Mas também não precisamos de um dia internacional para sermos mulheres com M maiúsculo.
E talvez seja justamente por isso que eu queira falar sobre nós. Porque mulher não cabe em uma data no calendário. Não precisamos de flores, homenagens ou frases bonitas em um único dia para lembrar quem somos. Somos mulheres todos os dias nos dias em que sorrimos, nos dias em que choramos, nos dias em que somos fortes e, principalmente, naqueles em que precisamos juntar os pedaços e continuar.
Ser mulher é aprender que podemos ser delicadas sem sermos frágeis. Inteligentes sem precisarmos pedir desculpas por isso. Bonitas sem devermos nada a ninguém. Gentis sem que nossa gentileza seja confundida com interesse.
E aqui entra uma coisa que ainda me incomoda profundamente.
Você não precisa se culpar pela interpretação que alguém fez da sua educação.
Uma mulher pode ser bonita, inteligente, escrever bem, conversar com delicadeza, sorrir e ser agradável sem que isso signifique que esteja interessada em alguém.
Parece tão óbvio, não é?
Mas “algumas pessoas” constroem uma história inteira dentro da própria cabeça e depois ficam ofendidas quando descobrem que a realidade não acompanhava o roteiro que imaginaram.
Uma palavra vira flerte.
Uma gentileza vira convite.
Uma conversa vira intimidade. Um sorriso ganha significados que nunca teve.
E quando a mulher coloca um limite, ainda pode ser chamada de fria, arrogante ou difícil.
E digo mais,
Você não é responsável pela fantasia que alguém criou sobre você. E se existe um detalhe que deveria ser suficiente para encerrar qualquer imaginação você é casada então o respeito deveria ser ainda mais evidente.
CASADA não é uma palavra que alguém pode simplesmente apagar porque não combina com aquilo que gostaria que fosse verdade.
Respeito não é respeitar apenas quando somos correspondidos. O verdadeiro respeito aparece quando ouvimos um “não” e sabemos aceitá-lo sem transformar a mulher em culpada pela nossa frustração.
Por isso, nunca pense que precisa deixar de ser educada para ser respeitada.
Você não precisa esconder sua inteligência. Não precisa diminuir sua beleza.
Não precisa mudar sua maneira de falar.
Não precisa se tornar uma mulher amarga para impedir que alguém tenha uma interpretação conveniente sobre você.
Coloque limites quando precisar. Seja clara quando for necessário. E depois siga em frente. Porque quem realmente respeita uma mulher não precisa ser convencido a respeitá-la.
E talvez essa seja uma das coisas mais bonitas de ser uma mulher com M maiúsculo: saber quem somos sem precisar que alguém nos dê permissão para existir.
Podemos amar e ainda dizer não. Podemos perdoar e manter distância.
Podemos ser doces e firmes.
Podemos conversar sem flertar. Podemos admirar sem desejar. Podemos ser gentis sem oferecer passagem para ninguém atravessar os limites da nossa vida.
Então me digo sempre, Fernanda, não carregue uma culpa que não é sua. Continue sendo você.
Continue escrevendo, sorrindo, conversando, aprendendo, vivendo.
Só não permita que a falta de bom senso de alguém faça você duvidar da sua própria dignidade. Porque ser mulher não é uma homenagem que recebemos uma vez por ano.
É uma história que escrevemos todos os dias.
E eu, particularmente, não preciso de um dia internacional para lembrar quem sou.
Sou mulher.
Com M maiúsculo.
Hoje, amanhã e em todos os dias em que a vida me permitir acordar e
continuar sendo exatamente quem escolhi ser.
Fernanda
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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)