Hoje eu não sou médica,
não sou a mulher das horas corridas, dos compromissos, dos cuidados.
Hoje sou apenas mãe.
Mãe de férias,
com os pés na areia
e o coração espalhado pela praia.
Oito dias de sol,
mar, risadas e família inteira
fazendo morada no meu olhar.
Pedro e José,
grudados como duas páginas
da mesma história,
correm, brincam, inventam o mundo e nem percebem que, de longe, eu os guardo em mim.
Meus filhos…
meus filhos, meus filhos, meus filhos.
Digo baixinho,
como quem reza.
E Deus escuta.
Porque talvez Ele tenha feito o céu para eu aprender a olhar para cima e o mar para eu compreender que amor de mãe também não tem margem.
Enquanto o sol derrama ouro sobre as águas, Deus pinta diante de mim a tela mais bonita: minha família.
Não há quadro mais perfeito.
Não há fotografia mais bonita.
Não há riqueza que se compare.
Há risos.
Há abraços.
Há crianças.
Há filhos.
Há amor.
E eu estou aqui,
no meio de tudo isso,
com a alma descalça
e o coração cheio.
Obrigada, Senhor,
pela minha família numerosa e carinhosa. Obrigada por cada nome que mora dentro do meu coração.
Hoje eu não quero guardar lembranças.
Quero viver a lembrança enquanto ela acontece.
Porque um dia, quando o tempo passar,
talvez eu feche os olhos
e ainda consiga ouvir o mar…
e, no meio dele,
a voz dos meus filhos.
E então vou saber:
Deus já tinha me dado o paraíso. Ele apenas colocou uma praia para eu perceber com emoção lágrima, alegria, poesia e gratidão 🙏🏻
Fernanda
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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)