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Eu amo escrever. Escrevo porque às vezes não cabe tudo aqui dentro. Porque há sentimentos que só se organizam quando viram palavras, e pensamentos que só fazem sentido quando dançam na página. Amo também olhar o céu e talvez isso diga tudo. Há quem olhe o céu para prever o tempo, eu olho para prever a mim mesma. Há algo em observar as nuvens, as estrelas ou o silêncio azul que me faz lembrar que existe poesia mesmo nos dias comuns. Este blog nasce desse encontro: entre a escrita e o céu. Vai ser um espaço para dividir pensamentos, contar histórias, guardar pedaços de mim e talvez, de você também, que me lê agora. Obrigada por estar aqui. Que você se sinta à vontade. Que cada texto seja como uma janela aberta, onde o vento entra leve e, quem sabe, traz um pouco de luz também

✿Amor sempre....

✿Amor sempre....
Caminho entre flores. O chão continuará pra nós com outras paisagens. Sou o que sou, porque é tudo que sei ser. E todo meu olhar escrito que você nunca aprendeu a ler, permanecerá no descaso para quem não compreende.

19 janeiro, 2026

Na sarjeta, mas não fora do mundo

Aleatoriamente um toque de poesia



Hoje havia na porta da clínica uma senhora com duas crianças. Estavam sentadas na sarjeta pedindo ajuda. A palavra sarjeta me transpôs como um soco manso que fazem hematoma na consciência. Porque, convenhamos, ninguém nasce para morar no chão. Ninguém sonha, quando criança, em transformar calçada em cama e sacola em travesseiro e eu sei muito bem disto.

Enquanto eu entrava, elas ficavam. Enquanto eu ajustava minha bolsa no ombro, elas ajustavam a dignidade para caber no pouco espaço que a cidade oferece. E ali, naquele vão entre a porta da clínica e a rua, percebi que a sociedade tem construído muitos muros. Muros feitos de pressa, de indiferença, de “não posso agora”.

Fiquei pensando no que eu poderia fazer. No que nós poderíamos fazer. Porque amparar quem vive nas ruas não é só dar moedas, embora elas também matem a fome imediata. É olhar nos olhos sem nojo. É chamar pelo nome quando ele existe. É não atravessar a rua fingindo que não viu.

É cobrar políticas públicas, sim. Mas também é oferecer presença. É apoiar projetos sociais, doar roupas limpas, comida quente, tempo, escuta. É ensinar as crianças que pobreza não é defeito de caráter. Que miséria não é escolha. Que ninguém está na rua porque “quer”.

Talvez eu não consiga mudar pensamento de ninguém ou o olhar do mundo. Mas posso mudar aquele pedaço de mundo que cruza meu caminho. Posso transformar portas fechadas em pequenas brechas de humanidade. Posso ser menos espectadora e mais participante da dor coletiva.

Hoje, ao passar por elas, levei comigo um incômodo que não quero mais calar. Porque há dores que existem para nos acordar de outra forma. E aquela senhora, sentada na sarjeta com duas crianças, não estava pedindo só moedas. Estava pedindo que a sociedade lembrasse que ainda é gente.

Talvez, se houvesse um trabalho forte,  forte de verdade, não esses remendos de campanha eleitoral a história fosse outra. Um trabalho que não largasse a mão depois da primeira foto para redes sociais. Um trabalho que não tratasse gente como número de relatório.

Como? Ajudando os pais dessas crianças a terem trabalho digno. Abrindo frentes de emprego, oficinas de capacitação, parcerias com empresas, cooperativas populares. Criando estruturas, não esmolas eternas. E, ao mesmo tempo, garantindo escola para as crianças, escola que acolha, que alimente, que proteja, que não expulse pela pobreza que elas não escolheram.

Mas aí sempre surgem as mesmas frases prontas, ditas com a boca cheia de conforto:

“Ah, mas a maioria gosta de pedir… já se acostumou.”
“Ah, mas são viciados… não tem mais jeito.”
“Ah, mas se ajudar, eles não vão querer trabalhar.”

Esse blá blá blá social é uma forma elegante de lavar as mãos. É o novo “não é problema meu”, disfarçado de opinião. Porque é mais fácil rotular do que compreender. Mais confortável julgar do que construir soluções.

