Há palavras que se desprendem
como folhas cansadas do galho, e eu fico, em silêncio,
a decifrar a raiz do meu ser.
Faço do abraço um agasalho,
e nele me recolho
quando a vida sopra frio.
Depois, devagar,
aprendo a voar entre verbos,
porque letras queimam
quando carregam verdades
que o coração ainda não conseguiu dizer.
O tempo e suas marcas
têm sabor de memória.
Algumas saltam de meus lábios sem pedir licença,
outras permanecem guardadas num lugar onde só a alma alcança.
E quando meus olhos irradiam alguma alegria,
eu descubro que ainda sei sorrir mesmo depois da tempestade.
Idealizo caminhos,
aprendo a sombras soltar,
e sigo recolhendo frutos
de cada estação vivida.
Meus pensamentos, às vezes, entram num labirinto
onde nenhuma bússola conhece o norte.
Mas espero o alvorecer,
porque todo amanhecer
traz consigo a possibilidade
de um novo começo.
Então me desarmo.
E, sem medo de parecer frágil, vou unindo
as lágrimas ao sorriso,
a dor à esperança,
o silêncio ao murmúrio
daquilo que ainda vive em mim.
Talvez a vida seja: um universo de encontros,
algumas tempestades,
muitas marcas,
e a coragem muda
de continuar florescendo
mesmo quando ninguém percebe a raiz que sustenta
a nossa primavera.
Fernanda
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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)