Crônica
Às vezes, penso que o mundo não precisa apenas de mais tecnologia. Precisa de mais humildade.
Vejo países que avançaram em tantas áreas e me pergunto se o verdadeiro progresso não começa quando uma pessoa olha para a outra com respeito. Não é apenas construir hospitais, escolas estradas. É também construir confiança. É fazer com que um cidadão entre em um hospital e seja acolhido antes mesmo de ser medicado. É chegar a um banco, a uma repartição pública ou a qualquer lugar e encontrar um sorriso que diga: “Você é importante.”
Pagamos impostos, cumprimos deveres, enfrentamos filas e seguimos em frente. Mas o que, muitas vezes, falta não custa dinheiro. Chama-se gentileza. Chama-se escuta. Chama-se dignidade.
Vivemos uma epidemia de ansiedade. Não porque as pessoas tenham desaprendido a falar, mas porque quase ninguém tem tempo para ouvir. Todos têm pressa de responder, de julgar, de correr. Poucos se sentam para perguntar: “Como você realmente está?”
Talvez seja por isso que tantos corações estejam cansados. O ser humano não vive apenas de alimento ou de trabalho. Vive de pertencimento. Vive da sensação de que sua dor foi percebida, de que sua alegria foi compartilhada e de que sua existência faz diferença.
Sonho com um Brasil onde o poder seja sinônimo de serviço. Onde a humildade caminhe ao lado da responsabilidade. Onde promessas se transformem em compromisso e onde o bem comum esteja acima dos interesses individuais. Mas esse sonho não começa apenas nos gabinetes. Ele começa dentro de casa, quando desligamos o celular para conversar com quem amamos. Começa na escola, quando uma criança aprende que respeito vale mais do que qualquer troféu. Começa no trabalho, quando escolhemos tratar um colega com educação. Começa no trânsito, no mercado, na recepção de um consultório, no olhar que oferecemos a um desconhecido.
A mudança que tanto esperamos para um país também precisa nascer dentro de cada um de nós.
Porque uma nação é o reflexo das pessoas que a constroem todos os dias.
Ainda acredito que o Brasil pode ser um lugar onde a coragem caminhe ao lado da honestidade, onde a verdade não tenha medo de aparecer, onde a dedicação seja reconhecida e onde o amparo alcance quem mais precisa.
E talvez o primeiro passo seja o mais simples de todos: reaprender a enxergar o outro como um semelhante. Quem sabe, quando isso acontecer, a ansiedade encontre menos espaço, o egoísmo perca força e a esperança volte a morar entre nós. Afinal, nenhum país se torna grande apenas pelo tamanho de suas cidades ou pela força de sua economia. Um país se torna verdadeiramente grande quando o coração do seu povo nunca deixa de acreditar que a bondade ainda pode transformar o mundo.
Acredito que a bondade não pode ser uma exceção. Ela precisa voltar a ser a regra.
Não basta que meia dúzia de pessoas escolham fazer o bem. A bondade precisa frutificar. Precisa ser plantada nas famílias, regada nas escolas e cultivada todos os dias, porque é ela que sustenta uma sociedade quando tudo parece desmoronar. Os nossos filhos são o futuro deste país. E eles aprendem muito mais com aquilo que fazemos do que com aquilo que dizemos. Tudo começa dentro de casa.
Começa quando uma criança chega chorando porque alguém a machucou. Quantas vezes ela escuta: “Vá lá e faça o mesmo.” Mas será que é assim que construímos um mundo melhor? A violência nunca ensinou ninguém a amar. O ódio nunca foi capaz de produzir paz.
Ensinar uma criança a ser firme não é ensinar a ferir. É ensinar a defender seus valores sem perder a essência. O exemplo sempre educará mais do que qualquer discurso.
Não sonho com um mundo perfeito. Não espero um país de contos de fadas, onde não existam dificuldades. O que desejo é um Brasil que se lembre da sua própria pátria.
Este é um país rico em natureza, em cultura, em diversidade e, principalmente, em gente. Quando o brasileiro decide acolher, ele acolhe de verdade. Quando estende a mão, faz isso com o coração inteiro. Poucos povos recebem um desconhecido com tanta facilidade, sorriem com tanta espontaneidade ou transformam uma simples conversa em um gesto de amizade.
Talvez o nosso coração apenas esteja cansado. Cansado de tantas promessas não cumpridas. Cansado da desconfiança. Cansado de acreditar e depois se decepcionar. Mas um coração cansado não é um coração perdido. Ele apenas precisa voltar a encontrar motivos para acreditar. E essa mudança não nascerá apenas das grandes decisões. Ela nascerá quando cada um de nós escolher viver valores que nunca deveriam ter saído de moda: a honestidade, a verdade, o respeito, a compaixão, o perdão e o amor ao próximo.
Jesus não ensinou um caminho de vingança. Ensinou um caminho de serviço, de misericórdia e de amor. Esses ensinamentos continuam atuais porque falam daquilo que nunca envelhece: a capacidade de cuidar uns dos outros.
Talvez seja esse o Brasil que ainda mora dentro de nós.
Um Brasil que não desiste das pessoas. Um Brasil que acredita que a verdadeira riqueza de uma nação não está apenas naquilo que ela produz, mas na forma como trata cada pessoa.
E tenho esperança de que esse Brasil ainda existe. Talvez esteja apenas esperando que cada um de nós faça a sua parte, para que a bondade deixe de ser uma raridade e volte a ser a linguagem mais bonita do nosso povo.
Fernanda
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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)