Há bocas que falam baixo,
mas destilam fel com perfume francês.
Não gritam, não apontam apenas semeiam,
com mãos suaves,
sementes que nascem tortas.
Dizem que é cuidado.
Que é só uma opinião.
Mas a frase vem dobrada,
com agulha fina escondida no meio do pano.
São jardineiras da discórdia.
Andam por aí lançando sementes cinzentas
no quintal dos outros,
esperando que brotem mágoas.
Mas esta Fernanda…
não rega o que não pediu pra nascer.
Aprendeu a reconhecer cheiro de terra envenenada.
E quando sente, recua com a elegância de quem já cansou
de se sujar por dentro com lama do outro.
Segue tentando ser educada por fora.
Como a vida a ensinou por dentro.
Ela não responde.
Não precisa.
Porque flor que conhece seu perfume
não se curva ao espinho de ninguém.
E quem planta maldade disfarçada de opinião sincera
um dia colhe o silêncio de quem não volta mais.
Fernanda
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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)