Arrumei um tempo. Sim, arrumei. Porque tempo, não se acha perdido no bolso da calça como
Diz meu Papai, a gente espreme a agenda, empurra compromissos, negocia com o cansaço e diz: agora vai. E fui. Voltei à academia como quem retorna a um território conhecido, mas com o corpo fazendo cara de turista.
Ontem fiz a avaliação. Aquele momento solene em que a balança te encara com sinceridade demais e o profissional fala palavras técnicas enquanto você só pensa: “Senhor, tende piedade dos meus músculos adormecidos”. Eu concordava com a cabeça, pensando: agora fitness, 😉enquanto minhas pernas já planejavam uma greve silenciosa.
Depois vieram os exercícios. E junto deles, o verdadeiro treino do dia: o social.
Porque mal comecei a mexer nos aparelhos e brotou gente solidária de todo lado. Uma apontava: Assim não, amiga. Outro vinha ajustar o banco. Um senhor fazia sinal de positivo de longe, como se eu estivesse representando a nação dos sedentários em reabilitação.😂
Em poucos minutos, rapazes e meninas me fecharam num verdadeiro cerco de perguntas. Eu no meio, segurando um halter, respirando fundo e respondendo tudo ao mesmo tempo: de onde eu vinha, há quanto tempo não treinava, se estava gostando, se voltaria no dia seguinte porque iria estar cansada, mas não era para desistir 😥
No meio disso tudo, ainda teve o momento celebridade. Duas meninas se aproximaram, olharam meu cabelo com aquela curiosidade respeitosa e perguntaram, quase em coro:
É seu mesmo?
Meu treino parou ali. Não por cansaço muscular, mas por gargalhada interna. Sim, era meu. Não alugado. Não emprestado. Meu. Com raiz, história, volume e rebeldia inclusas no pacote.😜
E então surgiu um rapaz.
Simpático demais para passar despercebido. Educado demais para ignorar. Se ofereceu para ajudar em um aparelho, explicou o movimento, ficou por perto mais tempo do que o necessário. Perguntou meu nome, elogiou minha determinação, comentou do meu sorriso. E eu já desconfiada 😐
Eu ajudando o braço a subir o peso e a consciência dizendo: hora de ir para o outro aparelho.
Enquanto isso, André começou a nascer dentro do meu pensamento. Eu conseguia imaginá-lo chegando ali: o olhar atento, o “ciúme” manso, aquela proteção silenciosa que ele tenta esconder, mas que sempre aparece.
E não demorou.
Quando terminei a última série que na verdade foi interrompida por mais uma rodada de conversa vi André entrando pela porta da academia. Ele veio me buscar. Veio com aquele jeito tranquilo, mas observador. Olhou em volta. Me viu cercada. Viu o rapaz ainda perto. E respirou fundo antes de sorrir.
Chegou perto de mim, passou o braço de leve pela minha cintura e disse baixo, com carinho:
Amor, já terminou?
Naquele “amor” tinha afeto, território marcado e uma delicadeza ciumenta que só quem ama sabe fazer.
O rapaz se despediu rapidamente. As meninas sorriram cúmplices. E eu senti aquele calor bom no peito de quem é escolhida todos os dias.
No caminho para casa, André ficou em silêncio por alguns segundos. Depois falou, com voz mansa:
Fiquei pensando… amor, você fica toda cansada, cheia de gente em volta… Se quiser, a gente pode montar um cantinho pra treinar em casa. Eu compro os aparelhos. A gente treina junto. Eu te ajudo.
Eu olhei pra ele e sorri. Não pelo "ciúme". Mas pelo cuidado escondido dentro da proposta. Não era sobre pesos. Era sobre presença.
Saí da academia suada, dolorida e estranhamente feliz. Porque voltei não só a movimentar o corpo, mas a movimentar afetos. Entre halteres, cabelos, perguntas e olhares, percebi que recomeçar também é isso: escolher cuidar de si sem perder quem caminha ao seu lado.
E amanhã tem mais.
Se os músculos deixarem.
Se o salão permitir.
