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Eu amo escrever. Escrevo porque às vezes não cabe tudo aqui dentro. Porque há sentimentos que só se organizam quando viram palavras, e pensamentos que só fazem sentido quando dançam na página. Amo também olhar o céu e talvez isso diga tudo. Há quem olhe o céu para prever o tempo, eu olho para prever a mim mesma. Há algo em observar as nuvens, as estrelas ou o silêncio azul que me faz lembrar que existe poesia mesmo nos dias comuns. Este blog nasce desse encontro: entre a escrita e o céu. Vai ser um espaço para dividir pensamentos, contar histórias, guardar pedaços de mim e talvez, de você também, que me lê agora. Obrigada por estar aqui. Que você se sinta à vontade. Que cada texto seja como uma janela aberta, onde o vento entra leve e, quem sabe, traz um pouco de luz também

✿Amor sempre....

✿Amor sempre....
Caminho entre flores. O chão continuará pra nós com outras paisagens. Sou o que sou, porque é tudo que sei ser. E todo meu olhar escrito que você nunca aprendeu a ler, permanecerá no descaso para quem não compreende.

16 maio, 2026

A menina que morava nas ruas

Aleatoriamente um toque de poesia
Noite de historinhas com a turminha.
Vamos lá!


Quando eu morava no orfanato, desapareceu um anel da senhora de lá.
Não demorou muito para apontarem o dedo para cada criança, 
mas porque eu fiquei calada o dedo firmou em mim.
A senhora do lugar entendeu que eu tinha pego.
Eu repetia baixinho que não sabia de nada, que nunca tinha visto aquele anel, mas parecia que minhas palavras não tinham peso algum. Às vezes, quando a gente é criança, a verdade da gente quase nunca encontra ouvidos.

Então veio o castigo.
Mandaram que eu ficasse de joelhos no caroço de milho.
No começo tentei ser forte. Apertava os dentes, olhava para o chão e fingia que não estava doendo tanto. Mas doía. Doía como se os joelhos queimassem por dentro. Às vezes  sentava sobre as próprias pernas só para aliviar um pouco, escondida, tentando descansar daquela dor miúda e insistente.
Só que, quando voltava a ajoelhar "normal", o milho parecia entrar na pele outra vez.

Foi então que imaginei um jeito de sobreviver.
Fechava os olhos e imaginava que aqueles caroços não eram milho. Imaginava que eram pequenos flocos de nuvens vindo beijar minha dor. Pensava nisso com tanta força que, por alguns segundos, o sofrimento diminuía. Era como se a imaginação fosse o único cobertor que eu tinha naquela época.

Hoje, olhando para trás, penso muito naquele tempo.
Parecia não existir amor ao próximo.
E me pergunto: como alguém consegue machucar uma criança e ainda acreditar que está educando? Como um lugar criado para acolher órfãos podia carregar tanta dureza dentro das paredes?
Talvez aquelas mulheres também fossem feridas pela vida. Talvez tivessem desaprendido a ternura. Mas nenhuma dor do mundo deveria transformar infância em castigo.

Os orfanatos sempre estiveram cheios de crianças sem lar, sem colo, sem defesa. E ainda hoje, quando vejo notícias sobre abandono, violência ou negligência, alguma coisa dentro de mim volta para aquele chão frio e para os joelhos marcados pelo milho.
Mas existe uma coisa curiosa sobre as crianças machucadas:

muitas sobrevivem criando beleza onde quase não existe esperança.
Eu sobrevivi imaginando nuvens. 
E talvez tenha sido ali, ajoelhada sobre a dor, que comecei a aprender que a imaginação também salva gente.

 

Fernanda

7 comentários:

  1. Olá Fernandinha, lendo sua historia, lembro que nos anos 60, quando entrei para o tal grupo escolar, certa vez depois de uma bagunça da gente, tivemos que ajoelhar sobre grãos de milho e rezar o terço, que a gente nem sabia direito. Hoje quando vejo, leio sobre os desmandos nestas casas de assistencias a menores, fico estarrecido e notamos porque elas não se recuperam e muitas vezes, saem pior.
    Que fique na historia todas estas lembranças angustiantes para que possamos criar uma mente mais educadora e acolhedora.
    Abraços e bom domingo amiga.

