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Eu amo escrever. Escrevo porque às vezes não cabe tudo aqui dentro. Porque há sentimentos que só se organizam quando viram palavras, e pensamentos que só fazem sentido quando dançam na página. Amo também olhar o céu e talvez isso diga tudo. Há quem olhe o céu para prever o tempo, eu olho para prever a mim mesma. Há algo em observar as nuvens, as estrelas ou o silêncio azul que me faz lembrar que existe poesia mesmo nos dias comuns. Este blog nasce desse encontro: entre a escrita e o céu. Vai ser um espaço para dividir pensamentos, contar histórias, guardar pedaços de mim e talvez, de você também, que me lê agora. Obrigada por estar aqui. Que você se sinta à vontade. Que cada texto seja como uma janela aberta, onde o vento entra leve e, quem sabe, traz um pouco de luz também

✿Amor sempre....

✿Amor sempre....
Caminho entre flores. O chão continuará pra nós com outras paisagens. Sou o que sou, porque é tudo que sei ser. E todo meu olhar escrito que você nunca aprendeu a ler, permanecerá no descaso para quem não compreende.

03 março, 2026

Uma vida hostil

Aleatoriamente um toque de poesia


Há dias em que a vida parece nos olhar torto, como se dissesse: “hoje não vai ser fácil, querida”.
E a gente até tenta negociar com ela um café mais forte, um banho demorado, um sorriso ensaiado no espelho mas ela não arredonda as arestas. Continua ríspida, dura, meio seca.

Nessas horas, percebo que viver é lidar com pequenas hostilidades disfarçadas de rotina. 
Mas há também outra forma de olhar.
Quando a vida me parece hostil, tento lembrar que talvez não seja raiva talvez seja um pedido de atenção. Como uma criança que faz birra para ser notada. A vida às vezes…

Eu sempre achei que a vida era hostil comigo, até conhecer vou chamá-la Silvia, ( um nome ficticio para minha nova amiga.) Ela é daquelas pessoas que parecem estar sempre em guerra, mesmo quando o mundo está em paz. O rosto franzido, a fala apressada, o olhar que não se permite descansar. Tudo nela é tensão até o gesto de segurar a xícara de café parece um combate contra o tempo.

Nos encontramos toda segunda, na padaria da esquina. Ela chega antes, como se tivesse medo de se atrasar para a própria angústia. Fala do trabalho, do ex-marido, do filho adolescente, da conta de luz. E, entre uma reclamação e outra, há sempre um breve silêncio aquele em que o coração quase diz o que realmente dói, mas volta atrás.

Eu escuto.
E percebo que, na verdade, não é a vida que é hostil com a Sílvia.
É ela que não aprendeu a ser gentil consigo mesma.

Tem gente que confunde força com rigidez. Que acha que ser firme é nunca ceder, nunca chorar, nunca pedir ajuda. Mas viver endurecida demais também é uma forma de desistência. É como se ela carregasse uma armadura que já virou parte do corpo, sem notar que o peso vem de dentro.

Às vezes, enquanto ela fala, eu penso que a vida hostil não é feita só de tragédias ou derrotas. Às vezes, é feita de pressas. De não se permitir ser vulnerável. De não olhar o sol porque está ocupada demais com a sombra.

Nesta segunda, Sílvia chorou pela primeira vez desde que nos conhecemos.
Não disse nada. Só deixou escorrer um pouco da vida, em lágrimas curtas e contidas.
Eu, que nunca sei o que fazer diante de uma dor alheia, apenas toquei sua mão.

Foi ali que percebi: a vida começa a amolecer quando alguém nos toca sem pressa, sem conselho, sem julgamento. E talvez, no fundo, viver seja isso encontrar brechas de ternura dentro da vida hostil.


Fernanda

10 comentários:

  1. Oi, Fernanda! É lamentável observar como muitos de nós temos nos deixado levar pela correnteza do cotidiano, não é verdade? Nesse estado de inércia, deixamos escapar grande parte da beleza que a vida tem a oferecer. Surge, então, o desgaste e o fardo existencial que carregamos. Que possamos, portanto, libertar-nos das correntes da rotina automática, permitindo que a essência vibrante de nossa alma floresça, revelando o que há de mais bonito em nosso ser. Um fraterno abraço!

