Às vezes penso que o mundo inteiro cabe dentro de uma rua de bairro. Ali estão as janelas abertas com cheiros diferentes: do feijão que ferve devagar, do tempero que chega de outro continente, do pão quentinho que alguém aprendeu com a avó distante. Cada casa é um pequeno território, uma bandeira tremulando na varanda.
Cada nação traz em si sua pátria, ainda que o corpo viaje, que o passaporte acumule carimbos e que o idioma se embarace na boca. A pátria, afinal, não se esconde nos limites de um mapa: ela se guarda no coração. É o canto que a mãe cantava para ninar, é a saudade do quintal, é o jeito de cumprimentar que nos denuncia em qualquer lugar do mundo.
E o curioso é que, no fundo, nenhuma nação existe sozinha. Quando se encontram, misturam-se como rios que se abraçam. A pátria de um acaba tingindo a pátria do outro, e assim nascem os sabores novos, as músicas que não respeitam fronteiras, os afetos que se aprendem sem tradução.
Cada nação na sua pátria, mas cada pátria no coração do outro porque viver é, de algum modo, trocar territórios. Quando amamos, quando acolhemos, quando escutamos com atenção, permitimos que outra bandeira se plante em nosso peito.
No fim das contas, a maior pátria é o mundo inteiro, se estivermos dispostos a abrir as portas da casa e deixar o vento de outras janelas nos visitar.
No entanto, há as discriminações, quando se trata de emigrantes. O olhar desconfiado, a fronteira que se impõe, a barreira da língua que não raro se transforma em muro. É preciso olhar pertinho da trajetória de cada um para compreender o que significam as leis de cada lugar: normas que protegem, mas também afastam; regras que, em vez de abrir caminhos, fecham portas.
Ainda assim, mesmo diante das diferenças e feridas, há algo que não se apaga: o amor pela pátria onde nascemos. No meu caso, o Brasil terra de contrastes, cores, dores e esperanças. É aqui que Deus me deu a oportunidade de nascer, e por isso, apesar de todas as falhas e desafios, guardo um amor entranhado, visceral.
Amo o som das vozes nas esquinas, amo a generosidade que se revela em pequenos gestos, amo a mistura de tantas origens que se tornaram uma só identidade. Amo, sobretudo, a esperança que insiste em brotar em cada brasileiro, mesmo quando as tempestades parecem querer arrancar as raízes.
Porque, no fundo, cada pátria é também um exercício de fé. E a minha fé é que o Brasil, com todos os seus nós e rasgos, ainda é chão fértil para que se plante amor, justiça e paz.
Fernanda
Oi, Fernanda! Bom dia! Entendo sua visão. Pensando na questão dos imigrantes, lembro do meu tempo nos Estados Unidos, onde vivi experiências que me marcaram. Depois disso, não tive vontade de voltar a um lugar que, para muitos, reflete um grande preconceito e uma arrogância e soberba descarada. Em geral as pessoas lá têm um ar de superioridade, o que torna a adaptação bem difícil. Com certeza, tem pessoas legais por lá, como em qualquer lugar do mundo. Não estou a generalizar, mas uma boa parte das pessoas que nasceram e vivem naquele país tende a ter "o nariz em pé". Retornei ao Brasil, que, apesar de suas mazelas e desigualdades, ainda me parece mais acolhedor do que muitos países de primeiro mundo. O Rio de Janeiro, minha cidade natal, sempre terá um lugar especial no meu coração; nada faria eu trocá-lo. Mesmo que a violência me tenha levado a buscar segurança no interior do estado, meu espírito continua ligado à cidade maravilhosa, onde nasci e quero ficar até o fim. A interação entre culturas é muito positiva quando não é marcada pela soberania e pela mesquinhez de se achar melhor que o outro, não é verdade? Isso só cria barreiras, ao invés de unir. É isso o que penso. Abraço Fernanda!
