Há ecos que permanecem mesmo depois que o silêncio chega. São antigos habitantes do coração,
moradores de uma casa que aprendeu a ficar desarmada
diante da vida, do amor e de suas pequenas contradições.
Aprendi que é preciso tolerância para compreender aquilo que não se explica,
e talvez exista uma espécie de telepatia entre almas que se reconhecem sem precisar dizer.
Sou assim:
um raio de luar atravessando a noite, um pouco de doçura em meio às asperezas,
um pássaro sem asas visíveis,
carregando no peito o presente como quem carrega uma fonte de água limpa
para matar a sede de quem já se cansou de caminhar.
Mas também sou ferida.
E talvez seja justamente por isso que aprendi a ser rocha.
Não porque nunca tenha quebrado, mas porque tive de desbravar caminhos
quando ninguém sabia me dizer por onde ir.
Meus sonhos ainda conversam comigo.
Às vezes dizem baixinho:
“Segue-me.”
E eu sigo.
Não porque conheça o destino, mas porque descobri que nem toda estrada
precisa ser compreendida antes de ser percorrida.
O ontem ficou guardado
como uma fotografia antiga dentro da alma.
Não o nego, não o apago.
Apenas não permito que sua sombra decida o tamanho da minha luz.
Há coisas que só o tempo ensina: que algumas perdas são portas, que algumas dores são sementes,
e que algumas despedidas
nos devolvem a nós mesmos.
Hoje, quando olho para o céu,
sinto que existe em mim um ser alado que passou muito tempo com medo de partir.
Então, digo a ele:
Voa.
Voa sem pedir licença ao passado. Voa sem medo do vento.
Voa levando a doçura, a fé e os sonhos.
Porque talvez a vida seja isso:
aprender a transformar ecos em música, feridas em sabedoria, sombras em luz
e o coração, finalmente,
em um lugar onde a alma possa morar.
Fernanda
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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)