A folha em branco ficou na minha mesa como quem espera um amigo.
Não pedia pressa só companhia. Abri-a devagar, como quem abre uma porta que range de saudade.
Escrevi uma frase pequena: tinha gosto de café e de manhã.
A segunda frase apareceu como quem traz um cobertor; a terceira, com um beijo roubado pela tarde.
Logo a folha virou janela: eu espiava por ela e o mundo devolvia um adeus que também era começo.
Há palavras que acolhem, outras que acendem.
As que sobraram guardei no bolso como quem guarda pão para mais tarde.
Deixei a janela aberta. O vento entrou, espalhou pó de sol e me trouxe um sorriso alheio.
Fechei a folha com carinho não por medo, mas por respeito.
A janela fica lá, prometida para amanhã:
quando eu quiser, sento-me de novo, abro a porta e deixo o dia escrever a mão que me habita.
Fernanda
