“O que a vida quer da gente é coragem.”
(Guimarães Rosa)
Há aqueles que passam a vida procurando uma moldura, quando o que Deus lhe entregou foi uma tela em branco. Pintar um quadro nunca foi sobre acertar as cores. É sobre ter coragem de sujar as mãos. A vida também. A gente começa escolhendo um azul para os dias de paz e, sem perceber, o destino derrama um pouco de cinza, um risco de vermelho, um tanto de preto. No começo, brigamos com as manchas. Depois entendemos que eram elas que davam profundidade à paisagem.
Aprendi que autoconhecimento é um pincel estranho. Ele não colore o mundo. Primeiro, raspa as tintas que escondiam quem somos. Arranca os disfarces, desfaz os contornos inventados, silencia as vozes que pintaram nossa história com as cores dos outros. Só então pergunta, baixinho: qual é a sua cor?
Compreendi que viver não é produzir um quadro bonito para pendurar na parede da aprovação alheia. É criar uma obra em que a alma consiga morar. Há pessoas que passam anos retocando a moldura. Envernizam a aparência, lustram aprovações, colecionam elogios. Mas nunca olham para a tela. E é nela que mora a verdade.
Hoje, quando erro um traço, já não me desespero. O pincel da existência sabe caminhos que a pressa desconhece. Às vezes, o borrão era sombra. Às vezes, a sombra era justamente o lugar onde a luz precisava nascer.
No fim, penso que Deus, seja o único Pintor que conhece a obra inteira antes mesmo da primeira pincelada. Nós apenas aprendemos, dia após dia, a misturar as tintas do medo com as da esperança, até perceber que o quadro nunca quis ser perfeito. Quis apenas ser verdadeiro.
E talvez o maior ato de coragem seja: parar de copiar a pintura dos outros e, enfim, ter a humildade de assinar a própria tela.
Fernanda