Uma vez por mês eu viro mala, café forte nos “botecos” do aeroporto e também coragem😌.
São Paulo me espera com seus prédios apressados e salas cheias de futuros possíveis. Vou, fico três dias, e volto. E nesse vai-e-volta mensal, descubro que não é só uma especialização que estou cursando é também um aprofundamento no amor.
André e as crianças vão junto, sempre no mesmo propósito: me sustentar por dentro. André cuida de mim como quem ajeita travesseiro em madrugada febril. Confere horários, separa documentos, lembra da água, do casaco, do remédio esquecido. E eu, boba, fico. Boba de amor, de gratidão, de espanto bom. Porque ainda me surpreendo quando alguém escolhe cuidar sem fazer barulho.
Enquanto eu estudo, eles me esperam. Enquanto eu corro atrás dos meus sonhos, eles seguram o mundo para mim não tropeçar. E quando volto, cansada, cheia de anotações e pensamentos, volto também mais inteira, porque sei que tenho um lar que me recolhe.
Obrigada, meu amor, por tanto carinho. Por caminhar comigo mesmo quando o caminho não é seu. Por ser abrigo em meio à rotina. Por transformar essa especialização em uma jornada leve, feita não só de conhecimento, mas de afeto.
E assim seguimos: uma mala por mês, um amor todos os dias.
Fernanda
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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)