Antes de responder, vale a pena fechar os olhos por um instante e procurar enxergar a si mesmo por dentro. Não a imagem refletida quando está escovando os dentes, ou cuidando dos cabelos, nem a versão apresentada ao mundo, mas aquela que mora ai dentro da consciência.
Pode parecer uma pergunta simples né? Quase sempre a resposta é automática: “Estou bem.” Mas será que essa resposta nasce da sinceridade ou apenas do hábito? Em tempos em que todos correm, produzem, sorriem para uma fotografia perfeita e escondem as próprias tempestades. Percebo que tornou-se comum vestir uma aparente tranquilidade enquanto o coração pede socorro, a ansiedade senta ao lado, os olhos marejam por qualquer coisa.
O ser humano aprendeu muito bem a cuidar de compromissos, de prazos e de expectativas, mas tem se esquecido de cuidar de si. Há quem conheça todos os caminhos da cidade, mas já não encontre o caminho de volta para a própria essência. Há quem converse com centenas de pessoas ao longo do dia, mas passe semanas sem ouvir a sua própria voz.
Talvez o maior desafio dos dias atuais não seja vencer o mundo, mas vencer a distância que cada um criou entre quem realmente é e quem acredita precisar parecer. E essa distância pesa. Ela rouba o entusiasmo, esvazia os afetos e transforma a vida em uma sucessão de dias cumpridos, mas não vividos.
Olhar para dentro exige coragem. É nesse encontro que aparecem as dores escondidas, os sonhos esquecidos e também a esperança que insiste em sobreviver. Só quem tem a humildade de reconhecer as próprias fragilidades descobre a força necessária para recomeçar.
Aprendi, que a vida não pede perfeição. Pede presença. Pede verdade. Pede que cada pessoa reserve alguns minutos para cuidar daquilo que ninguém vê, mas que sustenta tudo o que se vê: o coração.
Porque, no fim das contas, não é a resposta dada aos outros que transforma uma vida, mas a resposta sincera que cada um encontra quando está sozinho consigo mesmo.
E, agora, depois de ler até aqui, a pergunta continua a mesma, mas talvez tenha um significado diferente:
Como você está? Feche os olhos novamente e me responda com toda sinceridade.
Fernanda
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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)