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  2. Bom dia Fernanda, querida amiga.
    Quando nos obeigam a subir uma montanha que sabíamos ser difícil, quando voltamos depois de muito ter sofrido na sua subida, voltamos sempre mais fortes!...
    Contigo aconteceu o mesmo querida. Esse milho que queimava os teus joelhos e que tu transformaste em nuvens de algodão, foram uma benção do Pai, que te ajudou a suportar esse castigo imposto pela estupidez de pessoas vestifas de uma falsa superioridade!
    Tal como quem subiu a montanha, voltaste mais forte depois desse castigo!
    Criaste resiliência e uma nova determinação para enfrentares as teias dos dias!
    (Curiosamente o meu próximo livro que acabei há dias de escrever tem um título semelhante: " As Teias Frágéis dos Dias")...

    Tem um bom domingo!
    Beijos.

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  3. Lembro de alguns castigos que papai me colocou, mas não teve ajoelhar em milhos.
    Não me traumatizou e contávamos rindo junto com papai.
    Acho que o pior era não poder ir brincar na calçada ou no jardim durante uma semana.
    Era uma semana para mim, muito longa.
    Beijo,

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  4. Tocante, Nanda! Tocante!
    É preciso a todo instante bater palmas para a sua sensibilidade poética.
    É preciso dizer que você experimentou uma injustiça cruel.
    É preciso dizer que você passou uma dor que nenhuma criança deveria ter passado.
    É preciso dizer ainda:
    o ambiente em que você vivia foi feito para proteger, portanto, não deveria ter tanta rigidez e falta de afeto, o que significa que falamos de uma realidade histórica complexa e triste sobre as instituições de acolhimento.
    Sabe-se que, durante muito tempo, os orfanatos funcionaram sob uma lógica puramente institucional e disciplinar, e não de acolhimento emocional.
    Sabe-se que muitas das pessoas que cuidavam dessas crianças não tinham formação em psicologia infantil ou pedagogia. Portanto, replicavam métodos de punição severos que aprenderam em suas próprias vidas. Eu, por exemplo, apanhei três vezes do pai que fui para água e sal.
    Aos meus olhos, nunca mereci tamanha brutalidade, sobretudo porque ele era pai apenas no nome.
    E como é bom saber que a sua dissociação criativa funcionou, pois, quando a dor física e emocional se torna insuportável, a imaginação atua como uma defesa psicológica. E a sua habilidade de criar beleza no caos demonstra uma resiliência e uma força interior gigantescas, forças que já habitavam em você desde menina.
    Por fim, a sua história mostra que, embora tenham machucado o seu corpo, eles não conseguiram destruir a sua capacidade de humanizar o mundo ao seu redor.
    Hoje, a sua voz e a sua escrita dão peso àquela verdade que ninguém quis ouvir no passado.
    Um beijo, Nanda!

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  5. Que tristes lembranças,Nanda! Ser acusada sem motivos é algo terrível e ainda mais akoelhar em milhos. Maldade! Mas cada coisa acontecia... Eu, nim antigo colégio alemãom várias vezes fui chamada de CÂNCER, incurável...Isso porque fazia pequenas traquinagens infantis na aula,rs... Aff... Mesmo assim, lembro com audades daquele colégio lá no Rio... beijos, linda semana, chica

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  6. Depois de ler este relato, teu, como "comentar"?
    A profundidade que as palvaras alcançam dentro de nós é indescritível...
    Surge a pergunta : Porque que é que, como é que...alguém, um ser humano, consegue tratar outro...uma criança, deste modo?
    Creio, pelo o que li, que tens as eventuais respostas.
    Mas, as marcas, ficam para sempre.
    Abraço


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  7. Puxa, Fernanda... Que triste deve ter sido essa época hein.
    Mas graças a Deus as coisas mudaram na sua vida.
    essas pessoas aí achavam mesmo que estavam fazendo o certo.
    Os tempos eram outros.
    Mas não duvido nada que ainda existam lugares como esse.

    Um abraço minha amiga.

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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)

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