Hoje, sai para caminhar
Depois daquela sensação, caminhei pela rua como quem pisa leve sobre o próprio destino. Havia algo diferente no ar não era o vento nem o cheiro das flores; era como se o mundo inteiro tivesse se ajeitado para me acolher.
As pessoas passavam apressadas, mas eu via ternura em cada rosto. Um menino atravessou a praça com um balão vermelho, e o céu parecia espelhar o brilho do balão, como se também quisesse brincar. Foi aí que percebi: a vida não precisa mudar para ser boa. É a gente que muda o olhar.
Sentei-me num banco debaixo de uma árvore antiga. As folhas balançavam, fazendo um som de prece. E sem querer, comecei a agradecer não por algo específico, mas por tudo. Pela dor que me ensinou, pelas pausas que me curaram, pelos encontros que me reinventaram.
Um senhor passou e me disse “bom dia”, com uma delicadeza que parecia vinda de outro tempo. Respondi sorrindo, e naquele pequeno gesto senti outra vez: aquela linda sensação.
Não era alegria, exatamente. Era algo mais profundo uma comunhão silenciosa com o que sou e com o que me cerca. Como se o universo, num instante de generosidade, me dissesse baixinho: “você está no lugar certo.” E eu acreditei.
Fernanda
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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)