Episódio 2
Fernandinha voltou para o banco perto das árvores tentando entender o que havia acontecido.
As outras crianças continuavam brincando como se nada tivesse acontecido. O escorregador rangia, os balanços iam e voltavam lentamente e o sol já começava a cair atrás dos prédios antigos da cidade.
Mas dentro dela alguma coisa doía.
Ela ficou repetindo baixinho aquelas palavras como quem tenta descobrir o significado de algo perigoso: Menina de rua… menina de rua…
Na sua inocência infantil, começou a acreditar que talvez aquilo fosse o nome de alguma doença, que crianças que não tem um lar adquirem.
Uma doença triste.
Daquelas que fazem as pessoas se afastarem.
Então chorou.
Chorou muito.
Com aquele choro das crianças que ainda não aprenderam a transformar sofrimento em "raiva". As lágrimas caíam grossas enquanto ela apertava o próprio peito tentando entender por que doía tanto ali dentro.
Foi quando o moço da banca de revistas percebeu.
Ele já a conhecia de vista. Sempre via Fernandinha andando pela praça, observando as pessoas com aqueles olhos enormes de quem parecia carregar perguntas maiores que a própria idade.
O homem saiu devagar da banca e se aproximou.
Ei, pequena… o que aconteceu?
Fernandinha se afastou rapidamente.
Talvez porque a rejeição ensine medo antes mesmo da criança aprender confiança.
Mas o homem insistiu com delicadeza:
Se você não me contar o que tem, vou precisar te levar no posto de saúde.
Ela levantou os olhos molhados imediatamente.
Precisa levar sim…
O homem se abaixou na altura dela.
Por quê? Está doendo alguma coisa?
Fernandinha colocou a mão pequena sobre o peito e respondeu quase soluçando:
Acho que estou com menina de rua aqui dentro…
O homem ficou em silêncio.
Talvez porque existam dores que nenhum adulto sabe responder sem primeiro sentir vergonha do mundo.
Ela continuou:
As mães falaram que não podiam brincar comigo por causa disso…
então acho que peguei essa doença.
O moço da banca sentiu os olhos marejarem.
Naquele instante, a cidade inteira pareceu cruel demais para caber dentro de uma criança tão pequena.
Então ele se sentou ao lado dela no banco da praça e falou baixinho, como quem tenta costurar um coração ferido sem machucar ainda mais:
Escuta uma coisa, pequena… menina de rua não é doença.
Ela olhou confusa.
Não?
Não. Doença é quando as pessoas deixam o coração delas endurecer tanto… que começam a esquecer como se ama alguém.
Fernandinha ficou quieta ouvindo.
O vento bagunçava seus cabelos enquanto o homem continuava:
Você não tem nenhuma doença no peito, pequena. O que está doendo aí dentro tem outro nome.
Qual?
Ele respirou fundo antes de responder:
Tristeza.
E talvez tenha sido naquele fim de tarde, sentada ao lado de uma banca de revistas velha, que Fernandinha descobriu pela primeira vez que algumas palavras machucam mais do que febres.
Anos depois, Fernanda ainda se lembraria daquele homem.
Porque às vezes Deus não aparece só dentro das igrejas, nem em orações bonitas, ou simples.
Às vezes Ele aparece sentado num banco de praça, tentando convencer uma criança pobre de que ela não nasceu doente.
Fernanda
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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)