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Eu amo escrever. Escrevo porque às vezes não cabe tudo aqui dentro. Porque há sentimentos que só se organizam quando viram palavras, e pensamentos que só fazem sentido quando dançam na página. Amo também olhar o céu e talvez isso diga tudo. Há quem olhe o céu para prever o tempo, eu olho para prever a mim mesma. Há algo em observar as nuvens, as estrelas ou o silêncio azul que me faz lembrar que existe poesia mesmo nos dias comuns. Este blog nasce desse encontro: entre a escrita e o céu. Vai ser um espaço para dividir pensamentos, contar histórias, guardar pedaços de mim e talvez, de você também, que me lê agora. Obrigada por estar aqui. Que você se sinta à vontade. Que cada texto seja como uma janela aberta, onde o vento entra leve e, quem sabe, traz um pouco de luz também

✿Amor sempre....

✿Amor sempre....
Caminho entre flores. O chão continuará pra nós com outras paisagens. Sou o que sou, porque é tudo que sei ser. E todo meu olhar escrito que você nunca aprendeu a ler, permanecerá no descaso para quem não compreende.

18 maio, 2026

O pão dormido

Aleatoriamente um toque de poesia


Ser menina de rua era aprender a sentir fome em silêncio. Existe um tipo de fome que dói na barriga.
Mas existe outra que dói por dentro de outro jeito. Eu devia ter uns 5 anos quando descobri o horário em que a padaria jogava fora os pães dormidos do dia anterior. Não eram pães bonitos. Alguns estavam duros, outros amassados. Mas, para mim, pareciam banquetes.

Eu esperava sentada na calçada da esquina.
Aprendi a esperar sem chamar atenção. Criança de rua desenvolve uma espécie de invisibilidade triste. A gente percebe rapidamente quando incomoda os olhos das pessoas.
Naquela noite fazia muito, muito frio.
Eu abraçava os joelhos e observava pela vitrine as famílias comprando sonhos, bolos e leite quente. As crianças entravam de mãos dadas com os pais. Algumas reclamavam porque não queriam determinado sabor. E eu pensando que felicidade devia ser poder escolher.

Quando o padeiro apareceu com um saco preto, meu coração acelerou. Ele caminhou até a lixeira dos fundos e, antes de jogar tudo fora, me viu parada perto do muro.
Fiquei imóvel. Quem vive na rua aprende a ter medo até da bondade, porque nem toda aproximação vem sem crueldade escondida.
Ele me olhou por alguns segundos e perguntou:

Está com fome, menina?
Não respondi, só baixei a cabeça. A vergonha às vezes faz a fome perder a voz.
Então ele abriu o saco e colocou alguns pães nas minhas mãos. Estavam frios e um pouco duros, mas ainda tinham cheiro de padaria. E até hoje acho que nunca senti perfume melhor.

Agradeci baixinho.
E sorri timidamente.
Ele ainda entrou de novo e voltou com uma caneca de leite morno. Segurei aquilo com as duas mãos como quem segura um milagre.
Na rua, pequenos gestos crescem de tamanho.
Naquela noite, sentada na calçada, molhando o pão no leite, percebi uma coisa que nunca esqueci: o mundo tinha pessoas capazes de machucar crianças… mas também tinha gente que salvava um pedaço delas.

Talvez aquele homem nem imagine o que fez por mim.
Talvez, para ele, fossem apenas sobras, junto com sua bondade virou um banquete. Para a menina que eu era, aquele pão dormido trouxe de volta uma coisa que andava quase morrendo dentro de mim: a sensação de que eu ainda merecia cuidado.


Fernanda

17 maio, 2026

Quando o Senhor do Alto respondia

Aleatoriamente um toque de poesia

Naquela noite eu estava sentada na calçada olhando o céu de novo. Eu gostava de conversar com o Senhor do Alto quando tudo ficava silencioso, porque parecia que o barulho do mundo diminuía e Ele conseguia escutar melhor minhas perguntinhas.
Segurei uma tampinha de garrafa que eu fingia ser brinquedo e comecei:

Senhor do Alto… o senhor gosta de criança de rua?
Na mesma hora passou um cachorro magrinho e deitou pertinho de mim, encostando o focinho no meu pé. Eu ri baixinho.
Acho que isso foi um “sim”.
Fiz carinho nele e continuei olhando as estrelas.

O senhor fica triste quando eu choro escondido?
O vento soprou devagar no meu rosto, bem fresquinho, secando as lágrimas que eu nem tinha percebido que estavam caindo.
E eu achei que aquilo era resposta também.
Porque criança acredita nas delicadezas.

Depois perguntei:
O senhor sabe meu nome todinho?
Naquele instante, uma moça que passava carregando sacolas olhou para mim e falou: Boa noite, menina.

