Há docilidade no gesto simples de prender o cabelo, como quem se prepara com cuidado para mais um dia de entrega. Esse coque baixo não é vaidade, é organização da aparência e do afeto antes de entrar no mundo do outro com respeito e responsabilidade.
Na medicina que exerço, aprendi que profissionalismo não é frieza. É presença serena. É saber ouvir sem pressa, tocar com delicadeza, falar com verdade e silêncio quando ele é necessário. O intervalo capturado na imagem é esse: o momento em que respiro fundo antes de ser médica, mas também mulher.
Sou mãe, e isso me ensinou a reconhecer dores que não se dizem. A entender o choro contido, o medo disfarçado, a fragilidade que pede colo antes de pedir remédio. Sou esposa, e aprendi o valor da parceria, do cuidado mútuo, da construção diária. Sou filha, e carrego em mim o aprendizado do respeito, da gratidão e da escuta. Sou amiga, e sei que, muitas vezes, estar é mais importante do que resolver.
Tudo isso entra comigo no consultório. Não deixo essas partes do lado de fora. Elas me tornam uma médica mais atenta, mais humana, mais inteira. A corrente fina nas costas, o vestido claro, a postura contida nada é acaso. Há delicadeza até na forma de sustentar o peso que a profissão impõe.
De costas, talvez eu diga sem palavras que não preciso ocupar o centro. Na medicina que escolhi viver, o centro é sempre o outro. Eu sou caminho, apoio, presença firme e gentil.
Essa fotografia não mostra minhas mãos, mas elas existem ali: cuidadosas, seguras, disponíveis. Mãos de médica, de mãe, de esposa, de filha, de amiga. Mãos que sabem que cuidar é um ato profissional, mas também profundamente amoroso.
Assim: discreta, comprometida, doce sem perder a força. Inteira, principalmente quando ninguém está olhando.
Ontem fiquei dez horas de pé. Não parei para almoçar, o café foi rápido, tomado quase sem perceber, sem tempo de sentar. O corpo reclamou em silêncio, como quem já aprendeu a esperar. As pernas pesavam, as costas pediam pausa, mas o coração seguia atento porque sempre havia alguém precisando mais naquele momento.
Houve cansaço, sim. Houve vontade de parar. Mas também houve propósito. Em cada atendimento, lembrei por que escolhi esse caminho. Porque ser médica, para mim, nunca foi só profissão; é um compromisso que atravessa o relógio, o corpo e, às vezes, até a fome.
Enquanto eu permanecia de pé, pensei nos meus. Nos filhos, no esposo, nos pais, nos amigos. Pensei em como todos eles vivem em mim, mesmo quando estou ausente fisicamente. É deles que tiro a doçura que não pode faltar, mesmo nos dias duros. É por eles que sigo com cuidado, tentando não endurecer o olhar nem apressar a escuta.
No fim do dia, exausta, percebi que ainda assim havia em mim uma calma estranha aquela que nasce quando sabemos que fizemos o melhor possível com o que tínhamos. Nem sempre dá tempo de cuidar de mim como eu gostaria, mas sigo aprendendo que também preciso me incluir na lista dos que merecem atenção.
Ser inteira é isso: sustentar o trabalho com profissionalismo, sem perder a ternura; ser forte sem deixar de ser suave; cuidar do outro, mas lembrar, aos poucos, de me cuidar também. Porque amanhã é domingo, mais uma vez, estarei ali de pé, presente, humana.
Fernanda
PS: Um domingo cheio paz!
Quando tiver um tempinho visito vocês😉