Já ouviu a frase: O sofrimento e a frustração têm caráter pedagógico”?
Não é que o sofrimento seja necessário para crescer, nem que devamos romantizar aquilo que nos machuca. Mas há dores que, quando se passa com consciência, acabam nos ensinando coisas que a tranquilidade jamais nos ensinaria.
A frustração, por exemplo, tem o estranho poder de nos apresentar à realidade. Ela nos mostra que nem tudo acontecerá como desejamos, que algumas pessoas não permanecerão, que certos caminhos precisarão ser abandonados e que, muitas vezes, aquilo que chamávamos de perda era apenas a vida nos conduzindo para outro lugar.
O sofrimento também pode nos revelar. Revela nossa força, nossos limites, nossas fragilidades e até aquilo que precisamos mudar em nós. Há momentos em que a dor nos obriga a parar, olhar para dentro e perguntar: “O que isso está tentando me ensinar?” Talvez seja esse o seu caráter pedagógico.
Não aprender a gostar da dor, mas aprender com aquilo que ela deixou em nós.
Porque algumas experiências chegam como tempestade e, depois que passam, percebemos que levaram embora certezas, pessoas, ilusões e versões antigas de nós mesmos.
E então compreendemos: crescer também é aprender a transformar aquilo que nos feriu em sabedoria.
Fernanda
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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)