Ou se a nossa sala virar academia improvisada.
rsssssssssss.... Bem assim mesmo! Eu não gosto de academia, mas há um bom tempo fui obrigada a fazer fisioterapia. Hoje mesmo, após ontenm um dia de cão de tanta dor, tive que encarar um médico, injeção e aguado nova ressonância. Tudo isso pra te dizer que aproveita e faz tudo certinho na juventude pra não colheres frutos indesejados dos ossos reclamando na outra fase de vida,rs... Tive que rir do André, disfarçadamente "cuidadoso",rs... Isso é bom! beijos, tudo de boim,chica
ResponderExcluirQuerida Chica,
ExcluirRi com você e ao mesmo tempo senti esse “ai” escondido nas entrelinhas 😂 porque dor de corpo não perdoa, mas o seu bom humor continua sendo remédio dos bons!
Você tem toda razão: a gente vai empurrando os cuidados com o corpo na juventude achando que ele é eterno… até que os ossos começam a mandar recados nada sutis. Seu comentário virou quase um conselho de mãe experiente, desses que a vida ensina na prática.
E o André “disfarçadamente cuidadoso” foi a cereja do bolo 🤭 é bonito ver esse cuidado aparecendo, mesmo que em tom de brincadeira.
Desejo que essa fase mais chatinha passe logo, que a ressonância traga boas notícias e que as dores deem trégua. Enquanto isso, seguimos rindo, porque rir também é fisioterapia da alma.
Beijos cheios de carinho,😘🙏🏻
Que maravilha vc ter começado!
ResponderExcluirTalvez seja assim mesmo( gente ao redor querendo ajudar). Já faz tanto tempo que faço que nem lembro mais.
E já fiz em cidades diferentes quando acompanhei o marido amado em outras cidades. Mas a recepção é semelhante.
Sou uma fã de musculação. E de academia.
O início eu sei e vc sabe é dolorido, mas não deve ser motivo de desistência.
Beijo,
Querida Liliane,
ExcluirQue bom ler seu incentivo tão cheio de experiência e carinho! Dá até um alento saber que esse começo dolorido é quase um rito de passagem e que depois o corpo aprende a caminhar junto com a vontade.
Gostei muito quando você falou das pessoas ao redor querendo ajudar… isso transforma o ambiente e faz a gente se sentir acolhida, mesmo em meio ao suor e às caretas discretas 😄. E você, firme na musculação, acompanhando a vida em diferentes cidades, é prova viva de constância e amor em movimento.
Obrigada pelo apoio, pelo empurrãozinho gentil e pelo beijo que chegou como incentivo extra.
Beijo grande daqui,😘🙏🏻
Olá Fernanda, querida amiga!
ResponderExcluirTomaste uma boa decisão em ir para a academia. O exercício físico é indispensável para uma vida saudável. Não para reduzir o peso, mas para activar todo o tecido muscular, o sistema circulatório, cardíaco... tudo, enfim!
Um corpo saudável tem que ser um corpo activo! Eu, pratiquei desporto de alta competição até aos 32 anos - Hóquei em Patins - conquistei vários títulos! Mas mantive sempre a actividade. Não numa academia. Não gosto. Mas eu próprio fazia a minha "manutenção" física. Mas faço-o de uma forma intensa. Depois de deixar de jogar, apaixonei-me pelo golfe. Todos os fins de semana passo o dia no "green" do Clube de Golfe. Só não vou se o tempo não o permitir ou tenha algo urgente para fazer. Participo em diversos torneios nacionais e internacionais, o que me dá um grande prazer. Diria que o golfe é a minha segunda paixão!...
Tudo isto para te felicitar pela decisão que tomaste. Muito bem!
Espero que tenhas um bom fim de semana.
Um beijo e meu carinho.
Querido Albino,
ExcluirQue alegria ler teu comentário tão generoso e encorajador! Tuas palavras são como um incentivo cheio de experiência e sabedoria de quem sempre respeitou o próprio corpo e soube cuidar dele ao longo da vida.
Adorei conhecer um pouco mais da tua história no desporto e dessa paixão bonita pelo golfe. Dá para sentir o quanto o movimento ainda pulsa em ti, não como obrigação, mas como prazer e escolha de bem-viver. Isso inspira! E tens toda razão: não se trata apenas de estética, mas de saúde, de vitalidade, de manter o corpo desperto para acompanhar a alma. Obrigada pelo carinho, pelo estímulo e pela energia boa que deixaste aqui.