Menina. Talvez ela nem imagine, mas fazia tempo que ninguém falava comigo com voz mansa. Então abri um sorriso pequenininho. O senhor sabe sim… eu acho.
A lua estava enorme naquela noite. Parecia pão clarinho no céu. Fiquei olhando pra ela e contando minhas coisas: Hoje eu senti medo de novo. Mas eu fui corajosa também. Acho que coragem é um medinho que continua andando.

Uma folha seca caiu bem no meu colo. Peguei aquela folha e fiquei girando entre os dedos.
O senhor responde pelas coisinhas, né? O cachorro suspirou do meu lado. A moça da esquina começou a cantar baixinho enquanto fechava a janela. Uma estrelinha apareceu entre as nuvens. E eu senti um calorzinho bom dentro do peito.

Como se o céu estivesse conversando comigo sem palavras. Antes de dormir, deitei no papelão e falei:
Senhor do Alto… obrigada por não me deixar sozinha sozinha. O vento bateu de leve outra vez.
E eu dormi acreditando que Deus tinha jeitos muito pequenos e bonitos de abraçar uma menina perdida nas ruas.

Fernanda

16 maio, 2026

A menina que morava nas ruas

Aleatoriamente um toque de poesia
Noite de historinhas com a turminha.
Vamos lá!


Quando eu morava no orfanato, desapareceu um anel da senhora de lá.
Não demorou muito para apontarem o dedo para cada criança, 
mas porque eu fiquei calada o dedo firmou em mim.
A senhora do lugar entendeu que eu tinha pego.
Eu repetia baixinho que não sabia de nada, que nunca tinha visto aquele anel, mas parecia que minhas palavras não tinham peso algum. Às vezes, quando a gente é criança, a verdade da gente quase nunca encontra ouvidos.

Então veio o castigo.
Mandaram que eu ficasse de joelhos no caroço de milho.
No começo tentei ser forte. Apertava os dentes, olhava para o chão e fingia que não estava doendo tanto. Mas doía. Doía como se os joelhos queimassem por dentro. Às vezes  sentava sobre as próprias pernas só para aliviar um pouco, escondida, tentando descansar daquela dor miúda e insistente.
Só que, quando voltava a ajoelhar "normal", o milho parecia entrar na pele outra vez.

Foi então que imaginei um jeito de sobreviver.
Fechava os olhos e imaginava que aqueles caroços não eram milho. Imaginava que eram pequenos flocos de nuvens vindo beijar minha dor. Pensava nisso com tanta força que, por alguns segundos, o sofrimento diminuía. Era como se a imaginação fosse o único cobertor que eu tinha naquela época.

Hoje, olhando para trás, penso muito naquele tempo.
Parecia não existir amor ao próximo.
E me pergunto: como alguém consegue machucar uma criança e ainda acreditar que está educando? Como um lugar criado para acolher órfãos podia carregar tanta dureza dentro das paredes?
Talvez aquelas mulheres também fossem feridas pela vida. Talvez tivessem desaprendido a ternura. Mas nenhuma dor do mundo deveria transformar infância em castigo.

Os orfanatos sempre estiveram cheios de crianças sem lar, sem colo, sem defesa. E ainda hoje, quando vejo notícias sobre abandono, violência ou negligência, alguma coisa dentro de mim volta para aquele chão frio e para os joelhos marcados pelo milho.
Mas existe uma coisa curiosa sobre as crianças machucadas:

muitas sobrevivem criando beleza onde quase não existe esperança.
Eu sobrevivi imaginando nuvens. 
E talvez tenha sido ali, ajoelhada sobre a dor, que comecei a aprender que a imaginação também salva gente.

 

Fernanda

14 maio, 2026

A menina

Aleatoriamente um toque de poesia


Meus filhos foram habituados  a ouvir histórias nas noites de chuva e nas noites sem ela. 
Lhes dava a opção de escolher. E eles, não queriam príncipes, nem castelos, nem finais felizes demais. Queriam histórias “de verdade”, como diziam, e talvez por isso acabassem sempre ouvindo pedaços da menina que fui sem jamais conhecerem completamente aquela criança.

Numa dessas noites, contei a eles sobre o dia em que descobri que o frio também tinha dentes.

A chuva caía fina sobre o Rio e eu me escondi debaixo da marquise de uma loja fechada na Lapa. Tinha encontrado uma caixa de papelão quase inteira e achei aquilo uma riqueza. Passei quase uma hora ajeitando o papelão no chão para não deixar a água subir pelas costas enquanto dormia.

Naquela época, eu acreditava que os postes de luz protegiam as pessoas. Não sei de onde tirei isso. Talvez porque os monstros parecessem menos corajosos perto da claridade.

Então dormi agarrada numa garrafa vazia de guaraná que encontrei na rua porque ela ainda guardava um restinho de cheiro doce.

Meus filhos riram nessa parte.

Mãe, por que nao jogou a garrafa no lixo?
Não soube responder direito.
Talvez porque crianças aprendam cedo a amar aquilo que sobra. Ou talvez porque, naquela noite, o cheiro de guaraná tenha sido a única coisa bonita que me aconteceu.

