Depois do episódio do anel, Fernandinha fugiu.
Ninguém soube direito a hora exata. Só perceberam quando o dormitório amanheceu com uma cama vazia e a janela dos fundos entreaberta. Ela tinha saído levando apenas um pedaço de pano que era seu lençol e a coragem que só as crianças abandonadas parecem conhecer.
Andou pelas ruas sem destino, pequena demais para aquele mundo grande e apressado. Passava gente de todo tipo, carros, bicicletas, vendedores gritando nas esquinas… e Fernandinha caminhando sozinha, com os pés cansados e os olhos atentos, como quem tentava entender onde terminava o medo e começava a liberdade.
No primeiro dia, chorou escondida atrás de uma banca fechada.
No segundo, já aprendeu a observar sem abaixar a cabeça.
No terceiro, descobriu que a cidade tinha lugares onde ninguém fazia perguntas.
porque havia o medo de ser encontrada e levada de volta.
Foi assim que chegou perto da feira.
À noite, quando os feirantes iam embora, sobravam frutas machucadas, caixas quebradas e folhas espalhadas pelo chão. Fernandinha começou ajudando a empurrar carrinhos vazios em troca de comida. Pequena demais para carregar peso, mas rápida como passarinho.
Um feirante chamado Seu Antero olhou desconfiado para ela certa manhã:
Cadê tua mãe, menina?
Fernandinha respondeu sem parar de separar tomates aproveitáveis dos estragados:
Não tenho aqui agora, mas ela vai chegar.
Voce mora aqui perto?
Bem pertinho sim senhor.
Quantos anos tem?
O senhor gosta de cafe com leite?
Ele ficou em silêncio. Talvez porque certas respostas carreguem um peso que nem adulto consegue sustentar.
Foi perto dali que Fernandinha descobriu outra fome.
Não a da barriga.
A das palavras.
Toda noite, depois que a igreja fechava, ela recolhia folhas jogadas no lixo: pedaços de jornais, orações antigas, bilhetes, folhetos de missa. Guardava tudo numa sacola azul que encontrou perto da praça.
Ela ainda não sabia ler. Mas observava as letras como quem observa estrelas.
Elas devem querer dizer alguma coisa importante murmurava sozinha.
Então copiava os desenhos das palavras no chão com um graveto, repetindo as formas até decorar. Às vezes errava, apagava com a mão e começava outra vez.
Numa dessas noites, o zelador da igreja percebeu a menina sentada no degrau frio da escadaria, cercada de papéis velhos.
O que você faz aqui tão tarde menina?
Não é hora de estar em casa?
Onde está sua mãe?
Vá para casa!
Fernandinha levantou os olhos devagar e respondeu:
Estou tentando aprender as letras antes que joguem elas fora também.
Por que disse isso? Ele perguntou com jeitinho.
Porque a dona Rosa dizia todos os dias, que somos velhos pequenos e por isso fomos jogados fora.
Mas eu, quando vejo as palavras sinto aqui dentro que elas devem querer dizer alguma coisa importante murmurava baixinho.
Então copio os desenhos das palavras no chão com um graveto, repetindo as formas até decorar. Às vezes erro, apago e começo outra vez.
O zelador da igreja ficou em silêncio. Não daquele silêncio vazio dos adultos distraídos.
Mas de um silêncio pesado, daqueles que mexem em lugares antigos dentro da gente.
Olhou para a menina magra, de vestido gasto e joelhos riscados de poeira, rostinho sujo, desenhando letras tortas no chão como quem plantava esperança na pedra.
Então, ele não mandou mais Fernandinha embora.
Entrou devagar na igreja e voltou trazendo um pedaço de pão, uma caneca de café com leite morno e um catecismo velho de capa azul.
Sabe ler isso aqui?
Ela balançou a cabeça negativamente.
Então vamos começar pelo seu nome está bem?
Fernandinha segurou o livro com cuidado. Como se segurasse uma coisa viva.
O zelador escreveu no chão:
F E R N A N D A.
Ela observou cada letra demoradamente.
Essas letras sou eu?
perguntou baixinho.
São.
E ninguém pode jogar fora.
Fernandinha sorriu pela primeira vez sem medo.
Naquela madrugada fria, enquanto a cidade dormia sem notar sua existência, uma menina abandonada descobria uma coisa enorme: o próprio nome.
E talvez seja esse o primeiro milagre que acontece com quem passa a vida inteira sendo chamado de “menina”, “órfã”, “coitada” ou “problema”.
Quando alguém finalmente aprende o próprio nome… começa devagarinho a existir.
Os anos passaram.
A feira mudou.
Seu Antero envelheceu.
A igreja ganhou tinta nova nas paredes.
E a menina dos papéis jogados cresceu junto das palavras que recolhia do chão.
Fernanda aprendeu a ler.
Depois aprendeu a escrever.
E mais tarde descobriu que algumas dores, quando sobrevivem ao tempo, viram histórias capazes de aquecer outras vidas.
Nunca esqueceu daquela frase: “Estou tentando aprender as letras antes que joguem elas fora também.”
Talvez porque, no fundo, ela soubesse: não eram apenas as letras que tentavam sobreviver.
Era ela.
Fernanda
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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)