Noite de historinhas com a turminha.
Vamos lá!
Quando eu morava no orfanato, desapareceu um anel da senhora de lá.
Não demorou muito para apontarem o dedo para cada criança,
mas porque eu fiquei calada o dedo firmou em mim.
A senhora do lugar entendeu que eu tinha pego.
Eu repetia baixinho que não sabia de nada, que nunca tinha visto aquele anel, mas parecia que minhas palavras não tinham peso algum. Às vezes, quando a gente é criança, a verdade da gente quase nunca encontra ouvidos.
Então veio o castigo.
Mandaram que eu ficasse de joelhos no caroço de milho.
No começo tentei ser forte. Apertava os dentes, olhava para o chão e fingia que não estava doendo tanto. Mas doía. Doía como se os joelhos queimassem por dentro. Às vezes sentava sobre as próprias pernas só para aliviar um pouco, escondida, tentando descansar daquela dor miúda e insistente.
Só que, quando voltava a ajoelhar "normal", o milho parecia entrar na pele outra vez.
Foi então que imaginei um jeito de sobreviver.
Fechava os olhos e imaginava que aqueles caroços não eram milho. Imaginava que eram pequenos flocos de nuvens vindo beijar minha dor. Pensava nisso com tanta força que, por alguns segundos, o sofrimento diminuía. Era como se a imaginação fosse o único cobertor que eu tinha naquela época.
Hoje, olhando para trás, penso muito naquele tempo.
Parecia não existir amor ao próximo.
E me pergunto: como alguém consegue machucar uma criança e ainda acreditar que está educando? Como um lugar criado para acolher órfãos podia carregar tanta dureza dentro das paredes?
Talvez aquelas mulheres também fossem feridas pela vida. Talvez tivessem desaprendido a ternura. Mas nenhuma dor do mundo deveria transformar infância em castigo.
Os orfanatos sempre estiveram cheios de crianças sem lar, sem colo, sem defesa. E ainda hoje, quando vejo notícias sobre abandono, violência ou negligência, alguma coisa dentro de mim volta para aquele chão frio e para os joelhos marcados pelo milho.
Mas existe uma coisa curiosa sobre as crianças machucadas:
muitas sobrevivem criando beleza onde quase não existe esperança.
Eu sobrevivi imaginando nuvens.
E talvez tenha sido ali, ajoelhada sobre a dor, que comecei a aprender que a imaginação também salva gente.
Fernanda
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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)