Quando terminei a história, percebi que meus filhos estavam quietos. O menor deles segurou minha mão por baixo da coberta como quem segura uma coisa que quase se perdeu no mundo.

Lá fora, a chuva continuava caindo sobre os telhados da cidade, lavando as ruas por onde uma menina ainda parecia caminhar dentro de mim.

Então chegou a hora da oração antes de dormir.
É um ritual simples da nossa casa. Nada solene demais. Cada um agradecia do seu jeito: às vezes pela escola, às vezes pelo cachorro da vizinha, às vezes até pelo macarrão do jantar.

Naquela noite, porém, houve uma delicadeza diferente no quarto.
Clarinha e José juntaram as mãos primeiro:
Obrigada, Deus, porque a menina da história não ficou sozinha para sempre.

Os menores completaram: 
E porque ela cresceu.
Meus pais ficaram quietos, depois por alguns segundos. Depois, José  bem pertinho do meu ouvido falou: 
Obrigado Deus porque ela virou nossa mãe.

Senti os olhos encherem d’água, mas permaneci ali sorrindo na penumbra do corredor, enquanto a luz amarela do abajur deixava tudo com aparência de sonho antigo.

Antes de dormir, Aisha pergunta:  Mãe… você acha que Deus cuidava daquela menina?

Olhei para ela debaixo das cobertas e respondi:
Claro que sim amor . Acho que Deus nunca saiu do lado dela… mesmo quando ela não percebia.

Aisha fechou os olhos satisfeita.

E eu fiquei olhando meus filhos adormecerem devagar, protegidos, aquecidos, amados exatamente como toda criança merece ser.

Lá fora, o Rio continuava molhando  de chuva as minhas lembranças 

Mas dentro de mim, pela primeira vez em muitos anos, sabia que a menina da marquise já não sentia frio.

Fernanda

13 maio, 2026

O topo que não existe

Aleatoriamente um toque de poesia

Vivemos tempos em que muita gente caminha com pedras na mão. É impressionante como cresceu o número dos que seguem a lógica antiga do “olho por olho, dente por dente”. Uma espécie de vingança travestida de justiça, onde a pressa de reagir fala mais alto que o desejo de compreender. Pessoas que, mal são contrariadas, já se armam em discursos, em gestos, em indiferença.

São os mesmos que acreditam que a vida é um pódio permanente. Estão sempre correndo atrás do degrau mais alto, do título mais vistoso, da conquista mais chamativa. Gritam vitória antes mesmo de ter com quem dividir o brinde. E nessa corrida desenfreada, muitas vezes pisam, empurram, esbarram como se os outros fossem apenas obstáculos a serem vencidos, nunca companheiros de jornada.

Mas no fundo, o que é esse topo? Será que existe de verdade? Talvez seja só miragem de deserto, imagem que se desfaz quando nos aproximamos. Porque quanto mais alto alguém sobe nesse edifício imaginário do poder, mais percebe que não há teto, não há fim, não há descanso. É como subir uma escada rolante ao contrário: quanto mais força se faz, mais cansados ficamos.

A ironia é que, enquanto gastamos energia para conquistar esse “mundo”, esquecemos o pouco que bastaria para sermos felizes. Uma xícara de café quente dividida com um amigo. Um abraço demorado que dissolve mágoas. Uma mão que se estende sem esperar nada em troca. Coisas simples, quase abstratas aos olhos dos que vivem de conquistas externas, mas que são o verdadeiro ouro da vida.

O “olho por olho” pode até parecer justiça, mas no final deixa todos cegos. O “dente por dente” pode soar como revanche, mas transforma a boca num vazio sem palavras. Já o amor, mesmo pequenino, é abundante. Não exige troféu, não cobra vitórias. Ele se contenta em existir e já basta.

E, convenhamos, os caçadores de topo que não aprendem isso continuam correndo feito hamsters em roda de ouro, suando para conquistar títulos que ninguém vai lembrar, brigando por lugares que só existem na própria imaginação. Fazem reuniões para decidir quem tem a cadeira mais importante, mas esquecem de almoçar, rir ou perceber que a chuva molha os pés de todos igualmente. Enquanto isso, a vida real passa, sorrindo da nossa pressa, com um café compartilhado, um abraço inesperado e a deliciosa sensação de que, às vezes, o topo mesmo é sentar no sofá, de pantufas e pijama, e perceber que se ser feliz exigisse tanto esforço, seria o maior esforço inútil da história.

No fim, esses caçadores do impossível podem continuar tentando escalar o topo do nada, enquanto a gente vai vivendo, rindo e descobrindo que, para amar, para se alegrar e para ser pleno, basta muito pouco e que essa pouca coisa é, na verdade, tudo. Se eu pudesse lhe dar um conselho diria: busque a PAZ!😉

Fernanda

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