Há uma liturgia secreta bordando, onde a aurora, ainda sem nome,
ajoelha-se diante da claridade nascente.
Coleciono instantes
como quem recolhe relíquias esquecidas à margem das estações.
Nenhum deles envelhece; apenas transmigra
para um lugar onde a memória floresce sem calendário.
O vento, esse calígrafo errante, escreve parábolas sobre a pele das árvores.
Cada folha decifra um idioma
que somente os corações serenos compreendem.
Caminho devagar.
Com reverência.
Há santuários escondidos
na delicadeza de um musgo,
na transparência do orvalho,
na respiração quase imperceptível
das primeiras horas.
A vida nunca me pareceu um enigma.
Antes, uma tapeçaria inacabada,
entrelaçada por fios que os olhos não conseguem alcançar,
que a razão não explica,
embora a alma os reconheça
à primeira contemplação.
Se a dor me visita,
ofereço-lhe uma cadeira junto à janela.
Ela observa o horizonte, aprende o ofício da despedida
e parte menos severa do que chegou.
Se a alegria retorna,
não lhe imponho permanência.
As aves não pertencem aos galhos; apenas os escolhem
enquanto o céu as chama.
No crepúsculo,
quando o mundo recolhe os próprios ruídos,
escuto o rumor da eternidade
atravessando o tempo
com a delicadeza de um sino distante.
Então compreendo,
sem necessidade de explicações,
que Deus nunca fala alto.
Sua voz habita
a transparência das coisas singelas,
a mansidão das mãos que acolhem,
o perfume da terra depois da chuva, o clarão discreto
que permanece aceso
mesmo quando a noite
julga haver vencido.
Sigo.
Não em busca de respostas,
mas da beleza insondável que repousa entre um suspiro e outro,
onde o infinito, sem alarde,
pronuncia nosso verdadeiro nome.
Fernanda
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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)