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Eu amo escrever. Escrevo porque às vezes não cabe tudo aqui dentro. Porque há sentimentos que só se organizam quando viram palavras, e pensamentos que só fazem sentido quando dançam na página. Amo também olhar o céu e talvez isso diga tudo. Há quem olhe o céu para prever o tempo, eu olho para prever a mim mesma. Há algo em observar as nuvens, as estrelas ou o silêncio azul que me faz lembrar que existe poesia mesmo nos dias comuns. Este blog nasce desse encontro: entre a escrita e o céu. Vai ser um espaço para dividir pensamentos, contar histórias, guardar pedaços de mim e talvez, de você também, que me lê agora. Obrigada por estar aqui. Que você se sinta à vontade. Que cada texto seja como uma janela aberta, onde o vento entra leve e, quem sabe, traz um pouco de luz também

✿Amor sempre....

✿Amor sempre....
Caminho entre flores. O chão continuará pra nós com outras paisagens. Sou o que sou, porque é tudo que sei ser. E todo meu olhar escrito que você nunca aprendeu a ler, permanecerá no descaso para quem não compreende.

14 maio, 2026

A menina

Aleatoriamente um toque de poesia


Meus filhos foram habituados  a ouvir histórias nas noites de chuva e nas noites sem ela. 
Lhes dava a opção de escolher. E eles, não queriam príncipes, nem castelos, nem finais felizes demais. Queriam histórias “de verdade”, como diziam, e talvez por isso acabassem sempre ouvindo pedaços da menina que fui sem jamais conhecerem completamente aquela criança.

Numa dessas noites, contei a eles sobre o dia em que descobri que o frio também tinha dentes.

A chuva caía fina sobre o Rio e eu me escondi debaixo da marquise de uma loja fechada na Lapa. Tinha encontrado uma caixa de papelão quase inteira e achei aquilo uma riqueza. Passei quase uma hora ajeitando o papelão no chão para não deixar a água subir pelas costas enquanto dormia.

Naquela época, eu acreditava que os postes de luz protegiam as pessoas. Não sei de onde tirei isso. Talvez porque os monstros parecessem menos corajosos perto da claridade.

Então dormi agarrada numa garrafa vazia de guaraná que encontrei na rua porque ela ainda guardava um restinho de cheiro doce.

Meus filhos riram nessa parte.

Mãe, por que nao jogou a garrafa no lixo?
Não soube responder direito.
Talvez porque crianças aprendam cedo a amar aquilo que sobra. Ou talvez porque, naquela noite, o cheiro de guaraná tenha sido a única coisa bonita que me aconteceu.

Quando terminei a história, percebi que meus filhos estavam quietos. O menor deles segurou minha mão por baixo da coberta como quem segura uma coisa que quase se perdeu no mundo.

Lá fora, a chuva continuava caindo sobre os telhados da cidade, lavando as ruas por onde uma menina ainda parecia caminhar dentro de mim.

Então chegou a hora da oração antes de dormir.
É um ritual simples da nossa casa. Nada solene demais. Cada um agradecia do seu jeito: às vezes pela escola, às vezes pelo cachorro da vizinha, às vezes até pelo macarrão do jantar.

Naquela noite, porém, houve uma delicadeza diferente no quarto.
Clarinha e José juntaram as mãos primeiro:
Obrigada, Deus, porque a menina da história não ficou sozinha para sempre.

Os menores completaram: 
E porque ela cresceu.
Meus pais ficaram quietos, depois por alguns segundos. Depois, José  bem pertinho do meu ouvido falou: 
Obrigado Deus porque ela virou nossa mãe.

Senti os olhos encherem d’água, mas permaneci ali sorrindo na penumbra do corredor, enquanto a luz amarela do abajur deixava tudo com aparência de sonho antigo.

Antes de dormir, Aisha pergunta:  Mãe… você acha que Deus cuidava daquela menina?

Olhei para ela debaixo das cobertas e respondi:
Claro que sim amor . Acho que Deus nunca saiu do lado dela… mesmo quando ela não percebia.

Aisha fechou os olhos satisfeita.

E eu fiquei olhando meus filhos adormecerem devagar, protegidos, aquecidos, amados exatamente como toda criança merece ser.

Lá fora, o Rio continuava molhando  de chuva as minhas lembranças 

Mas dentro de mim, pela primeira vez em muitos anos, sabia que a menina da marquise já não sentia frio.

