Tenho amigos que visito pouco. Não porque tenham diminuído em importância dentro de mim, mas porque o tempo tem dessas coisas: passa ligeiro, espalha compromissos pelos dias e, quando a gente percebe, já ficou alguma casa querida esperando nossa visita.
Há os amigos que consigo visitar mais. Vou chegando aos poucos, conforme a vida permite, tentando colocar em dia aquilo que o coração nunca deixou atrasado.
E há as férias.
As férias são outro tempo.
É quando consigo andar mais devagar pelas casas dos amigos, uma por uma, por etapas. Entro sem pressa, leio o que escreveram, vejo suas fotografias, encontro suas palavras e, de algum modo, reconheço ali um pedaço de mim também.
Porque cada amigo é uma casa. Algumas a gente visita sempre. Outras ficam um pouco mais distantes, escondidas atrás dos afazeres, mas nunca deixam de ser morada.
E talvez amizade seja justamente isso: não exigir presença o tempo inteiro para continuar existindo.
Há pessoas que a gente não visita todos os dias, mas carrega todos os dias.
Por isso, quando consigo, vou chegando.
Bato à porta.
Leio.
Deixo um carinho.
E sigo para outra casa.
Assim vou percorrendo devagar essa pequena rua de afetos que a vida me deu.
Não consigo visitar todos de uma vez. Mas, quando chego, chego de coração inteiro.
Porque amizade não se mede pelo número de visitas.
Mede-se pelo lugar que alguém continua ocupando dentro da gente, mesmo quando o tempo não nos deixa bater à sua porta.
Fernanda
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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)