Ele diz que sou linda
como quem não exagera,
como quem enxerga
além do espelho e do dia.
Diz que sou toda poesia,
e não fala apenas da forma,
mas do jeito que sinto,
do modo como silencio
quando a alma fala mais alto.
Quando ele diz,
não me enfeita
me reconhece.
E isso toca lugares
que o elogio comum não alcança.
Sou linda, ele diz,
nos dias claros
e nos desalinhados,
quando o riso falha
e o cansaço pesa.
Sou poesia inteira,
mesmo com versos tortos,
mesmo com pausas longas,
mesmo quando não sei rimar
meus próprios sentimentos.
Ele diz.
E pela primeira vez,
acredito
sem pedir confirmação ao mundo.
Porque sinto a verdade de seu coração.
Fernanda
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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)