Fernanda

11 comentários:

  1. Que lindo,Nanda e que bom eles pouco a pouco terem consciência daquela menina lá do passado ,que passou poucas e boas, mas recebeu o amor que pra ela estava reservado e agora doa amor e o recebe muito, muito e muito! Coisa boa! beijos, chica

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  2. Com histórias verdadeiras e cheias de aventuras e de superação, quem precisa de histórias de princesas?

    Eles tem uma heroína em casa.

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  3. Oi, Fernanda! Bom dia! Que texto emocionante! Tem uma profundidade incrível, cheio da poesia que sua escrita transmite. É realmente lindo. Seus filhos já são sortudos por ter uma mãe como você. Que seus filhos saibam valorizar a mãe e o pai que tem, mas tenho certeza que eles saberão dar valor a quem merece. Um fraterno abraço!

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  4. Meus filhos estão crescidos e eu não gosto deles terem crescidos.
    Mas eu fui burra, muito burra.
    Como que eu médica não sabia que os filhos iam crescer e não precisariam mais de mim, do meu colo, das minhas mãos?
    Como isso pôde acontecer?
    As histórias que contei, as músicas que cantei, eles não lembram.
    Beijo,

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    1. Liliane,

      talvez a gente nunca esteja preparada para perceber que o colo também cresce.
      Os filhos vão deixando de caber nos braços, mas continuam morando em lugares que ninguém vê mas o Pai sabe. E não diga que foi “burra.” Você foi mãe. E mãe ama como se o tempo fosse obedecer ao coração.
      Pode ser que eles não lembrem das músicas exatamente como você cantava… mas alguma ternura dentro deles foi construída por essas canções.
      O jeito deles enfrentarem a vida, o modo como procuram carinho, a memória de segurança que sentem sem explicar… tudo isso tem as marcas das suas mãos.
      Os filhos crescem, Liliane.
      Mas o amor que recebeu colo nunca cresce a ponto de esquecer de onde veio.
      Um beijo com carinho.

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  5. Fernanda, já eu pequena, órfã de pai, dormia junto à mãe. O colchão era de palha, a lamparina com querosene acesa até nos arrumarmos no colchão e no travesseiro enchido com as penas de galinhas, as bem novinhas, porém. Eu escutava o barulhinho das contas do rosário e depois minha mãe contava a vida de um santo. E eu até hoje rezo para o meu anjo Era o sagrado me ninando de mansinho. Hoje também repito as aves Maria, rezando para ela, minha mãe, para meu pai, ao meu marido e familiares que já se foram. A gratidão é forte em mim e sempre pedindo ao Pai que a aumente sempre mais e mais! Tempos depois, fiz com a neta, ensinei-a a orar. Sua "A Menina" forte e emocionou-me demais! A vida é bonita, mesmo sem caixa de papelão e você vive plenamente feliz! Beijo!

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  6. Que texto! Transborda uma força poética como se fosse um dique.
    Nanda, você foi capaz de transformar uma memória dolorosa em um testemunho de superação, amor e cura. Quão importante foi a maternidade na sua vida.
    Embora seja um texto pessoal, o modo de dizê-lo o transcende com uma densidade afetiva e social que emociona. E, nele, no seu texto, há imagens forte e belas que transformam um relato pessoal em uma peça literária. Por exemplo, “O frio tinha dentes”, personificação que transforma a sensação térmica em um predador real para a criança; a caixa de papelão, antes lixo, agora escudo de sobrevivência para a menina; a âncora sensorial de doçura em que se transforma a garrafa de guaraná, e tanto mais que o texto desvela, mas fiquemos em duas outras imagens que sangram: o ritual da oração, o cume do seu relato: as crianças ouvem a história e a reescrevem através do afeto no presente, acolhendo a menina que um dia esteve sozinha; e a luz que se espalha iluminando milhares de crianças que hoje habitam as marquises das nossas cidades, humanizando o visível que a sociedade costuma ignorar e, por fim, maternidade, provando que o amor dedicado aos filhos teve retorno, pois, ao protegê-los e aquecê-los, você aquece a criança que já foi.
    Beijinhos, querida amiga!

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  7. Bom dia, Fernanda. A doçura do cheiro de guaraná numa garrafa vazia, mostra a ternura de uma alma que não se deixou endurecer pelas britas de uma marquise. Lindo demais! Muita luz e paz. Um ótimo final de semana. ♥

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  8. Amiga Fernanda, boa tarde de sábado!
    Quando nossa menina interior não sente mais frio... é resiliência no coração.
    Tenha um abençoado final de semana!
    Beijinhos fraternos

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  9. Linda história e ao mesmo tempo triste.
    É inadimissivel que crianças passem pelo que você passou.
    Nosso mundo é muito desigual.

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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)

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