Às vezes, penso que o livre-arbítrio é feito de esquinas.
Aquelas que a gente dobra sem saber o que tem depois
mas ainda assim escolhe virar.
Então, decido pintar um quadro, porque eu gosto de pintar.
Dizem que somos livres.
Mas ninguém explica direito o peso das asas.
Liberdade é bonita no papel, na teoria, na boca dos outros.
Na prática, ela exige responsabilidade, sabedoria e coragem
Porque não tem desculpa pronta quando a decisão é sua.
É fácil dizer “faça o que quiser”.
Difícil é sustentar o que se escolheu.
Difícil é olhar para trás e não culpar o mundo,
o tempo a infância.
Difícil é dizer: “Eu fiquei porque quis.”
“Eu fui porque precisei.”
“Eu calei por escolha, não por medo.”
O livre-arbítrio não mora só nas grandes decisões.
Mora no tom que escolho usar quando alguém me contraria.
Naquela mensagem que não envio.
Naquela palavra que guardo.
Naquele abraço que ofereço mesmo sem receber.
Mora na coragem de amar de novo, sabendo o que já doeu antes.
E também mora nas escolhas que a gente não controla,
mas decide como atravessar.
Não escolhi algumas perdas.
Mas escolhi como guardar quem partiu.
Não escolhi a dor
mas escolhi não me tornar amarga.
O livre-arbítrio, às vezes, é só isso:
a chance de tentar outra vez,
de escolher com o coração mais limpo, mais experiente, mais sábio,
de parar de repetir padrões que já não vestem mais.
E se há um destino, talvez ele esteja escrito a lápis.
Pra que a gente possa escrever por cima,
com mãos trêmulas, mas inteiras.
Porque o que nos foi dado de mais divino não foi o controle
foi a possibilidade de responder com consciência.
Mesmo que a resposta venha depois de muitas tentativas.
A vida é generosa assim:
nos oferece escolhas
e nos dá o tempo de aprender a escolhê-las melhor.
Concordam?
Fernanda
