Hoje o sol me falou baixinho,
como quem conhece meus segredos:
“Vai com calma, Fernanda,
a vida também cansa.”
E eu fui, devagar,
com o coração meio desarrumado,
feito gaveta antiga
cheia de lembranças tortas.
Na rua, o vento puxou conversa,
disse que tudo passa,
até o medo que parece pedra.
Acreditei o vento não mente.
Peguei um pouco de esperança
num gesto mínimo de alguém
que nem sabia
que estava me oferecendo abrigo.
E entendi, de repente,
que o dia ensina sem alarde:
que o amor é feito de miudezas,
que a alegria mora escondida
no fundo de um suspiro,
e que a gente renasce
toda vez que escolhe continuar.
Fernanda

Nenhum comentário:
Postar um comentário
depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)