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  2. Pobre Silvia e há tantas como ela que não se sabem bem tratar... Que bom que encontrou uma amiga como tua que a ouve e até segura sua mão na hora que lágrimas aparecem... beijos, tudo de bom, lindo dia! chica

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  3. Pois é, cada um sabe onde o calo aperta mas muitas vezes, gostamos de alimentar e cuidar bem dos nossos calos ao invés de procurar um podólogo.

    abraços.

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  4. Inspiração poética que elogio.
    .
    Saudações cordiais e poéticas
    .
    “” Coração Iluminado
    ““

    .

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  5. Amiga Fernanda, boa tarde de paz!
    Uma saudade de você que nem imagina...
    Tenho meus dias muito cheios de muitos trabalhos, mesmo não sendo médica...
    Mas não me esqueço de você...
    A vida hostil ou as pessoas hostis merecem uma guinada de nossa parte...
    Pense nisso...
    Estramos no mesmo patamar, alguém que nunca i maginamos... torna-se nossa amiga de repente a ponto de se desnudar a cada dia mais e mais, do seu jeitinho e nós acabamos por amá--la ainda mais.
    Vamos viver a amizade que é linda e nos deixa a vida colorida.
    Tenho também um Alguém que me 'toca' sem pressa...
    Tem um convite aqui, se desejar (e puder):
    https://www.idade-espiritual.com.br/2026/03/as-cores-do-meu-eu-real.html
    Tenha um março abençoado!
    Beijinhos fraternos

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  6. Olá Fernanda.
    Menina, esses dias eu estava pensando em como somos abençoados por viver em um ligar onde podemos arrumar nossos próprios problemas e ficar nervoso e depois rir e depois se enrolar novamente.
    Imagina as pessoas que moram na Croácia, no Irã, em Israel, na Palestina, na Venezuela... Essas não fabricam seus problemas como nós.
    Os problemas já nascem com a pessoa.
    Nasce e acompanha.
    É como se você vivesse com uma granada dentro do bolso.
    Mesmo assim, com nossos probleminhas, que muitas vezes podem virar um problemão, nós temos que cultivar amor, companherismo, ombro amigo.
    Acho que divaguei na resposta.

    Um abraço!

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  7. A Silvia precisa de ajuda, mas não é psicológica ou médica...Ela precisa apenas de alguém que a escute sem dizer nada, exatamente como você o fez Fernanda...Só um olhar compassivo e um toque na mão já diz tudo sobre acolhimento e conforto. Com certeza, com esse lindo gesto, o coração dela desacelerou da rotina estafante em que ela se encontra. Não é necessário palavras quando se tem coração.

    Um fato semelhante aconteceu comigo em janeiro deste ano, quando passava por momentos difíceis. Encontrei uma amiga que não via há muito tempo no caminho da caminhada da manhã. Apenas nos cumprimentamos e ato contínuo nos abraçamos. Naquele abraço, lágrimas escorreram dos meus olhos e eu não disse nada, mas ela antecipadamente entendeu tudo e me acolheu naquele momento...Foi lindo... :(
    Beijos querida!:))))

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  8. Oi Fernanda!
    Que texto profundo e maravilhoso. Muitas e muitas vezes, o "simples" (que não é nada simples) gesto de ouvir o outro é tudo o que ele precisa para florescer!
    Saber ouvir e dispor-se a ouvir o outro, permanecendo presente na dor, é um gesto do mais puro amor. É dar a mão e oferecer consolo quando ninguém mais se dispõe a fazê-lo.
    Bjssssssss, marli.

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  9. A capacidade de ouvir e compreender os outros é algo que é intrínseco em ti querida Fernanda. Se todos nos soubessemos ouvir e compreender uns aos outros, o mundo e a vida seriam muito mais agradáveis!
    E o teu braço como vai? A fractura está a consolidar? Espero que tudo esteja a correr bem.
    Saudade de te "ver" no Polyedro...

    Te deixo um carinhoso abraço!

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  10. Um texto reflexivo, um voo no cotidiano que por vezes nos coloca tensões e acaba endurecendo o que melhor podemos dar ou receber: ternura.
    Boa tarde.
    Deixo meu link.

    https://pensandoemfamilia.com.br/cronica/sera-chatice-da-idade/

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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)

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