Sempre gostei de livros do cheiro de páginas antigas, das palavras se encaixando como quem encontra abrigo. Gosto do modo como as histórias se constroem, como se cada linha respirasse junto comigo.
Talvez por isso eu tenha aprendido a ver a vida assim: como um livro aberto, com capítulos que nem sempre entendo, mas que me ensinam mesmo assim. Alguns dias são prefácio, outros são ponto e vírgula, pausas que me fazem continuar.
E no meio de tantas histórias, fui descobrindo um jeito de sorrir diferente.
Um sorriso que vem de dentro, dessas páginas, que a alma escreve quando entende que tudo tem sentido mesmo o que parece não ter.
Porque a vida, no fundo, é isso: um livro sendo escrito, e a gente aprendendo a sorrir mesmo antes de saber o final.
Fernanda
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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)