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Eu amo escrever. Escrevo porque às vezes não cabe tudo aqui dentro. Porque há sentimentos que só se organizam quando viram palavras, e pensamentos que só fazem sentido quando dançam na página. Amo também olhar o céu e talvez isso diga tudo. Há quem olhe o céu para prever o tempo, eu olho para prever a mim mesma. Há algo em observar as nuvens, as estrelas ou o silêncio azul que me faz lembrar que existe poesia mesmo nos dias comuns. Este blog nasce desse encontro: entre a escrita e o céu. Vai ser um espaço para dividir pensamentos, contar histórias, guardar pedaços de mim e talvez, de você também, que me lê agora. Obrigada por estar aqui. Que você se sinta à vontade. Que cada texto seja como uma janela aberta, onde o vento entra leve e, quem sabe, traz um pouco de luz também

✿Amor sempre....

✿Amor sempre....
Caminho entre flores. O chão continuará pra nós com outras paisagens. Sou o que sou, porque é tudo que sei ser. E todo meu olhar escrito que você nunca aprendeu a ler, permanecerá no descaso para quem não compreende.

22 maio, 2026

Conversa com o Senhor do Alto

Aleatoriamente um toque de poesia


Naquele tempo eu achava que Deus morava somente no Céu bem a cima das nuvens. Eu o chamava de “Senhor do Alto”. Era noite, e eu estava deitada num pedaço de papelão atrás de uma venda fechada. O vento fazia frio nos meus pés, mas eu gostava de olhar o céu porque parecia que as estrelas piscavam para mim . Então comecei a conversar com Ele.

Senhor do Alto… o senhor tá acordado? Fiquei esperando um pouquinho, como se o céu pudesse responder. Hoje eu comi pão. O senhor gosta de pão durinho? Eu gosto quando molha no leite, sabe que gosto tem leite ? Agora eu sei. 
Abracei minhas pernas e continuei falando baixinho.
O senhor fez as estrelas tudo sozinho? Porque é um monte, né? O senhor não cansou não?

Depois fiquei séria.
Senhor do Alto… por que algumas mamães deixam as filhas irem embora delas? O senhor viu quando eu fui deixada lá na dona Rosa?  Eu chorei baixinho pra ninguém brigar comigo?
O vento soprou mais forte e eu olhei para cima de novo.
Às vezes eu acho que o senhor esqueceu de mim um tiquinho… mas depois eu acho que não, porque sempre aparece alguém bom. Igual o moço do pão e daí meu coração sente que o Senhor está me cuidando.

Fiquei pensando um tempão antes de perguntar outra coisa:
O senhor mora mesmo aí em cima ou mora escondidinho dentro das pessoas boas também?
Achei bonita aquela pergunta. Criança também sente quando cria pensamento bonito.
Então sorri sozinha. Morou dentro do moço do pão hein?

Quando eu crescer, eu vou ter uma casa. E nela ninguém vai ajoelhar no milho. Nem ficar sozinho no frio. Pode?
Fechei os olhos devagar.
E outra coisa… eu amo o senhor um tantão assim ó…
Abri os braços no escuro, bem grandão, mesmo sem ninguém vendo.
Tão tantão que nem cabe aqui dentro de mim.
Depois fiquei quietinha olhando a lua.
E naquela noite, pela primeira vez em muito tempo, dormi sentindo que talvez o Senhor do Alto estivesse mesmo sentado ali pertinho, ouvindo cada pergunta da menina pequena que conversava com o céu.



Fernanda!

Estou  escrevendo os episódios da Fernandinha que fui. 
Um pedido de André , de meus pais e das crianças. 
E, pensando bem, 
percebi que não são apenas as crianças que gostam de ouvir  sobre a Fernandinha, 
a turma toda senta juntinhos ao lado na hora da história 🫣

19 maio, 2026

Era ela

Aleatoriamente um toque de poesia



Depois do episódio do anel, Fernandinha fugiu.
Ninguém soube direito a hora exata. Só perceberam quando o dormitório amanheceu com uma cama vazia e a janela dos fundos entreaberta. Ela tinha saído levando apenas um pedaço de pano que era seu lençol e a coragem que só as crianças abandonadas parecem conhecer.

