Houve um tempo em que eu acreditava que amar alguém era uma espécie de morada. A gente chegava, deixava os sapatos à porta, espalhava pequenos sonhos pela sala e imaginava que, dali em diante, haveria sempre alguém esperando pelo nosso retorno.
Eu não sabia que algumas casas existem apenas para nos ensinar a voltar para nós mesmos. Durante muito tempo, procurei você nas horas vazias, nas tardes demoradas, nas pequenas lembranças que insistiam em aparecer sem serem convidadas. Havia dias em que qualquer coisa me fazia pensar em nós: uma música, uma palavra, o cheiro de café, uma janela aberta para o fim da tarde. E eu, tão cheia de esperança, inventava continuidades onde talvez já houvesse apenas despedidas.
Você tinha um jeito peculiar de se afastar sem precisar partir. Estava ali, mas parecia morar muito longe. Eu conversava com o silêncio e, de alguma maneira, esperava que ele me respondesse.
Talvez essa tenha sido a minha maior ilusão: imaginar que, se eu tivesse paciência suficiente, carinho suficiente, compreensão suficiente, conseguiria alcançar o lugar onde você escondia o que sentia.
Só depois compreendi que ninguém pode ser alcançado quando escolhe permanecer distante. Houve uma noite em que alguma coisa dentro de mim cansou. Não foi uma revolta. Não houve portas batendo, acusações. Foi apenas aquela calma compreensão que chega quando o coração, depois de insistir tanto, finalmente entende. Eu não precisava mais convencer ninguém a ficar.
Foi estranho perceber isso.
Porque, durante muito tempo, achei que perder você significaria perder uma parte de mim. E aconteceu justamente o contrário. Quando você deixou de ocupar todos os espaços dos meus pensamentos, comecei a encontrar coisas minhas que eu havia esquecido.
Voltei a gostar das minhas próprias manhãs. Voltei a prestar atenção no céu.
Voltei a perceber que uma tarde podia ser bonita mesmo quando ninguém me escrevia.
Voltei a rir sem precisar contar a razão.
E descobri uma coisa quase desconcertante: eu ainda existia inteira. Talvez eu tenha me procurado em você porque ainda não sabia onde me encontrar. Talvez aquele sentimento tenha sido menos sobre possuir alguém e muito mais sobre descobrir quem eu era quando alguém me olhava. Eu queria ser escolhida, compreendida, lembrada. Queria que alguém reconhecesse em mim aquilo que eu mesma ainda não conseguia enxergar.
E, quando isso não aconteceu, pensei que o problema fosse a minha falta.
Não era. Há pessoas que chegam para despertar alguma coisa em nós e depois seguem o caminho delas. Não necessariamente porque foram cruéis ou porque nós fomos insuficientes. Às vezes, simplesmente não sabemos construir juntos aquilo que, sozinhos, sonhamos tão bonito.
Você seguiu.
Eu também.
E, embora tenha demorado, compreendi que não precisava transformar o passado em inimigo para conseguir deixá-lo para trás.
Algumas histórias não terminam com uma grande cena. Terminam devagar, como a luz desaparecendo de uma sala ao entardecer. Quando percebemos, já não há mais claridade suficiente para continuar enxergando a mesma coisa.
Então a gente fecha a janela.
Não por raiva.
Por respeito à própria paz.
Hoje, quando penso naquele tempo, não desejo apagar nada. Até aquilo que doeu teve alguma serventia. Foi através daquela ausência que aprendi a reconhecer minha presença.
Eu queria que você desse amor.
Acabei aprendendo a me dar companhia.
Eu esperava uma declaração.
Recebi uma compreensão.
Eu imaginava que precisava ser escolhida.
Descobri que também precisava escolher a mim.
E talvez essa seja uma das formas mais bonitas de crescimento: perceber que algumas pessoas foram capítulos importantes, mas não precisam continuar sendo o livro inteiro.
Ainda existe um jardim em mim. Por algum tempo, pensei que ele tivesse morrido.
Não morreu. Apenas ficou sem cuidados enquanto eu esperava alguém voltar para regá-lo. Hoje sou eu quem abre a torneira. Sou eu quem poda os galhos secos.
Sou eu quem planta novamente. E, quando alguma flor aparece, já não fico esperando que alguém venha admirá-la.
Eu mesma paro diante dela.
E sorrio. Porque finalmente entendi que, em certos amores, a pessoa que tanto procurávamos no outro éramos nós.
Fernanda
Fechando naquele tom de psicologia, autoconhecimento e delicadeza
Não se assustem apenas um texto aleatório.😜