ResponderExcluirOjalá que tú deseo se cumpla Fernanda. Por que nos guste o no, todos firmamos parte de este mundo y aunque estemos en otros continentes deberíamos ir unidos de la mano por un mundo mejor... Un mundo de paz y amor donde cada persona sea libre de su propia elección.
ResponderExcluirMe gustaron mucho tus letras, tan profundas que hacen reflexionar.
Un fuerte abrazo
Oi Fernanda
ResponderExcluirLindo teu texto!
aqui abrimos muito os nossos braços para os que vem de fora. Moro em São José,SC, mas tenho apartamento na pria dos Ingleses em Florianopolis. Aqui estão parecendo muitos russos, familias que estão vino ter filho brasileiros pra ter facilidades mais tarde... Não vejo ninguém os discriminando. Se é certo abrirmos as portas assim ou não o tempo dirá.
Espero realmente que 2026 seja um bom ano para todos nós!
Só hoje que abri o blog e vi teu recado , um ano maravilhoso pra vc e sua familia!
Por aqui criamos uma Pousada Container
e ainda estamos muito envolvidos com as obras que não cabaram. Estou tendo a oportunidade de criar um jardim com flores e frutíferas, o que me faz muito feliz. Vai ser um ano de cuidado pra ter resultados na proxima temporada.
Bjus
Obrigada pela visita!
ana
Fernanda, muito interessante esse seu olhar sobre nação e pátria. Vivemos hoje na base de um "multiculturalismo" que por vezes tem efeito contrário do desejado. Ao invés de celebrar as múltiplas culturas, culturas pretendem se impor a outras. Tenho visto com certa preocupação a islamização da Europa. Muitos países mulçumanos não defendem o multiculturalismo.
ResponderExcluirAmar o Brasil? Quando eu era criança na escola, em plena ditadura militar, nos ensinava a amar o Brasil. "Ame-o ou deixe-o". Não sei se em algum momento eu "amei o Brasil" - mas sim, como você diz, amei os lugares onde morei, as vivências que tive desde a infância nas ruas em que brinquei, paquerei, conversei. Essas boas lembranças não se dissociam do lugar onde , do mesmo modo que lembranças ruins acabem contaminando o local onde ocorreram.
abraços e bom final de semana.
Beautiful blog
ResponderExcluirPlease read my post
ResponderExcluirBom dia Fernanda,
ResponderExcluirQue texto tão linfo e que tanto me diz!
«E o curioso é que, no fundo, nenhuma nação existe sozinha. Quando se encontram, misturam-se como rios que se abraçam. A pátria de um acaba tingindo a pátria do outro, e assim nascem os sabores novos, as músicas que não respeitam fronteiras, os afetos que se aprendem sem tradução.»
E como o mundo se torna mais belo, mais alegre, partilhando saberes e sabores, costumes e amor.
Gosto deste multiculturismo que que nos faz abraçar quem chega e ter saudades de quem parte, mas que estão sempre presentes nos nossos corações.
Um beijinho e um abençoado fim de semana.
Emília
Eu ate´fui educada para gostar da pátria.
ResponderExcluirMas eu detesto. E o tempo foi me ensinado que não estou errada.
Esse meu detestar passei para os filhos. Porque não ia mentir. Não convivo bem com mentiras.
E tenho uma coisa muito clara na minha cabeça. Quem faz a pátria é o povo.
E o nosso é um dos piores.
Não gosto de povo. Gosto de gente. Beijo,
Amiga Fernanda, boa tarde de verão brasileiro!
ResponderExcluirCaminhada, missa... descanso Dominical.
Gosto de passar por corredor do edificio ou pelas calçadas e sentir cheirinho de comida gostosa. Confesso que não muito cedo.
Cheirinho de bolo é delicioso.
Desejo o mesmo que você: paz!
Que o Brasil seja feliz e muito abençoado!
É uma bênção!
Beijinhos Fraternos