Há momentos em que os filhos nos surpreendem sem perceber. Não chegam anunciando que cresceram. Não dizem: “Mãe, estou deixando de ser menino.”
Apenas aparecem diante de nós com uma história pequena nas mãos e, de repente, percebemos que alguma coisa mudou.
Foi assim com José.
Meu adolescente chegou perto de mim com aquele jeito tranquilo de quem ainda não sabe se deve contar ou guardar.
Então eu que conheço meus filhos nos detalhes o fitei demoradamente.
E ele, Mãe, encontrei uma menina do sorriso doce.
Há certas palavras que fazem uma mãe refletir imediatamente.
É mesmo, José?
Ele continuou:
Ela perguntou meu nome e se eu tenho namorada. Eu disse que me chamo José e que não tenho namorada.
Continuei fitando ele.
José já não era aquele menino que corria pela casa atrás das pequenas alegrias. Havia nele alguma coisa diferente. Uma certa timidez escondida atrás da educação, um começo de descoberta que ainda não sabia nomear.
Então ele me perguntou:
O que você acha, mamãe?
Sorri.
Ainda estou me acostumando com o modo como você e Clarinha perguntam essas coisas hoje em dia, filho.
Ele riu.
Mas não desistiu:
E você mamãe, o que sentiria se alguém perguntasse isso para você?
Foi então que eu entendi que aquela conversa não era sobre uma menina.
Era sobre a vida. Sobre aprender a olhar para o outro sem pressa. Sobre o coração que, às vezes, se encanta antes mesmo que a razão tenha tempo de chegar.
Perguntei:
E você, José? O que sentiu?
Ele pensou.
Achei que ela foi muito apressada.
Talvez tenha sido mesmo.
Mas eu não queria ensinar meu filho a julgar aquela menina. Queria ensiná-lo a compreendê-la.
Filho, às vezes as pessoas se aproximam de nós de maneiras que não entendemos imediatamente. Isso não faz delas boas ou ruins. Apenas diferentes. Antes de julgar, conheça.
Ele ficou quieto.
E eu continuei:
Mesmo sentindo algo por alguém, precisamos conhecer antes de julgar. O coração pode se encantar com um sorriso, com uma palavra, com um olhar… mas conhecer alguém exige tempo.
José me ouviu com aquela atenção bonita dos adolescentes quando ainda fingem que não estão prestando tanta atenção assim.
Depois sorriu.obrigada mamãe!
E saiu.
Fiquei sozinha.
Pensei em como os filhos crescem enquanto nós ainda estamos ocupadas tentando guardar a infância deles.
Um dia, somos nós que escolhemos suas roupas, penteamos seus cabelos, seguramos suas mãos.
Depois eles começam a escolher. Escolhem os amigos. Escolhem os caminhos. E, um dia, talvez escolham alguém para caminhar ao lado.
A maternidade é também essa delicada arte de abrir as mãos sem deixar de amar.
José está começando a descobrir que existe um mundo inteiro dentro de cada pessoa. Que uma menina não é apenas um sorriso doce.
Que um menino não é apenas uma resposta.
Que gostar não significa possuir. Que aproximar-se exige respeito.
Que conhecer é mais bonito do que imaginar. E que ninguém deveria ser julgado apenas pela primeira impressão.
Talvez seja isso que eu queira deixar para meus filhos como uma pequena herança de mãe: tenham coragem para sentir, mas tenham sabedoria para conhecer.
Não tenham pressa de chamar de amor aquilo que ainda é apenas encanto.
Deixem o tempo conversar com vocês.
Porque algumas histórias começam com uma pergunta.
Outras começam com um sorriso.
E algumas, as mais bonitas, começam quando duas pessoas simplesmente decidem se conhecer.
Naquela noite, olhei para José e pensei: Meu Deus…
quando foi que aquele meu menino cresceu?
Talvez tenha sido ontem.
Talvez tenha sido enquanto eu estava distraída, cuidando da vida. Ou talvez os filhos nunca cresçam de uma vez.
Talvez apenas nos ensinem, pouco a pouco, a amá-los de um jeito novo.
E eu, mãe que ainda guarda tantos meninos dentro do coração, vou aprendendo.
Com José. Com seus primeiros encantamentos.
Com suas perguntas.
Com seus silêncios.
E com essa coisa tão bonita e tão perigosa chamada vida, que começa cedo a nos ensinar que amar alguém também é aprender a enxergá-lo para além daquilo que nossos olhos conseguem ver.
Fernanda
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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)