Fomos almoçar só nós. E bastou sentar à mesa para as crianças perceberem o vazio que não era de comida, era de gente. Clarinha, com aquela lucidez que só adolescente tem, soltou:
As vovós fazem uma falta, né mãe?
Eu sorri por fora e engoli um nó por dentro. Respondi:
Muita, filha. Mas quarta à noite já estaremos juntas.
É curioso como a família deixa marcas até no silêncio da cadeira vazia. A casa muda de som, o almoço perde um pouco do tempero que só o afeto coloca.
André comentou como é gostoso estarmos juntos. Disse com aquele jeito simples, mas cheio de verdade. E eu entendi. Porque junto a gente se lembra de existir. Sozinha, às vezes eu entro nesse modo automático: faço, resolvo, corro… e esqueço até de comer. Ou de olhar pra quem está ao lado.
Ele se preocupa com isso. Comigo. Com esse meu jeito de mergulhar no que faço e esquecer do corpo, da fome, das pausas. Amor também é isso: alguém que te puxa de volta pro presente.
Ficamos um pouco mais. Rimos, conversamos, respiramos família. Depois, levantei e voltei pro curso. Porque a vida também chama. Mas fui diferente. Fui carregando aquela lembrança boa do almoço incompleto, porém cheio de sentido.
Falamos com a família no DF
E tá tudo certo.
Às vezes não dá pra ter todo mundo junto.
Mas quando tem amor na mesa, até a ausência vira saudade boa.
Fernanda
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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)