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Eu amo escrever. Escrevo porque às vezes não cabe tudo aqui dentro. Porque há sentimentos que só se organizam quando viram palavras, e pensamentos que só fazem sentido quando dançam na página. Amo também olhar o céu e talvez isso diga tudo. Há quem olhe o céu para prever o tempo, eu olho para prever a mim mesma. Há algo em observar as nuvens, as estrelas ou o silêncio azul que me faz lembrar que existe poesia mesmo nos dias comuns. Este blog nasce desse encontro: entre a escrita e o céu. Vai ser um espaço para dividir pensamentos, contar histórias, guardar pedaços de mim e talvez, de você também, que me lê agora. Obrigada por estar aqui. Que você se sinta à vontade. Que cada texto seja como uma janela aberta, onde o vento entra leve e, quem sabe, traz um pouco de luz também

✿Amor sempre....

✿Amor sempre....
Caminho entre flores. O chão continuará pra nós com outras paisagens. Sou o que sou, porque é tudo que sei ser. E todo meu olhar escrito que você nunca aprendeu a ler, permanecerá no descaso para quem não compreende.

24 maio, 2026

Naquele dia

Aleatoriamente um toque de poesia
Episódio 1



Fernandinha, gostava daquela praça como quem gosta de um pedaço pequeno de liberdade. Todos os dias ela aparecia por ali no final da tarde, quando o sol já começava a dourar os brinquedos antigos e o vento espalhava folhas secas pelo chão. Sentava primeiro no mesmo banco de sempre, observando as outras crianças correrem.

Ela gostava de observar risadas. Talvez porque a vida tivesse lhe dado poucas.
Os meninos subiam correndo no escorregador. As meninas brincavam de roda, inventavam casinhas de areia e brigavam por motivos que duravam apenas alguns minutos. Fernandinha olhava tudo aquilo com um brilho  nos olhos, como quem assiste de longe uma felicidade que ainda não sabe se pode tocar.

Naquele dia, criou coragem.
Desceu devagar do banco e caminhou até perto dos brinquedos segurando apenas sua ingenuidade infantil e uma vontade enorme de pertencer.

Posso brincar também?
Uma menina quase respondeu “sim”.
Mas a mãe foi mais rápida.
Não. Afasta dela.

Fernandinha parou sem entender.
Outra mulher puxou o filho pelo braço e cochichou alto o suficiente para que ela escutasse: já falei para não brincar com menina de rua. Menina de rua...

Aquelas palavras ficaram pairando no ar como algo pesado demais para uma criança pequena compreender. Ela olhou para si mesma tentando descobrir o que havia nela que assustava tanto os adultos. Menina de rua era uma doença? Ficou assustada e amendrotada. Não sabia o que era menina de rua.

Fernandinha ainda era inocente demais para entender que algumas pessoas confundem pobreza com perigo. Então apenas se afastou, com os olhos marejados e pensando ter alguma coisa que pegava como gripe.

Se afastou 
Sem chorar na frente deles.
Só carregando no peito aquela tristeza pequena que as crianças sentem quando descobrem que existem lugares onde não são totalmente aceitas.
E o que terá? 

Sentou novamente no banco perto das árvores e ficou observando os brinquedos balançando as perninhas no vazio. O vento soprava devagar naquele fim de tarde. E talvez tenha sido ali, naquele silêncio infantil cheio de perguntas, que Deus tenha se sentado ao lado dela. Porque algumas dores da infância não fazem barulho. Elas apenas crescem dentro da alma.

Anos depois, Fernanda compreenderia que o preconceito quase nunca começa nos grandes discursos. Começa nos pequenos afastamentos. Na mão que puxa outra depressa. Na criança ensinada a evitar quem é pobre antes mesmo de aprender o significado da palavra compaixão.

Mas também entenderia algo bonito: quem já foi excluído costuma desenvolver uma rara capacidade de acolher. Talvez por isso eu Fernanda, nunca consiga ignorar pessoas sozinhas.
Porque ainda existe dentro dela uma menininha sentada num banco de praça, olhando outras crianças brincarem e esperando apenas que alguém diga:
Vem! Você também pode brincar.



Fernanda


continua...

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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)

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