Um beijo grande e um excelente fim de semana para ti também,🙏🏻😘
Nanda, minha dileta amiga, faz tempo que não dou o ar de minha graça por aqui. Mas volto como você voltou para a academia. Quanta leveza para músculos cansados! Que mistura saudável nesta salada de carinho, afeto, amor, ciúme e tantas outras coisas neste lago que você plantou aqui com o seu jeito manso de arquiteta das palavras; elas, as palavras, estão bem encadeadas e trazem uma argamassa embutida num código que desde cedo aprendemos a decifrar nos seus traços. Por incrível que pareça, pode acreditar, você estar sempre ensinando um ofício de viver que pode servir de reflexão para os seus amigos e leitores inflexíveis. Gosto do seu jeito de falar dos tumultos no peito. A falta nos ensina e a presença ensina muito mais. Gosto dos seus lenços e dos seus cabelos. Gosto mais dos lenços, pois os vejo sempre acenando para uma praia que você deseja que seja de todos.
ResponderExcluirAbraços afetuosos, minha querida!
Eros (como o queres, rsrsrs)
Querido Eros,
ExcluirQue retorno bonito o teu… desses que não chegam em silêncio, mas em forma de abraço escrito. Tua leitura me tocou fundo, porque percebo nela não apenas carinho, mas atenção verdadeira essa raridade que reconhece o outro para além das palavras.
Sorri com tua metáfora da “salada de afetos” e desse lago que, segundo tu, eu teria plantado. Talvez seja isso mesmo: escrever para mim é semear água em terra seca, é tentar regar o que em nós insiste em florescer apesar dos cansaços. Fiquei especialmente tocada quando disseste que há, nos meus traços, um “ofício de viver”. Que responsabilidade bonita essa… e que delicadeza a tua em enxergá-la. Também acredito nisso: a presença ensina mais que a ausência, e é nesse exercício diário de estar mesmo imperfeita que sigo aprendendo. Quanto aos lenços… eles continuam acenando, sim. Para praias possíveis, para encontros improváveis, para esse mar interno que às vezes assusta, mas quase sempre cura.
Obrigada por voltares. Por ficares. Por leres com o coração.
Com carinho e ternura,🙏🏻😘
E ela virou atração principal da academia..,rss
ResponderExcluirEduardo,
Excluirrindo sozinha aqui! 😂
Se virei atração principal, foi sem querer querendo… entre caretas nos exercícios, passos tortos na esteira e a coragem de recomeçar, a gente acaba chamando atenção mesmo! O importante é que, no meio das risadas, o corpo se mexe, a alma agradece e a autoestima vai voltando ao palco principal também. 😄💪 haha
Hahaha, daqui te aplaudindo, Nandinha!
ResponderExcluirEstá maravilhoso esse texto, esse teu iniciar na academia, exercitando os músculos, a tua vontade e a presença do teu amado André que, disfarçadamente, foi te buscar. 😅👏
Isso é amor, querida amiga, aqueles cuidados que conhecemos muito bem!
É engraçado, mas é muito lindo.
Teu reiniciar, rodeada de solidariedade e simpatia deve ter sido muito gostoso!
Avante!!
Um texto maravilhoso, despertou em mim a vontade de fazer o mesmo. Vou pensar...
Gostei das meninas perguntarem se os cabelos eram seus kkk
Meninas são assim, não há inibição porque não há maldade, apenas curiosidade por acharem lindo.
Beijinho, um lindo fim de semana!
Tais lindona,
Excluirque carinho gostoso de ler!
Ri junto com você, me senti aplaudida de verdade! Esse recomeço teve mesmo um temperinho especial: vontade, coragem, risadas e esse cuidado silencioso do André que aquece o coração. É amor nesses detalhes simples, né?
Fico feliz demais de saber que o texto te despertou essa vontade de se mover também… só de pensar já é um primeiro passo! E sobre os cabelos… meninas são pura espontaneidade mesmo, achei tão leve e divertido.
Obrigada por esse gesto tão generoso e afetuoso. Beijinho grande e um fim de semana lindo para você também! 😘🙏🏻
Amiga Fernanda, bom sabado de Paz!
ResponderExcluir"Naquele “amor” tinha afeto, território marcado e uma delicadeza ciumenta que só quem ama sabe fazer."
Adoro o amor mansinho que marca territorio sem fazer "barraco"...
Muito Lindo e fico aqui.com o coração cheio de amor assim também pelo dono do meu coração.
Tenha um final de semana abençoado!
Beijinhos fraternos