Andou pelas ruas sem destino, pequena demais para aquele mundo grande e apressado. Passava gente de todo tipo, carros, bicicletas, vendedores gritando nas esquinas… e Fernandinha caminhando sozinha, com os pés cansados e os olhos atentos, como quem tentava entender onde terminava o medo e começava a liberdade.

No primeiro dia, chorou escondida atrás de uma banca fechada.
No segundo, já aprendeu a observar sem abaixar a cabeça.
No terceiro, descobriu que a cidade tinha lugares onde ninguém fazia perguntas.
porque havia o medo de ser encontrada e levada de volta.

Foi assim que chegou perto da feira.
À noite, quando os feirantes iam embora, sobravam frutas machucadas, caixas quebradas e folhas espalhadas pelo chão. Fernandinha começou ajudando a empurrar carrinhos vazios em troca de comida. Pequena demais para carregar peso, mas rápida como passarinho.

Um feirante chamado Seu Antero olhou desconfiado para ela certa manhã:
 Cadê tua mãe, menina?

Fernandinha respondeu sem parar de separar tomates aproveitáveis dos estragados:
Não tenho aqui agora, mas ela vai chegar.
Voce mora aqui perto?
Bem pertinho sim senhor.
Quantos anos tem?
O senhor gosta de cafe com leite?
Ele ficou em silêncio. Talvez porque certas respostas carreguem um peso que nem adulto consegue sustentar.

Foi perto dali que Fernandinha descobriu outra fome.
Não a da barriga.
A das palavras.

Toda noite, depois que a igreja fechava, ela recolhia folhas jogadas no lixo: pedaços de jornais, orações antigas, bilhetes, folhetos de missa. Guardava tudo numa sacola azul que encontrou perto da praça.
Ela ainda não sabia ler. Mas observava as letras como quem observa estrelas.

Elas devem querer dizer alguma coisa importante murmurava sozinha.
Então copiava os desenhos das palavras no chão com um graveto, repetindo as formas até decorar. Às vezes errava, apagava com a mão e começava outra vez.
Numa dessas noites, o zelador da igreja percebeu a menina sentada no degrau frio da escadaria, cercada de papéis velhos.

O que você faz aqui tão tarde menina?
Não é hora de estar em casa?
Onde está sua mãe?
Vá para casa!

Fernandinha levantou os olhos devagar e respondeu:
Estou tentando aprender as letras antes que joguem elas fora também.
Por que disse isso? Ele perguntou com jeitinho.

Porque a dona Rosa dizia todos os dias, que somos velhos pequenos e por isso fomos jogados fora.
Mas eu, quando vejo as palavras sinto aqui dentro que elas devem querer dizer alguma coisa importante murmurava baixinho.

Então copio os desenhos das palavras no chão com um graveto, repetindo as formas até decorar. Às vezes erro, apago e começo outra vez.
O zelador da igreja ficou em silêncio. Não daquele silêncio vazio dos adultos distraídos.
Mas de um silêncio pesado, daqueles que mexem em lugares antigos dentro da gente.
Olhou para a menina magra, de vestido gasto e joelhos riscados de poeira, rostinho sujo, desenhando letras tortas no chão como quem plantava esperança na pedra.

Então, ele não mandou mais Fernandinha embora.
Entrou devagar na igreja e voltou trazendo um pedaço de pão, uma caneca de café com leite morno e um catecismo velho de capa azul.
Sabe ler isso aqui?
Ela balançou a cabeça negativamente.

Então vamos começar pelo seu nome está bem?
Fernandinha segurou o livro com cuidado. Como se segurasse uma coisa viva.
O zelador escreveu no chão:
F E R N A N D A.

Ela observou cada letra demoradamente.
Essas letras sou eu?
perguntou baixinho.

São.
E ninguém pode jogar fora.
Fernandinha sorriu pela primeira vez sem medo.

Naquela madrugada fria, enquanto a cidade dormia sem notar sua existência, uma menina abandonada descobria uma coisa enorme: o próprio nome.

