados exatamente como toda criança merece ser.
Lá fora, o Rio continuava molhando de chuva as minhas lembranças
Mas dentro de mim, pela primeira vez em muitos anos, sabia que a menina da marquise já não sentia frio.
Fernanda
Que lindo,Nanda e que bom eles pouco a pouco terem consciência daquela menina lá do passado ,que passou poucas e boas, mas recebeu o amor que pra ela estava reservado e agora doa amor e o recebe muito, muito e muito! Coisa boa! beijos, chica
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