Saudade é essa coisa que chega sem pedir licença,
puxa uma cadeira dentro de mim e faz silêncio.
Ela não grita, não exige, não ameaça. Só permanece.
Com a calma de quem conhece todos os meus atalhos.
Saudade é um lugar onde eu me encontro e me perco.
É o quarto que ainda guarda teu cheiro, é a xícara que insiste em ser par,
é o rastro de quem fui quando estava contigo.
É sentir falta até do que doeu, como se a dor também tivesse perfume.
Como se o que partiu ainda me tocasse a pele
com mãos abstratas.
Tem dias em que tento enganar a saudade
arrumo a casa, mudo os móveis, viro as fotografias de cabeça para baixo
como se elas não soubessem virar o coração de volta.
Mas ela fica.
Feita de poeira de lembrança. Feita de tudo que não volta,
mas visita.
E eu, no fundo, sei:
sentir saudade é prova de que vivi. É testemunho de que amei sem medidas,
que me deixei ficar em lugares onde a alma respirou mais fundo.
Saudade é o grito de quem fui quando fui inteira.
E se dói, é só porque valeu.
Hoje, abraço essa falta como quem acolhe um gato arisco: sem pressa, sem tentar domar.
Deixo que a saudade me diga o que precisa
e agradeço o privilégio de ainda sentir.
Porque, se existe saudade,
é sinal de que existiu encontro. E encontros, mesmo quando viram ausência, continuam sendo milagre.
Que a saudade saiba ficar leve quando meu peito aprender a ser casa de novo.
Fernanda
(Texto criado um ano depois da ausência de Felipe)
Hoje, não dói...
só ficou uma saudade tão cheia de memórias.
Obrigada meu amor -anjo!
