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Eu amo escrever. Escrevo porque às vezes não cabe tudo aqui dentro. Porque há sentimentos que só se organizam quando viram palavras, e pensamentos que só fazem sentido quando dançam na página. Amo também olhar o céu e talvez isso diga tudo. Há quem olhe o céu para prever o tempo, eu olho para prever a mim mesma. Há algo em observar as nuvens, as estrelas ou o silêncio azul que me faz lembrar que existe poesia mesmo nos dias comuns. Este blog nasce desse encontro: entre a escrita e o céu. Vai ser um espaço para dividir pensamentos, contar histórias, guardar pedaços de mim e talvez, de você também, que me lê agora. Obrigada por estar aqui. Que você se sinta à vontade. Que cada texto seja como uma janela aberta, onde o vento entra leve e, quem sabe, traz um pouco de luz também

✿Amor sempre....

✿Amor sempre....
Caminho entre flores. O chão continuará pra nós com outras paisagens. Sou o que sou, porque é tudo que sei ser. E todo meu olhar escrito que você nunca aprendeu a ler, permanecerá no descaso para quem não compreende.

28 novembro, 2025

A Psicóloga Involuntária

Aleatoriamente um toque de poesia


Hoje, André olhou para mim com aquele sorriso de quem está prestes a aprontar uma reflexão e, do nada, soltou:

Amor, você deveria fazer Psicologia também.

Eu o olhei com espanto.

Por que diz isso, amor?

Ele se encostou na cadeira, cruzou os braços e respondeu com a segurança de quem tem provas, testemunhas e até vídeos guardados:

Porque não dá nem pra contar as pessoas que sentam perto de você e contam toda a vida num piscar de olhos. Se estão tristes, você alegra. Se estão passando por problemas, você faz ver tudo por uma perspectiva positiva. Se a pessoa é ateu… volta a acreditar em Deus! Hahaha!

Fingi que não era comigo, mas a verdade é que isso acontece mesmo.
No café, na fila do mercado, na recepção da clínica.
Basta eu respirar num raio de dois metros de alguém e pronto: a pessoa sente um impulso misterioso de abrir o coração como quem abre uma janela num dia abafado.

E eu escuto.
Sempre escuto.
Porque aprendi desde cedo que cada desabafo é um convite não para resolver a vida do outro, mas para aquietar a dor que transborda.

Enquanto André ria, continuou:

Agora… que você faz o povo se encantar fácil, faz. Só comigo que foi difícil, né? Nossa, como você foi difícil, hein! Deu trabalho pra eu me aproximar!

E aí fui eu quem riu.

Claro que fui difícil.
Não porque eu quisesse manter distância, mas porque o coração da gente, depois de ser tão feliz e logo e em seguida algumas tempestades, fica feito casa antiga: abre a porta, sim, mas demora uns minutos para destravar o trinco.

André não desistiu.
Sentou-se muitas vezes perto de mim não para contar a vida dele inteira de uma vez (embora quase tenha feito isso), mas para me observar como quem tenta decifrar um idioma novo.

E quando eu finalmente deixei que ele entrasse, descobri que às vezes o coração não quer rapidez; quer segurança. Quer ternura. Quer alguém que fique.

Talvez por isso tanta gente sente vontade de conversar comigo: não é que eu diga muito, é que eu escuto com presença. Escutar virou minha maneira de amar o mundo e o mundo percebe.

Mas André… André é diferente. Ele não precisou sentar ao meu lado para desabafar. Ele sentou para ficar.

E ficou.

Hoje, quando ele diz que eu deveria fazer Psicologia, eu sorrio. Talvez eu não tenha diploma da área ainda, mas tenho algo que nenhum curso ensina: a fé de que todo mundo carrega dentro de si um lugar que só precisa ser ouvido para florescer de novo.

E quem sabe seja por isso que até ateu, como André disse brincando, volta a acreditar em Deus perto de mim.

No fundo, é Deus acreditando na gente primeiro.



Fernanda

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depois que a letra nasce
não há silêncio
há um choro que só eu ouço
e um medo que ninguém vê
o medo de mostrar demais
de sangrar diante de estranhos
de ser lida com desdém
ou pior: com pressa
porque parir palavras
é também deixar o peito aberto
num mundo que não sabe lidar
com quem sente fundo
a escrita respira fora de mim
e eu, nua, assisto
alguns dizem que é lindo
outros nem leem até o fim
há quem tente vestir meu poema
com a própria assinatura
como se dor fosse transferível
como se parto tivesse atalho
e é aí que mais dói
quando roubam o nome da minha filha
e fingem que nasceu de outra boca
quando arrancam o umbigo do texto
e dizem: “isso é meu”
não é
eu sei cada madrugada que ela levou
cada perda que empurrou esse verso
cada lágrima que virou frase
não quero aplauso
mas exijo respeito
porque minha escrita
anda no mundo com meu rosto
meus olhos, minha história
e quando alguém a toma como se fosse nada
está me dizendo:
“você também é nada”
mas eu sou tudo
o que ninguém teve coragem de escrever
e continuo parindo
mesmo ferida
porque escrever é a única forma
que conheço de sobreviver
(Fernanda)