Sim, alguns estão presos em vícios. Mas vício não é sentença de morte social. É doença, é ferida emocional, é grito interno. E ferida não se resolve com desprezo, se trata com cuidado, com política pública séria, com saúde mental acessível, com acompanhamento, com paciência.

Ninguém acorda um dia e pensa: “Hoje vou desistir da vida”. As desistências são construídas aos poucos, pela fome, pela rejeição, pela falta de oportunidade, pelo abandono repetido.
O que falta não é só dinheiro. Falta vontade coletiva. Falta projeto contínuo. Falta humanidade organizada.

E se eu puder fazer algo, que seja isso: não permitir que a rua engula a nossa capacidade de sentir. Não aceitar a normalização da miséria. Não compactuar com o silêncio confortável.

Porque enquanto existir uma criança sentada na sarjeta, a sociedade inteira ainda está em pé… mas moralmente ajoelhada.

E talvez seja hora de levantar esse joelho. Não com discursos bonitos, mas com gestos sustentados. Com compromisso que não cansa na segunda semana. Com presença que não some quando o problema deixa de render comoção.

Levantar é entender que ajudar não é favor,  é responsabilidade social. É perceber que ninguém se salva sozinho. Que a cidade só é verdadeiramente cidade quando abriga, não quando expulsa. Quando inclui, não quando varre para debaixo do tapete urbano.

Levantar é criar redes: entre igrejas, centros, escolas, universidades, comerciantes, voluntários, profissionais da saúde, assistentes sociais. Cada um oferecendo o que sabe fazer melhor. Um ensina, outro emprega, outro acolhe, outro escuta. Pequenos rios que, juntos, viram correnteza.

Porque não basta tirar alguém da rua por uma noite. É preciso acompanhar o depois. O dia seguinte. O mês seguinte. A recaída. A tentativa frustrada. O recomeço cansado. É aí que a maioria desiste , não deles, mas de ajudar. E talvez seja aí que Deus mais espera que a gente fique.

Diga:
Eu não quero mais apenas sentir pena. Pena paralisa. Quero sentir responsabilidade. Responsabilidade movimenta. Quero que o incômodo vire ação. Que a compaixão vire estrutura. Que o amor deixe de ser só palavra bonita em palestra e vire política do cotidiano.

E quando eu lembrar daquela senhora e daquelas duas crianças, sim porque em cada esqueina há muitas e muitas delas, sentadas na sarjeta, não quero que a imagem seja apenas um retrato triste na memória. Quero que seja um chamado permanente.

Um chamado para olhar menos para o chão onde eles estão sentados…
E mais para o alto do nosso próprio ego, onde ainda mora a indiferença.

Porque talvez o verdadeiro milagre social não seja tirar pessoas da rua.
Seja tirar a rua de dentro de nós.



Fernanda

Em casa, ainda sem net. Eles dizem que a caixa está sem potência.
Mas que hoje iriam resolver. Espero que sim, porque o trabalho continua mesmo sem estar no trabalho.
Saio da clínica, mas não saio da responsabilidade. O expediente termina no relógio, não na consciência. 
Há serviços que precisam para comunicação.A rua continua chamando, as dores continuam abertas, as urgências não respeitam horário comercial.
Mas…Com internet ou sem. 
Com sistema fora do ar, mas coração ligado. 
Porque quando a missão é amar, não existe modo avião.💪


17 janeiro, 2026

Entre Chá, Silêncios e Eternidades

Aleatoriamente um toque de poesia




Havia em teu olhar uma educação de sentimentos,
como nas salas antigas onde o amor se sentava ereto,
com postura, mas tremendo por dentro.
Eu, feita de minúcias, percebi:
não era paixão apressada era dessas que pedem luvas, tempo e coragem.

Caminhamos lado a lado,
mantendo a distância respeitável das convenções,
mas nossos silêncios conversavam em segredo,
trocando promessas tímidas
como bilhetes dobrados no bolso do coração.

Teu gesto contido,
ao oferecer-me o braço invisível do cuidado,
valeu mais que mil declarações barulhentas.
Pois no romantismo verdadeiro
o amor não grita 
ele persiste.

Observei-te em detalhes:
o modo como respiras antes de falar, como teus olhos pousam em mim
como quem pousa numa casa depois de longa viagem.
E ali entendi: há afetos que não precisam correr,
porque já chegaram.