E talvez seja esse o primeiro milagre que acontece com quem passa a vida inteira sendo chamado de “menina”, “órfã”, “coitada” ou “problema”.
Quando alguém finalmente aprende o próprio nome… começa devagarinho a existir.

Os anos passaram.

A feira mudou.
Seu Antero envelheceu.
A igreja ganhou tinta nova nas paredes.
E a menina dos papéis jogados cresceu junto das palavras que recolhia do chão.

Fernanda aprendeu a ler.
Depois aprendeu a escrever.
E mais tarde descobriu que algumas dores, quando sobrevivem ao tempo, viram histórias capazes de aquecer outras vidas.

Nunca esqueceu daquela frase: “Estou tentando aprender as letras antes que joguem elas fora também.”
Talvez porque, no fundo, ela soubesse: não eram apenas as letras que tentavam sobreviver.

Era ela.



Fernanda

18 maio, 2026

O pão dormido

Aleatoriamente um toque de poesia


Ser menina de rua era aprender a sentir fome em silêncio. Existe um tipo de fome que dói na barriga.
Mas existe outra que dói por dentro de outro jeito. Eu devia ter uns 5 anos quando descobri o horário em que a padaria jogava fora os pães dormidos do dia anterior. Não eram pães bonitos. Alguns estavam duros, outros amassados. Mas, para mim, pareciam banquetes.

Eu esperava sentada na calçada da esquina.
Aprendi a esperar sem chamar atenção. Criança de rua desenvolve uma espécie de invisibilidade triste. A gente percebe rapidamente quando incomoda os olhos das pessoas.
Naquela noite fazia muito, muito frio.
Eu abraçava os joelhos e observava pela vitrine as famílias comprando sonhos, bolos e leite quente. As crianças entravam de mãos dadas com os pais. Algumas reclamavam porque não queriam determinado sabor. E eu pensando que felicidade devia ser poder escolher.

Quando o padeiro apareceu com um saco preto, meu coração acelerou. Ele caminhou até a lixeira dos fundos e, antes de jogar tudo fora, me viu parada perto do muro.
Fiquei imóvel. Quem vive na rua aprende a ter medo até da bondade, porque nem toda aproximação vem sem crueldade escondida.
Ele me olhou por alguns segundos e perguntou:

Está com fome, menina?
Não respondi, só baixei a cabeça. A vergonha às vezes faz a fome perder a voz.
Então ele abriu o saco e colocou alguns pães nas minhas mãos. Estavam frios e um pouco duros, mas ainda tinham cheiro de padaria. E até hoje acho que nunca senti perfume melhor.

Agradeci baixinho.
E sorri timidamente.
Ele ainda entrou de novo e voltou com uma caneca de leite morno. Segurei aquilo com as duas mãos como quem segura um milagre.
Na rua, pequenos gestos crescem de tamanho.
Naquela noite, sentada na calçada, molhando o pão no leite, percebi uma coisa que nunca esqueci: o mundo tinha pessoas capazes de machucar crianças… mas também tinha gente que salvava um pedaço delas.

Talvez aquele homem nem imagine o que fez por mim.
Talvez, para ele, fossem apenas sobras, junto com sua bondade virou um banquete. Para a menina que eu era, aquele pão dormido trouxe de volta uma coisa que andava quase morrendo dentro de mim: a sensação de que eu ainda merecia cuidado.


Fernanda

17 maio, 2026

Quando o Senhor do Alto respondia

Aleatoriamente um toque de poesia

Naquela noite eu estava sentada na calçada olhando o céu de novo. Eu gostava de conversar com o Senhor do Alto quando tudo ficava silencioso, porque parecia que o barulho do mundo diminuía e Ele conseguia escutar melhor minhas perguntinhas.
Segurei uma tampinha de garrafa que eu fingia ser brinquedo e comecei:

Senhor do Alto… o senhor gosta de criança de rua?
Na mesma hora passou um cachorro magrinho e deitou pertinho de mim, encostando o focinho no meu pé. Eu ri baixinho.
Acho que isso foi um “sim”.
Fiz carinho nele e continuei olhando as estrelas.

