Gosto de me exercitar, não apenas pelo cuidado com o corpo, mas pelo curioso prazer de perceber que, enquanto os músculos se movimentam, os pensamentos parecem encontrar também um caminho mais leve.
E este lugar… este lugar é simplesmente maravilhoso. Há paisagens que não exigem elogios, pois possuem a delicadeza de dizer tudo por si mesmas. Basta estar ali, respirar demoradamente e deixar que os olhos se demorem um pouco mais sobre aquilo que é belo.
Talvez seja esse um dos pequenos privilégios da vida: descobrir que o exercício pode ser também contemplação, que o esforço pode vir acompanhado de encantamento e que uma manhã comum pode, quando Deus assim permite, transformar-se em poesia.
Então, antes de tudo, faço apenas uma prece, simples e sincera: Obrigada, Senhor, por minha família e por estes momentos poéticos. Pela saúde que me permite caminhar, pelo corpo que responde aos meus desejos, pela natureza que me ensina e por esta extraordinária capacidade de encontrar beleza onde muitos talvez apenas vejam um lugar.
E, como diria uma senhora sensata diante das coisas verdadeiramente importantes da existência: há momentos em que não precisamos de grandes acontecimentos basta agradecer pelo privilégio de estar exatamente onde a alma gostaria de permanecer.
Fernanda
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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)