Se um dia o mundo nos negar permissão, amarei mesmo assim, com a elegância rebelde das heroínas discretas, com a firmeza doce de quem escolhe ficar
sem perder a própria dignidade.

Pois amar-te,
meu caro,
é meu ato mais educadamente selvagem.
meu poema, meu esposo, meu amado

Fernanda

15 janeiro, 2026

Conexões possíveis

Aleatoriamente um toque de poesia




A internet por aqui anda quase escassa.
Na rua onde moro, ela simplesmente está… paradisíaca, existem mais na promessa do que na prática. Então é bom para trabalhar a paciência hahaha😜
Estou tendo acesso no trabalho, mas não posso blogar daqui 👍
Então os comentários seguem de pouquinho, apenas na hora do cafezinho, entre um gole e outro, como quem escreve à margem do tempo.

Se não chegar a todos, já sabem o motivo.
Não é falta de vontade, é falta de conexão mesmo dessas bem concretas.

Sabem? 
No fundo, a vida também funciona assim: nem sempre estamos disponíveis como gostaríamos, mas seguimos presentes do jeito que dá. E quando a conexão voltar, o afeto continua lá, intacto, esperando.


Beijinho a todos 
Fernanda

14 janeiro, 2026

Toda obra de arte carrega algo do seu autor.

Aleatoriamente um toque de poesia



Há quem procure Deus nas alturas,
há quem o busque nos livros,
há quem espere um sinal escrito no céu.

Eu aprendi a reconhecê-Lo em silêncio,
no que pulsa, cresce e insiste em viver.

Dizem que o nosso DNA é código,
sequência, combinação de letras químicas.
E é.
Mas para quem olha com os olhos da fé,
ele é também mensagem.

Não uma palavra escrita para ser lida,
mas uma intenção gravada para ser sentida.

Toda obra de arte carrega algo do seu autor.
O traço, a escolha, o cuidado,
até o modo como a luz repousa sobre a forma.
E se somos obra divina,
como não carregaríamos também essa assinatura?

Talvez o nome de Deus não esteja escrito
como os nomes humanos se escrevem.
Talvez esteja inscrito no “eu sou”
que habita cada célula viva.
No milagre da multiplicação de uma vida.
Na ordem que nasce desorganização.
Na beleza que sobrevive mesmo na fragilidade.

O DNA, esse livro microscópico,
não pronuncia letras sagradas,
mas revela uma inteligência amorosa
que organiza, sustenta e renova.
Para a ciência, é estrutura.
Para a fé, é testemunho.

Deus não precisou gravar Seu nome
para ser reconhecido.
Ele se assinou no ato de criar,
no sopro que anima,
no mistério que nenhuma lâmina consegue cortar,
nem nenhum microscópio esgotar.

Crer nisso não é negar a ciência.
É permitir que ela seja construção,
não muro.
É aceitar que existem verdades
que não cabem apenas nos olhos,
mas florescem no coração.

E assim sigo crendo:
não levo o nome de Deus escrito em letras,
mas carrego Sua assinatura em vida.
E isso, para mim, é suficiente.
Obrigada Pai!


Fernanda

13 janeiro, 2026

Fases

Aleatoriamente um toque de poesia




A vida não muda de uma vez. Ela muda de fase.
E a gente vai se adaptando a elas, quase sempre sem perceber.

Tem fase de pressa, em que tudo é urgente e o coração vive atrasado. Fase de espera, em que nada acontece do jeito que queremos, mas tudo acontece do jeito que precisa. Há fases barulhentas, cheias de gente, e fases silenciosas, onde até as perguntas falam baixo.

No começo, resistimos. Achamos que não era para ser assim. Que a vida devia voltar para a fase anterior, aquela em que sabíamos mais ou doía menos. Mas a vida não anda para trás. Ela ensina.

Adaptar-se não é desistir. É aprender a respirar no ritmo novo. É entender que o que ontem fazia sentido, hoje pode pesar. Que algumas ausências não são castigo, são cuidado. E que nem toda mudança vem para tirar muitas vêm para aliviar.

Há fases que nos encolhem para depois nos expandir. Outras nos esvaziam para que caiba algo diferente. E mesmo quando não entendemos, seguimos. Porque viver é isso: atravessar fases sem manual, confiando que a gente dá conta. 
E dá! 

Com tombos, com pausas, com recomeços discretos.
A gente vai se adaptando. E, aos poucos, se transformando.



Fernanda