O senhor fica triste quando eu choro escondido?
O vento soprou devagar no meu rosto, bem fresquinho, secando as lágrimas que eu nem tinha percebido que estavam caindo.
E eu achei que aquilo era resposta também.
Porque criança acredita nas delicadezas.

Depois perguntei:
O senhor sabe meu nome todinho?
Naquele instante, uma moça que passava carregando sacolas olhou para mim e falou: Boa noite, menina.

Menina. Talvez ela nem imagine, mas fazia tempo que ninguém falava comigo com voz mansa. Então abri um sorriso pequenininho. O senhor sabe sim… eu acho.
A lua estava enorme naquela noite. Parecia pão clarinho no céu. Fiquei olhando pra ela e contando minhas coisas: Hoje eu senti medo de novo. Mas eu fui corajosa também. Acho que coragem é um medinho que continua andando.

Uma folha seca caiu bem no meu colo. Peguei aquela folha e fiquei girando entre os dedos.
O senhor responde pelas coisinhas, né? O cachorro suspirou do meu lado. A moça da esquina começou a cantar baixinho enquanto fechava a janela. Uma estrelinha apareceu entre as nuvens. E eu senti um calorzinho bom dentro do peito.

Como se o céu estivesse conversando comigo sem palavras. Antes de dormir, deitei no papelão e falei:
Senhor do Alto… obrigada por não me deixar sozinha sozinha. O vento bateu de leve outra vez.
E eu dormi acreditando que Deus tinha jeitos muito pequenos e bonitos de abraçar uma menina perdida nas ruas.

Fernanda

16 maio, 2026

A menina que morava nas ruas

Aleatoriamente um toque de poesia
Noite de historinhas com a turminha.
Vamos lá!


Quando eu morava no orfanato, desapareceu um anel da senhora de lá.
Não demorou muito para apontarem o dedo para cada criança, 
mas porque eu fiquei calada o dedo firmou em mim.
A senhora do lugar entendeu que eu tinha pego.
Eu repetia baixinho que não sabia de nada, que nunca tinha visto aquele anel, mas parecia que minhas palavras não tinham peso algum. Às vezes, quando a gente é criança, a verdade da gente quase nunca encontra ouvidos.

Então veio o castigo.
Mandaram que eu ficasse de joelhos no caroço de milho.
No começo tentei ser forte. Apertava os dentes, olhava para o chão e fingia que não estava doendo tanto. Mas doía. Doía como se os joelhos queimassem por dentro. Às vezes  sentava sobre as próprias pernas só para aliviar um pouco, escondida, tentando descansar daquela dor miúda e insistente.
Só que, quando voltava a ajoelhar "normal", o milho parecia entrar na pele outra vez.

Foi então que imaginei um jeito de sobreviver.
Fechava os olhos e imaginava que aqueles caroços não eram milho. Imaginava que eram pequenos flocos de nuvens vindo beijar minha dor. Pensava nisso com tanta força que, por alguns segundos, o sofrimento diminuía. Era como se a imaginação fosse o único cobertor que eu tinha naquela época.

Hoje, olhando para trás, penso muito naquele tempo.
Parecia não existir amor ao próximo.
E me pergunto: como alguém consegue machucar uma criança e ainda acreditar que está educando? Como um lugar criado para acolher órfãos podia carregar tanta dureza dentro das paredes?
Talvez aquelas mulheres também fossem feridas pela vida. Talvez tivessem desaprendido a ternura. Mas nenhuma dor do mundo deveria transformar infância em castigo.

Os orfanatos sempre estiveram cheios de crianças sem lar, sem colo, sem defesa. E ainda hoje, quando vejo notícias sobre abandono, violência ou negligência, alguma coisa dentro de mim volta para aquele chão frio e para os joelhos marcados pelo milho.
Mas existe uma coisa curiosa sobre as crianças machucadas:

muitas sobrevivem criando beleza onde quase não existe esperança.
Eu sobrevivi imaginando nuvens. 
E talvez tenha sido ali, ajoelhada sobre a dor, que comecei a aprender que a imaginação também salva gente.

 

Fernanda

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